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domingo, 21 de dezembro de 2025

PEGAS NO FLAGRA!

Tem doido pra td nessa vida,não é pessoas?
Bom,essa aqui copiou dois textos meus e deu uma difarçada:

Cópia dela:

http://luxuriaa.blogspot.com/2009/10/qualquer-dia-dessesquero-que-em-um.html#comments

E meus posts:

http://pensaela.blogspot.com/2009/08/qualquer-dia-dessesquero-que-em-um.html

http://pensaela.blogspot.com/2008/05/um-poema-nada-inpessoal-ela-era-o-dia.html

Não!Detalhe que o blog dela é fechado para CONTEÚDO ADULTO!MEUS TEXTOS AGORA ESTÃO NAS PÁGINAS DE CONTEÚDO ADULTO O.O!


Essa daqui tabém,mas ela vai na maior cara de pau mesmo!Copia td na íntegra:

Cópia dela:

http://simplismentemiih.blogspot.com/2008/11/cebola.html

Texto meu:

http://pensaela.blogspot.com/2009/01/se-algum-por-acaso-se-apaixonar-por.html

Eu pelo menos,morreria de vergonha no lugar desse povo que não tem a competência de escrever um post em seu próprio blog!Copiou,faça logo uma homenagem de uma vez e coloque os créditos!NÃO USE O TEXTO COMO SE FOSSE SEU!TENHA O MÍNIMO DE VERGONHA NA CARA!
Pior é que comentei no blog dessa segunda e ela apagou meu comentário.
E no da primeira,nem dá pra comentar.
Mas é assim mesmo gente,o que fazemos numa situação dessas????
Sem contar uns blogs que vi que copiaram meus textos,mas que estão fora do ar.
Que coisa,não!Tsc tsc tsc.
Só digo uma coisa:Pode copiar!
Pode,copia mesmo,é o máximo que pessoas desse tipo podem fazer!Eu posso escrever um zilhão de posts novos,pois eu CRIO o que escrevo.
Humpf !
Sorry pessoas,foi um desabafo (de nv,rs).
A arte anda comendo o meu cérebro. Não a arte em si, mas todas essas discussões que fazem-se a cerca dela. Eu amo arte, muito, de mais, mas poxa vida... As pessoas esquecem que há outros setores da vida.
Me cansa muito esse endeusamento que ainda fazem quando fala-se sobre arte, como se ela fosse a única responsável por mudança nas pessoas e no mundo, como se “só a arte salva!”.
Claro que a arte é uma forma de voz e expressão, mas não só ela. Penso até mesmo se o que quero é trabalhar com arte a vida toda.
O mal das pessoas que lidam com a arte é que muitas acabam se alienando achando que estão saindo fora da alienação, quando na verdade não estão. Vejo discursos prontos, revoltas na ponta da língua e sonhos quase idênticos. Sem contar na vestimenta e nos cortes de cabelo dos “novos artistas” ou estudantes de arte. Todos iguais pensando que são diferentes. E obviamente, estou incluída nisso.
Detesto pseudo-revolucionários de faculdades de elite. Acho o cúmulo do absurdo essas meninas que pagam não sei quanto por uma bota velha e ficam caçando brechós para se denominarem “cults”. Se bem que estou sendo muito chata.pois isso acontece em várias áreas, toda área tem seu estereótipo e pessoas que se moldam a ele. Eu mesma estou junta e misturada nisso.
E claro que não estou falando de todos! Mas falta um pouco de senso crítico em pessoas que pensam estar cheias dele.
Agora, chega de reclamar e bora ler os textos dobre arte.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Caminhos da magia

Um belo dia, esse ano, me dei conta que sou uma bruxa “de verdade”. Isso aconteceu quando eu descobri que para praticar magia eu não precisava seguir uma religião ou deus.

Falando rapidamente sobre a minha trajetória e o porquê de eu ter apenas me descoberto bruxa, e não me tornado, como acredito:
Eu sempre tive questões fortes ligadas à espiritualidade e facilidade para algumas coisas “sobrenaturais” ou “esotéricas” . Desde muito criança eu tinha projeções astrais e “amigos imaginários”. Gostava de brincar sozinha com pedras,plantas e minha próprias teorias sobre a vida, o universo e tudo mais. Também tinha sonhos premonitórios e uma intuição muito forte sobre pessoas e situações. Ou seja: o mundo invisível sempre foi muito comum para mim! O que me fez parecer uma criança que “não amadureceu”, já que fadas, duendes, seres do astral para mim não eram fantasia, eram reais!

Quando adolescente, tive uma experiência com ayhauasca que me traumatizou muito e me fez correr para a igreja evangélica, me batizando. Mas mesmo lá dentro, minha conexão com o astral era muito forte! Não demorou nada para minha mediunidade começar a ser trabalhada e eu “falar a língua dos anjos”, que hoje vejo como o processo da incorporação. Rebelde, aprendi a ler tarô sozinha ainda dentro da igreja e lia para muitas pessoas.
Quando saí do meio evangélico, não quis me envolver com nenhuma religião, até que após 3 anos sem frequentar nenhum lugar, comecei a conhecer o espiritismo kardecista e lá estou.

Porém, algumas coisas ficavam meio no ar: eu sentia uma necessidade que o espiritismo não tem, de me ligar ritualísticamente à Deus,cosmos e etc! E foi aí que eu descobri a Bruxaria Natural, onde eu poderia me ligar à magia de fato, sem precisar abandonar td minha história de vida com o cristianismo e outras questões cuturais. Comecei um curso de bruxaria natural que não gostei por achar muito superficial e iniciei meus estudos como solitária, que foi onde de fato me desenvolvi magisticamente. Hoje faço um outro curso de magia e continuo estudando muito sozinha. Fui descobrindo inúmeras vertentes na magia, com muitas escolas e nomes diferentes. Considero-me então uma bruxa ainda procurando meu lugar, já que o termo “bruxaria natural” me parece hoje em dia, um tanto vago da forma como ele é abordado na internet,principalmente. Além disso, também me descobri benzedeira e me tornei Reikiana.

Por isso mesmo, mudei muito a minha visão pessoal sobre a bruxaria, sobretudo quando falamos de mulheres.

Não acredito mais no conceito de que “toda mulher é uma bruxa só por ser mulher”. Não é bem assim! Uma, que a bruxaria sempre foi amplamente praticada por homens e mulheres. Gardner, Alex Sanders, Crowley, Cunningan são alguns nomes de grandes magos que fundaram e difundiram tradições mágicas na modernidade. O engano que ocorre quando se fala que “toda mulher é bruxa” é justamente pelo fato de que, tudo o que não fosse considerado cristão ou ameaçasse o poder político da igreja, era considerado bruxaria. E uma coisa que a igreja não queria de maneira alguma eram mulheres no poder! Então, todas as mulheres foram consideradas pejorativamente “bruxas”. Não porque elas praticavam a antiga religião, não porque elas praticavam ritos mágicos, mas por serem mulheres. Muitos homens que de fato praticavam magia eram absolvidos, mas mulheres, muito dificilmente, mesmo que as mesmas não fossem bruxas realmente.

Outra coisa: saber sobre o poder medicinal das ervas, fases da lua,etc, não necessariamente é magia! Pode sim, ser usada dessa forma, mas quase nunca é! Na agricultura trabalha-se muito com as fases da lua para colheitas e ninguém chama isso de bruxaria, por exemplo. Realizar partos,igualmente. O que acontece é que,novamente: tanto a igreja quanto a ciência na epoca não queriam competições! Então, se você soubesse se curar com ervas, se fosse parteira, você seria chamada de bruxa e julgada pela Santa Inquisição.

Mas e o resgate do Sagrado Feminino? Não é um resgate da bruxaria? Não precisa ser! Não precisa ser nem feminista também! Você pode ser uma mulher de direita e trabalhar o sagrado feminino! Buscar a sacralidade em si não necessariamente é um atestado de “estou fazendo uma feitiçariazinha aqui com a minhas irmãs bruxas”. Esse conceito é muito raso e coloca de novo, tudo o que não é considerado cristão num balaio de gatos chamado “bruxaria” e sempre de uma maneira muito equivocada.

O que hoje eu considero bruxaria é de fato, a busca pelo conhecimento e prática da magia! Sendo ela natural, wicanna, alexandrina, do caos, thelema, de vidas passadas ou vida recente. Há pessoas, como eu, que sempre tiveram uma predisposição para a bruxaria mesmo quando não tinham consciência disso. Há bruxas dentro de igrejas, há bruxas atéias, há bruxas em toda parte! Mas a bruxa estuda, pratica, se dedica à sua arte! Todos nós fazemos magia o tempo inteiro, todos nós podemos ser bruxos,mas só alguns desenvolvem o estudo e o estilo de vida ligado ao ocultismo. Você pular 7 ondas no Ano Novo, gostar de acender incensos e ter vários cristais não te torna uma bruxa, mas te torna uma pessoa que pode desenvolver esse lado se assim desejar!
Vamos?

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Vão querer te por no seu lugar

A de garrafa, que é a mais gostosa!


Tem um episódio na minha vida que nunca esqueço quando se trata de lembrar que eu, apesar de ter uma graduação, estar na segunda, ter uma pós e ter trabalhado em diversos lugares cheio de pessoas privilegiadas socialmente, continuo não passando de uma favelada.

Certa vez, em um desses lugares que trabalhei cheio de gente embasada teoricamente que respeitam seu lugar de fala e que choram com a desigualdade social, houve um piquenique, como sempre havia. Mas esse era diferente! Foi combinado que seria um piquenique “Queijos e vinhos”, ou seja, só com coisa fina! No grupo do Facebook, ao ser questionada sobre o que eu iria levar, pensei que talvez nem todos bebessem bebida alcóolica. Pensando nessas pessoas, respondi que levaria uma Coca-Cola. Quando declarei isso, uma dessas pessoas engajadas e esclarecidas escreveu no grupo que eu era “De categoria”, que era “Queijos e vinhos e não salgadinho e refrigerante” e que “tudo bem eu levar Coca, mas que eu fosse com a fome condizente ao que eu levaria”. Na hora eu fiquei extremamente em dúvida se essa pessoa estava brincando ou falando sério. Senti-me constrangida, não pertencente ao grupo e tive grande vontade de não comparecer ao piquenique no outro dia.

Quem é da periferia sabe o quanto aqui, certos artigos são luxo. Não interessa se você acha um horror o capitalismo selvagem que a Coca-Cola produz e que ela destrói seu organismo. Não interessa se você acha uma atrocidade à matança dos animais e quer que o mundo seja vegano. Não interessa que existam vinhos do mesmo preço de uma Coca-Cola ou se dá pra comer bem sem comer carne: o que interessa é o valor simbólico embutido nesses alimentos! A exemplo disso, uma tia de alguém que conheço , em uma conversa disse : “ Hoje eu sou rica! Não reclamo de nada! Eu nunca pensei que teria carne, frango, linguiça todo dia na minha geladeira!”.

Pro  pobre, certas coisas tem uma grande simbologia de riqueza e poder, de sucesso. Porque simbolizam fartura, simbolizam que você mais do que QUIS comer, PÔDE COMPRAR!

Muitas vezes, eu que sou hoje uma mulher acadêmica e que nos meus trabalhos sempre convivi com pessoas que viajam pra Europa todo ano, que ouço de olhos brilhantes eles descreverem como é o Museu do Louvre, me esqueço de que para grande maioria, eu estar ali, vir de onde vim, ser quem eu sou, causa um grande e indigesto incômodo!

Dão palestras e seminários sobre interseccionalidade, falam do índio, falam do negro, falam da mulher negra e periférica, falam dos mlk piranha dando rolêzinho no shopping, mas de uma forma assistencialista, de uma forma de “vamos dar espaço pra eles, mas não o nosso”.

Quantas vezes eu tive que pegar 3 conduções, sair do extremo leste, pra ir pro Parque do Ibirapuera discutir sobre “Inclusão social” ? Não é irônico?

Ás vezes eu canso, eu penso em me por no meu lugar. Olho a minha volta e me pergunto porque escolhi esse caminho, porque não fui fazer administraçãoo, trabalhar no banco? 

Porque insisto em dar murro em ponta de faca em lugares que não me querem ali?

Mas é aí que cai a ficha: Exatamente por não me quererem, é ali que eu tenho que estar!

Porque sou educadora.

Porque sou politizada.

Porque sou da periferia.


E porque quero abrir uma ferida bem grande no meio de vocês, para dar passagem para mais pessoas como eu ocuparem o lugar que vocês pensam serem exclusivos SEUS!

quarta-feira, 23 de março de 2016

É todo mundo reaça?



Meu pai é um homem simples, extremamente bondoso e evangélico fervoroso.

Quando criança, estudou até a quarta série e logo começou a trabalhar. Tanto ele quanto minha mãe foram jovens na  ditadura militar, mas viviam em um bairro pobre, sem televisão, passando fome e  sem conhecimento  das atrocidades que a ditadura cometia. Aliás, nem sabiam, como não sabem bem até hoje, que viviam um período ditatorial. Eles trabalhavam para poderem se casar e formar uma família, essa era a preocupação de ambos. Só depois de muito tempo de casados concluíram o segundo grau com o supletivo e se orgulham muito disso (eu também!).

Mais tarde, meu pai se tornou metalúrgico e no sindicato conheceu o PT. Filiou-se ao sindicado e lá conheceu um representante que era pobre e metalúrgico como ele, o Lula. Ele então, sentindo-se representado, filiou-se ao partido e acreditou em todas as mudanças prometidas.

Como a grande maioria, sofreu muitas decepções com o PT. Hoje em dia é um senhor aposentado que não recebe sua remuneração justa e é revoltado com o Lula por isso. Sendo ele um homem simples e decepcionado com o partido, é a favor de que o Lula e o PT paguem pelas promessas não cumpridas e pela corrupção envolvida. Eu também sou.

O problema é que meu pai, como tantos outros brasileiros com este mesmo perfil, ainda acredita no que noticiam na TV e se norteia pelos grandes escândalos de corrupção escolhidos seletivamente pelo Jornal Nacional e outros. Ele também acredita nas publicações do Facebook em que falam, por exemplo, que o filho do Lula é dono da Friboi.

Pessoas com esse perfil são muitas! São pessoas simples, honestas, gentis, trabalhadoras e que não fariam mal a ninguém, quanto mais a um cachorro de lencinho vermelho ou a um bebê de mijãozinho da mesma cor. Aliás, eles continuam usando vermelho sempre que essa cor está limpa.

Estamos errando e MUITO em dividir a política em duas polaridades e colocar todos os inconformados no mesmo balaio de gatos. A senhora que teve a aposentadoria roubada e se revolta com isso não é a patricinha que tira fotos com o mendigo.  O cara que está desempregado há mais de um ano e acha que é culpa do Dilma não é o cara que vota no Bolsonaro e diz que a culpa é dos nordestinos. Falta-nos compreender que essa polarização política foi incitada pela grande mídia e não somos Petistas contra Tucanos, comunistas contra reacionários.  Há um grande espectro de insatisfações, revoltas, defesas e argumentos que não são ouvidos e nem entendidos por estarmos apenas em dois lados extremos. Há realidades simplesmente ignoradas, pontos esquecidos, verdades absolutas.

O coro do golpe está ganhando força por vozes de pessoas que realmente só querem um país melhor e mais justo, mas estão sendo usadas por uma mídia inescrupulosa e manipuladora.  Cabe a nós não ataques, não xingamentos, não dar as costas, mas dialogar, ouvir e buscar informação junto com essas pessoas, e não julgá-las por terem caído em um jogo tão bem arquitetado, qualquer um de nós pode cair. O que temos que fazer é nos unirmos e lutarmos, saindo juntos dessa rede que tenta nos colocar uns contra os outros e a favor do golpe.

domingo, 25 de outubro de 2015

Texto de uma feminista de periferia

Simonão


Como feminista, sou dura em criticar questões que considero mal elaboradas dentro do próprio feminismo  e por isso já fui considerada “não feminista”, o que na verdade, me importa muito pouco. Acredito que é por estar dentro de uma ideologia e querer ver o mundo transformado por ela que preciso olhá-la com um olhar realista e pouco romântico.

O que mais vejo são mulheres , em sua maioria jovens e tendo um contato recente com o feminismo, tomando a ideologia quase como uma doutrina religiosa, sem questionamentos e a achando acima do bem e do mal. Se você começa a mudar sua forma de se vestir, se comportar e falar não porque tomou consciência  de que aquilo não era certo ou bom para você, mas porque é o que o grupo diz ser o correto, você não está sendo revolucionário, você está apenas sendo moldado.  Não adianta ler Simone de Beauvoir  e outros escritos se você acha que está lendo uma Bíblia e que tudo que está escrito ali, é inquestionável.  Tenho ressalvas com todas as correntes teóricas que conheço. Sei que cada linha teórica acrescenta e muito, e todas elas trazem benefícios, mas nem por isso irei rezá-las como cartilhas.

Contudo,  o que mais tem me irritado é o novo “Feminismo classe média”. Esse feminismo “Vai ter não sei o que sim e se reclamar vai ter dois”, “ Miga, apaga que tá feio, seje menas, sou lua em câncer” , “Bazar da sororiedade das mina” (porque vir na favela DOAR as roupas de grife ninguém quer, né?).  Além do elitismo rolar solto, a subestimação de inteligência com quem é pobre é  impressionante. Digo isso como mulher periférica, advinda de escola pública e que alcançou o status de classe média graças a oportunidade de cursar uma universidade pelo PROUNI.  Cansa ver pessoas achando que você é alguém que precisa que tem peguem pela mãozinha e te mostrem a luz porque você é da periferia.  Cansa ver branca querendo falar por negra,  achando que elas não sabem se defender. Cansa ver feminista FFLCH se achando Madre Teresa , querendo explicar pras mulheres periféricas o que é abuso. Não que todo mundo não precise ser esclarecido, não que todo mundo não precise ler escritos feministas, não que todo mundo não precise ter estudo de qualidade, mas subestimar a inteligência de quem vive na prática, quem vê a mãe apanhando todo dia, quem sofre na pele o que é desigualdade social, quem  passa racismo á torto e á direita e achar que essas pessoas não tem condições de pensar sobre temas como violência contra a mulher, racismo e luta de classes porque não teve acesso a um ensino elitizado ou não teve alguém “mais privilegiado” pra explicar é elitista e arrogante á beça!

Saiam das suas bolhas!  Esqueçam sua prepotência mascarada de assistencialismo!

Feminismo não é aprendido só na teoria, mas também na prática! A garota que tem que passar pelo caminho do riozinho, cheio de homens escrotos que assediam todo dia, para chegar na escola no meio da favela pode saber muito mais sobre misoginia do que você, que sabe de cor e salteado todas as correntes teóricas feministas da atualidade. E vou te contar um segredo: Talvez ela também SAIBA! Existe internet, existe biblioteca, existe uma coisinha chamada INTERESSE que não é privilégio só de quem nasceu em boas condições financeiras.


Talvez esse texto me faça mais odiada? Que faça! Mas não dava mais pra engolir o que estava engasgado faz tempo! Parem de achar que sabem mais sobre nós da periferia do que nós mesmos!

P.S: Texto escrito após ler críticas ao tema da redação do ENEM e ao fato do mesmo conter Marx e  Simone de Beauvoir, já que "quem teve ensino público não conseguiria entender". 

domingo, 4 de outubro de 2015

Depois da partida- reflexões religiosas

Desenho que fiz pro desafio #Inktober que estou participando. Todo dia tem desenho novo no Instagram, basta seguir ali ao lado <-------

Tento não abordar esse assunto de maneira literal, pois não quero ser tida como influencia para ninguém, nem como boa e nem como má. Acredito que há momentos em nossa vida em que algo se faz necessários e depois deixam de fazer, por muitos motivos. Ter uma religião fez bastante sentido pra mim durante quase 7 anos. Fazia sentido seguir aquela doutrina, crer no que eu ouvia e me sentir parte daquele lugar. Hoje não faz mais.

Com a saída dessa doutrina que frequentei, inúmera coisas mudaram. Por fora todos sabem: Roupas “do mundo”, tatuagem, mudanças no cabelo, liberdade sexual. Mas as mudanças muito mais significativas foram por dentro e é delas que quero falar nesse post:

Minha vida está extremamente mais leve agora que acredito que as coisas vão acontecer conforme o meu merecimento, e ainda assim, é possível que não aconteçam, a vida nem sempre é justa e está tudo bem! As coisas não deram errado por que : pequei; estou sendo castigada ou estou sendo provada. Da mesma forma, as coisas não deram certo porque: Estou sendo recompensada, é uma prova que Deus me ama (logo, se ele não dá, ele não me ama);

Não fico mais esperando eternamente que coisas que provavelmente não irão acontecer, aconteçam, pois sou “uma serva de Deus esforçada e mereço isso”. Não fico mais me martirizando pela vida não cumprir minhas expectativas e colocando isso na conta de Deus. Não fico mais esperando milagres , embora creia que eles existam, mas não acho mais que é obrigação de Deus fazer com que aconteçam ;

Sou muito mais humilde agora. Sei que receberei algo conforme minha necessidade e minhas ações, e não porque “Deus quis”. Agora sou responsável pelas minhas ações e receberei o que delas for seu resultado natural (ou não);

E principalmente: Sou eu mesma, sem medo de estar sendo vigiada o tempo todo por uma força invisível  (seja ela a doutrina da igreja ou o próprio Deus, que sei que não liga para nada disso) que estará pronta a me apontar e julgar caso eu corte o cabelo, dance o faça qualquer coisa considerada por alguém como “mau testemunho” ;


Muitos me perguntam e NÃO, não me tornei ateia e ainda me considero cristã, mas não sinto mais o mínimo desejo de voltar a uma religião que mais me condena que me acolhe, seja ela qual for. 

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Nota de esclarecimento: Prazeres que se tornam obrigações

“… eu só escrevo quando eu quero, eu sou uma amadora e faço questão de continuar a ser amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever, ou então em relação ao outro. Agora, eu faço questão de não ser profissional, para manter minha liberdade.”

Clarice Lispector



Direto eu prometo á vocês e á mim mesma que manterei esse blog atualizado. Esses dias, estipulei que o atualizaria todo domingo e quarta-feira. Mas como sabem, isso não acontece.
Me cobro também o fato de não pintar sempre, de não fazer disso uma rotina, de não ter trocentos quadros e desenhos para  mostrar. Só pinto quando sinto necessidade de pintar, parece que vem da alma.

Já pensei em fazer um vlog, um blog literário, em deletar esse e iniciar outro em que postarei sobre vários assuntos mais específicos, mas sei que não tenho a disciplina de ter um dia certo,um horário certo para upar vídeo, postar texto e etc. Até dois dias atrás eu me condenava por isso, me achava  preguiçosa e desrespeitosa com as pessoas que gostam do que faço. Mas refleti bastante e agora, NÃO!

Poxa! A vida já cobra tantas coisas certinhas e quadradas da gente! Tem que ter horários no trabalho, cronograma de aula, notas, faltas, lições de casa. Antes eu tinha relatórios, números sempre exatos, datas apertadas e surpresas, virava noites trabalhando. Tem vezes que tenho que estar sorrindo, em pé por 6 horas ou mais, recebendo as pessoas mesmo com dor de cabeça, cólica e etc, tendo que puxar assuntos.

Tanto o blog, como a pintura, como a leitura são atividades prazerosas pra mim, que faço por satisfação, pura e simples! Estava entrando também na auto-corança de ler mais e mais, uns 8 livros por mês! Comecei a fazer leitura dinâmica pra ler mais rápido, mas perdia toda a degustação da leitura em si. Aí parei e pensei: Porque estou fazendo do meu prazer uma obrigação? Porque acho que devo “resultados” do meu prazer á alguém, além de mim mesma? Sei que há muitas pessoas que conseguem fazer de seus prazeres diários uma forma de ganhar dinheiro, como os bloggers e vloggers famosos e eu os admiro muito e gostaria de ser como eles, mas talvez eu não tenha esse perfil. Meu trabalho como educadora em artes já me causa muito prazer diário (apesar das cobranças relatadas acima), então, porque tornar meus “hobbies” uma folha de ponto?

Desculpem se não posto sempre, se aqui não é tão organizado ou profissional como deveria, se os assuntos são misturas e se tem épocas que apareço mais e outras sumo. Sei que já perdi inúmeros leitores por conta desse meu descompromisso, mas isso tem um porque: Eu amo esse lugar! Eu amo ver através dele como evoluo a cada ano, mês, dia! Já apaguei muitos posts dele por acha-los bobos ou confessionais ao extremo, mas é um erro que sempre acabo fazendo de novo, pois aqui sou quem sou, escrevo o que sinto e penso naquele momento, escrevo o que PRECISO escrever! Mesmo que depois de duas horas ou dois anos eu mude de ideia e me arrependa (o que já aconteceu muito durante esses 7 anos) e arquive o que foi escrito. Mas a coisa mais chata para mim é ficar pensando “e agora? Sobre o que eu vou escrever? Tenho que postar amanhã, falo sobre o que?”.

Meus leitores podem ser poucos, mas sei que são fieis, assim como meus amigos e os que admiram minha arte, pois até aqui, tenho sido eu  mesma! Espero que me perdoem por isso.

domingo, 16 de agosto de 2015

O perdão

Pintura inspirada nas ilustrações de Tolkien e em Firebird, de Fantasia, da Disney.


Algo que tem me feito muito bem  é aprender a perdoar. Creio que para me proteger em momentos de imensa fragilidade, fui criando uma casca dura que não deixava nada passar e qualquer crítica a mim, ou falha, era visto como um ataque pessoal. Nunca fui muito passiva, mas fiquei de certa forma até agressiva durante alguns anos e ao ferir alguém, também me feria e , surpresa!, não  sabia perdoar-me, igualmente. Tudo isso ia se tornando uma bola de rancores que me consumiam por dentro.

Do ano passado pra cá, conforme fui me libertando de várias coisas, tomei consciência que me livrar de tanta culpa e rancor era essencial para minha saúde e meu bom convívio com os outros  e fui notando que ao perdoar o outro , automaticamente perdoava a mim e vice e versa, pois reconhecendo que o outro erra,  tiro das minhas costas o peso de ter que ser perfeita sempre, e reconhecendo que eu sempre erro, tiro o mesmo das costas alheias.

A verdade é que erramos, mas nos arrependemos (ou deveríamos). Aceitar que alguém que você ama de vez em quando vai te machucar, porque ele não é perfeito, é aceitar que você também faz isso. Aquela palavra que te disseram que você nunca esqueceu, aquele dia que te esqueceram, aquela pessoa que foi injusta, aquele tapa  (seja no corpo como na alma) . Não estou dizendo de forma nenhuma que devemos nos submeter a alguém que nos pisa e  humilha e muito menos que devemos conviver e levar numa boa, mas podemos sim, nos afastar e entender que o outro, como você, é um ser cheio de traumas, medos, erros e limitações.

Não perdoei tudo, mas queria chegar à isso. Só faz bem, só descarrega energias péssima e dá espaço para coisas melhores na vida. Hoje se me irrito, me magoo, critico e sou criticada, se faço por um momento um inferno na vida do outro como ele pode fazer no minha , já penso mil vezes antes de colocar no meu coração esse fato como incorrigível e essa pessoa como imperdoável.  Pode não ser perfeita, mas só tenho uma família. Podem não ser perfeitos, mas prezo meus amigos. Podem não ser pessoas relevantes, e por isso mesmo ,não vou me encher de sentimentos corrosivos por quem não faz diferença. Posso ser um poço de defeitos, mas sou minha melhor amiga.


Não é ser Buda, não é ser Cristo. É ter a humildade de enfim compreender que somos apenas humanos demasiado humanos.

sábado, 20 de junho de 2015

Ah, as aparências!

Muitos que acompanham o blog sabem que passei por grandes mudanças de uns dois anos pra cá. Acontece que , apesar dessas mudanças, que não foram fáceis e lutei muito para que ocorressem, por dentro eu continuava me sentindo paralisada.E foi por isso que trabalhei muito em me retirar do papel de vítima e passei a me colocar em reflexões mais ativas.

Passei então a refletir sobre o fato de, mesmo tendo superado situações difíceis, ainda me portar como se estivesse dentro delas, como se eu estivesse condicionada. Mesmo depois de ter refletido muito sobre os porquês de não precisar mais me sentir mal, eu ainda me sentia mal e isso estava prejudicando não apenas a mim, mas as pessoas que amo, já que eu parecia sempre infeliz pelos mesmos motivos.

Foi quando comecei a notar o mundo de fantasia em que eu  havia criado para mim mesma: remoendo problemas irreais ou superados e acreditando que as pessoas tinham uma vida perfeita! Principalmente pela internet, me comparei várias vezes com pessoas que, a meus olhos, tinham uma vida desejável, enquanto me diminuía! Então notei que para todas as outras pessoas, talvez seja essa a impressão que eu também passo! De que estou sempre bem, sempre bonita, sempre fazendo coisas novas, etc.

Já aconteceu algumas vezes de eu ver o perfil de alguém  e imaginar algo totalmente diferente do que ela é na realidade, achar que é uma pessoa incrível e quando a conheço pessoalmente, é mesmo uma pessoa ótima, mas é comum, como todos nós. E aí, aquela pessoa que parecia super bem resolvida se mostra cheia de defeitos e inseguranças . Acontece também de conhecer uma pessoa maravilhosa e achar que ela é assim porque teve muita sorte na vida, e depois descubro que não, que ela passou por tantos ou mais problemas que eu, mas se mantém firme, soube lidar com as adversidades.

Foi  muito difícil, exigiu muita auto análise, mas parei então de me comparar com os outros e passei a acreditar mais em mim, reconhecer que tenho coisas boas a oferecer e que meus defeitos não me desmerecem. E que mesmo tendo passado por coisas que me magoaram e me deixaram abalada, dá pra se reerguer e aprender com isso, não preciso  tomar esses momentos como decisivos em minha vida. É assim com todo mundo, essa é a vida para todos nós!

Estou cada vez menos pesada! Já reconheço metas de coisas que precisam ser corrigidas em mim e hoje trabalho para alcança-las! Só posso dizer que depois que comecei a me movimentar internamente para que as coisas se modificassem, em vez de esperar que a vida mude, tudo ficou bem mais fluído! 

terça-feira, 19 de maio de 2015

Voltar

É à noite. Pego a xícara que mais gosto e um cobertor, vou em frente ao computador e coloco meu seriado preferido, ou m filme que eu já assisti muitas vezes, mas sempre é bom rever. Espero todos dormirem para curtir esse momento de estar comigo mesma, desfrutando de minha própria companhia, fazendo exatamente o que queria fazer.

Entro no meu quarto. Vejo todos os livros que amo bagunçados. Vejo minhas caixas de música, ambas tão especiais pra mim, meus bonequinhos do Mário, os novos da Hora da aventura, minhas bonecas, minhas bijuterias e penso “tenho que por ordem em tudo isso, é tudo meu,  e está uma bagunça!”

Estou em uma roda de amigos e começamos a falar sobre infância e adolescência. Começo a relembrar de uma maneira muito gostosa coisas que me marcaram. Passo a cantar a abertura da Sakura Card Captors, do Dragon Ball Z e do Tench Muyo. Relembro todos os personagens do Harry Potter, o  HQ O corvo e como esse também era meu filme favorito na infância. Relembro a casa da minha avó , as sementes de girassóis, meu primo apaixonado ouvindo Linger repetidas vezes (essa música que embala tantas coisas boas em minha vida). Lembrei até de algo lindo que havia esquecido, que era meu irmão e eu deitados na rede, eu apontando as estrelas e ele “ Não aponte as estrelas, que nasce um berruga no seu dedinho!” , “Fabinho, em qual estrela será que a Zula mora? Já pensou começar a cair um monte de bolas azuis aqui no quintal?” e procurávamos juntos em qual estrela a Zula morava.

Nada disso eu sentia há pelo menos 5 anos!

É um prazer que só quem passa ou já passou pela depressão vai entender. É voltar a sentir-se viva, sentir-se presente, sentir-se novamente dona do seu corpo e da sua história. Não que eu não visse mais filmes, não lesse mais livros, não arrumasse minhas coisas ou não lembrasse  do que já vivi. Mas é um recordar com sabor, com som, com  vida. É voltar a sentir-se pulsando, fazendo parte do mundo. É ver o mundo em cores. É reconhecer-se, gostar-se, amar-se. Perdoar-se. É  voltar a ser você mesma. E que saudade, que saudades eu tinha de mim!

Cada dia mais, sinto que estou me libertando de pesos, julgamentos, lembranças e crenças que me faziam estar nesse estado de tristeza permanente e começo a valorizar todas as coisas boas que aprendi durante esse período tão difícil. Nos momentos de recaída, aproveito para me aprofundar no que me faz mal e resolver essas questões em mim mesma, diferente de antes, onde parecia não haver saídas.


Hoje comentei com meu namorado como tenho evoluído em tão pouco tempo e ele me disse “Será que é só a terapia, ou você não está mais madura?”. Acho que sim. E diferente do que escrevi anteriormente, não sou frágil pelo contrário, estou cada dia mais forte.


domingo, 15 de março de 2015

Porque serei a véia dos gatos

A exigência comigo mesma e com as pessoas com quem me importo é uma constante na minha vida. Creio que com a idade, essa minha característica tenha ao mesmo tempo se acentuado e se tornado mais flexível. Acentuado porque procuro cada vez mais fontes fidedignas para meus estudos e relações; flexibilizado pelo fato de me permitir relaxar mais e saber que é impossível alcançar a perfeição. Tudo isso  serviu para que eu sempre buscasse o melhor para mim: Não basta dizer “que gosto de ler” e ler coisas superficiais que em nada me acrescentam, por exemplo. Quando mais nova, até conseguia, mas está cada vez mais impossível me concentrar em uma leitura que apenas repita clichês e nada me ensine.  Acho perda de tempo gastar minutos preciosos do meu dia lendo repetições de historinhas que deram certo, até por essa questão ando mais voltada a literatura acadêmica, mas continuo amando a literatura quando esta não é só um enlatado cultural disfarçado de “cult”. Também não basta ver um filme, tem que conter reflexões  e tramas que me façam sentar e querer ver o que está passando (e olha que amo cinema!).  Do mesmo jeito, não basta ouvir uma música, não basta ter um namoro, não basta ter um trabalho etc, etc, etc. Gostaria de ser uma pessoa mais “leve”, que se permite  ver um filme mais pipoca ou ler uma história mais floreada e sem rodeios, mas enfim, não faz parte de mim. Sofri, mas aceitei minha chatice que muitas vezes, me leva a uma sensação de solidão.

Mas acho que o lado mais ambíguo desse meu defeito/qualidade é o de exigir boas argumentações e brincar de “jogo dos sete erros” em discursos repetidos por aí. Não me deixo convencer por um bom marketing pessoal, sempre tento ler o que há por trás das intenções da mídia, das ideologias e principalmente das pessoas e assim como não sou de  me dar colher de chá, não passo a mão na cabeça de ninguém.

O bom disso é que (como disse minha psicóloga), sou uma pessoa extremamente difícil de ser manipulada,  o que não quer dizer que não possa acontecer, como já aconteceu, mas até mesmo essas vezes em que sofri uma manipulação me serviram para refletir ainda mais sobre  todos estes aspectos. O lado ruim é que é fácil se sentir excluída da rodinha de cerveja, dos clubinhos feministas, dos grupinhos onde todo mundo pensa igual, pois geralmente, ou dou minha opinião sobre determinado assunto e todo mundo me olha com cara de bunda, ou fico calada, apenas acenando e sorrindo. Embates em relacionamentos é o que mais tem também! Homens são ensinados por nossa cultura patriarcal que mulheres gostam de agradar e que a razão lhes pertence  e quando se deparam com a mulher pensando e lhes provocando intelectualmente, voltam ao seu estado de meninos birrentos quando são contrariados.


Ao longo do meu amadurecimento, tenho aprendido a guardar minhas opiniões e concordar para não discutir. Ninguém é obrigado a pensar como eu, e muito menos eu sou obrigada a pensar como os outros. Cada um lê, vê, se porta e acredita no que quiser. Se houver espaço para um diálogo, fico feliz e disposta, mas não curto  “debates” onde o objetivo é obrigar o outro a concordar com suas ideias e prezo muito gente que consiga ouvir um “não concordo com  você”  ou "você está errado" sem achar que está sendo ofendido. Enquanto muitos não aprenderem que “é a minha opinião” não é argumento e nem te dá o direito de falar qualquer bobagem que lhe venha a cabeça, prefiro me manter acenando e sorrindo e preservando minha paz mental.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Religião deve ser amor, não prisão


Durante muitos anos de minha vida fui de uma igreja evangélica extremamente tradicional. Aos 18 anos, me batizei nela, declarando assim que aceitava sua doutrina, ao  qual realmente segui a risca por escolha própria. Sempre falei muito sobre Deus e a participação essencial que Ele tem em minha vida aqui no blog e até escrevi textos onde falo sobre problemas que enfrentei sendo evangélica. Apesar de seguir rigorosamente tudo o que a igreja dizia ser certo, sentia-me  deslocada e mal vista pelos meus pensamentos e coisas que arriscava fazer. Enfim, após muito tempo lá dentro, decidi com grande dificuldade me desligar desse lugar e deixar para trás vários conceitos e atitudes que eu reproduzia por imposição doutrinária.

Muitas pessoas que me vêem hoje acham que fiz algo “de errado” e por isso me afastei, ou que me sinto triste e desisti de Deus, ou acham que sou uma coitada, que estou “perdida” , sem saber o que estou fazendo. Erro de todos. Decidi sair da igreja após muita reflexão e cobranças internas. Os discursos já não correspondiam com o que eu acreditava (se é que um dia corresponderam), me sentia hipócrita estando em um âmbito no qual eu não conseguia me identificar e sem ferir nenhum principio pregado lá dentro, resolvi sair. Não sai por culpa, não sai por remorso, não sai por “me sentir suja”, sai porque eu quis, porque eu escolhi sair.  Sempre fui imensamente responsável comigo e leal a minhas escolhas e por isso mesmo, só passei a fazer coisas que não eram aceitas pela doutrina da igreja (como as tatuagens, por exemplo) após já ter me desligado.

Também não me sinto triste, pelo contrário, nunca me senti tão fiel ao que creio como agora, tão completa e em paz comigo mesma. Não estou desiludida, não estou fazendo nada por impulso. Faço tudo porque quero, porque escolho, porque tenho plena consciência de que sou uma mulher adulta que sabe arcar com as próprias decisões. Não sofro pelos “amigos que perdi” e quero que mais pessoas que agem dessa forma se afastem cada vez mais.

Não estou escrevendo o texto como uma resposta aos que falam hoje sobre mim, estou escrevendo para deixar claro aos leitores desse blog: qualquer religião, se te faz uma pessoa melhor, é uma boa religião! Se te faz crescer como pessoa, te ajuda e te faz ser mais empático aos seres humanos, é um lugar maravilhoso que você tem o direito de estar o tempo que quiser! Sofri muito preconceito quando era evangélica pelo simples fato de me declarar como uma e sei desse lado da moeda. Se te faz bem, fique! Enfrente o mundo! Não tenha vergonha de suas escolhas e nem de suas crenças! Se para você é importante ser virgem até o casamento, se vestir de uma maneira mais discreta, ter cabelos compridos, se tudo isso faz sentido para você, te faz bem, faça de todo coração! Ninguém tem o direito de dizer como você deve ser, nem a sociedade que vivemos, nem o lugar religioso que está. Tudo o que fizer, se for por amor, é válido, apenas siga sua verdade, mesmo que zombem de você.

Agora, se por acaso você não se sentir mais identificado com a religião que segue, seja forte e questione-se, permita-se ! Sei que é difícil , já que somos ensinados a não questionarmos os ensinamentos bíblicos, mas isso não tem nada a ver com ir contra o que sua religião acredita, você está apenas pensando, evoluindo, não tenha medo disso! Pense o porque de  estar ali, o que te atrai, o que te afasta, o que te faz crescer e o que te limita, pese tudo e veja o que vale a pena para você!

Deus não está apenas dentro de um templo e Cristo pregou sempre perdão, o amor a quem quer que seja! Muito diferente do que vemos igrejas pregando por aí!


Meu conselho é: Siga seu coração, siga sua verdade, estando dentro de igreja ou fora de uma, se for o que te faz bem, não tenha medo! Seja fiel a você mesmo e não se importe com o que os outros irão dizer!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Internet e as pessoas



Tenho blog desde os meus 14 anos e os iniciei com desejo de partilhar o que eu pensava e sentia com relação ao mundo. Além do fato de escrever e expressar minhas emoções, outra coisa muito benéfica  foi começar a ter contato com pessoas que passaram pelo mesmo que eu, pensavam da mesma forma ou até mesmo diferente, mas entravam em contato e comentavam sobre o que eu havia escrito. Então, eu ia até o blog deles , lia o que escreviam e fazia a mesma coisa. Com isso, fomos formando uma grande rede de apoio e amigos virtuais que me ajudaram muito em momentos que precisei.

Porém, nunca fui de fazer amizade com facilidade. Sou receptiva e amigável, mas dificilmente consigo me abrir com pessoas que mal conheço e até mesmo com as que conheço. Esse foi um dos fatores que me levou a depressão, já que eu não tinha com quem dividir o que me afligia. Era muito fechada e pensava que não iriam me entender. Quando entrei no Facebook, comecei a interagir mais por meio de grupos fechados sobre assuntos específicos,  no caso o MBTI, um assunto pelo qual me interessava muito na época. Nesses grupos conheci pessoas fantásticas, com as quais passei a me relacionar e conviver fora da internet e que até hoje, considero como melhores amigas. Eram grupos com pessoas com tantos problemas parecidos, tantas angústias, medos, expectativas, que acabei passando, sem saber, por uma terapia coletiva. Muitos dos meus traumas, medos, dúvidas foram tratadas ali e vi o amadurecimento de vários que também participavam.

Conheci pessoas sem caráter, aproveitadoras, caluniadoras e etc? Conheci sim! Cheguei, inclusive, a criar “inimigos”. O problema da internet é o mesmo que o da vida real, de existirem pessoas que não gostam do seu jeito, da forma como você é e se expressa, da sua personalidade ou até mesmo de atitudes que você tem. Em qualquer lugar, sempre haverá quem não gosta de você. Mas na internet as pessoas podem falar  o que quiserem, então fica muito mais fácil ser mal educado, grosso, rude e até mesmo cruel por aqui. Acompanho alguns vlogs e vejo a quantidade de comentários depreciativos que os vlogueiros recebem por estarem ali, ora falando de assuntos genéricos, e ora falando de suas vidas, opiniões. É muito mais fácil apontar o dedo e ser “hater” quando não se está frente a frente com alguém. Hoje sou muito mais cuidadosa com o que e quem eu exponho, mesmo involuntariamente, pois já passei dessabores por isso e também porque não é nada legal você se expor de mais para quem não está ali para te ajudar, mas para julgar você, muito menos expor pessoas que estão a sua volta. Mas ainda gosto de usar essas redes todas para conhecer pessoas e  falar sobre ideias, e porque não?, sentimentos! Claro que pela internet devemos tomar um maior cuidado com o que escrevemos e com quem partilhamos isso, pois essas mensagens ficam gravadas, não são apenas palavras que depois passam.

Eu considero esses amigos que fiz tão amigos quanto todos os outros, mesmo alguns deles ainda não conhecendo pessoalmente. Acredito que não se conhece alguém só porque o viu cara a cara, isso não é garantia de nada! Posso crer piamente que aquele colega de faculdade que senta do meu lado todos os dias é meu amigo e ele se mostrar um grande de um pilantra, assim como posso conhecer essa pessoa pela internet e idem. Quem garante que aquele cara que conheci num barzinho, aparentemente bonito e bem cuidado, está me dando seu nome real, sua visa real e revelando suas reais intenções?

Hoje sou uma pessoa que em vez de ficar calada, preciso conversar com alguém para me sentir melhor e menos aflita, mas já tenho pessoas com as quais sei que é mais seguro confiar. Contudo, não me arrependo das épocas em que precisei dos grupos para me sentir mais acolhida nessa vida. Agora uso os grupos mais para discussões politicas e artísticas, e continuo achando que essas trocas de ideia valem a pena!

sábado, 24 de janeiro de 2015

Liberdade, liberdade! (Feminismo)

Quando comecei a me interessar por feminismo, aos 21 anos, em 2011, ainda não existia tanta divulgação sobre o assunto na internet e na mídia.
Eu entendia tudo errado e era muito sensível. Se entrasse em debates onde outras mulheres eram incisivas comigo, eu começava a chorar. Com o tempo fui entendendo melhor o ponto de vista delas e aprendendo que ser incisivo é muito diferente de ser agressivo. Já fui agressiva também, mas não como forma de tentar fazer o outro engolir meu ponto de vista, fui por outros fatores.

Tive várias crises com alguns discursos feministas ao longo desses 5 anos. Não entendia que  “O feminismo” é  na verdade “os feminismos”, e que existem várias leituras sobre ele, mas todas tem o mesmo objetivo, que é o de lutar contra o machismo. Por conta disso, já me disse não feminista várias vezes, por confundir todo um movimento com algumas falas que eu não me identificava. Eu ainda erro muito, falo muita besteira, depois reflito e vejo a bobagem que disse. Ainda vocifero xingamentos misóginos quando menos espero, ainda julgo mulheres pelo seu comportamento sexual quando menos espero, ainda reproduzo o machismo quando menos espero, e ás vezes até esperando, pois não se muda do dia pra noite. Estou há 5 anos tentando me desconstruir, tentando me reeducar e acho que levarei uma vida toda para tal.

Contudo, algumas coisas tem me feito cada vez mais repensar qual o feminismo que defendo. Pra mim, a causa maior sempre foi liberdade: Você ser livre para ser quem é, você ter a liberdade para viver sua vida da maneira que achar melhor e ser respeitado por isso. Sempre acreditei na igualdade entre os sexos, no diálogo, na desconstrução de ideias e até de gêneros, no embate, no estar aberto a ouvir e pronto a se colocar. Na empatia, na convivência. 

O que tenho visto muito hoje em grupos e discursos feministas é uma postura fechada,  muitas vezes retrograda, onde ódio, a raiva não é mais um agente de mudança, mas uma forma de cada vez mais segregar pessoas. Abrem-se grupos secretos, onde são aceitas apenas quem tem a mesma linha de pensamento. Fala-se sobre desconsiderar falas pelo gênero  e não há mais argumento nas discussões, mas agressões e zombarias. Não entendem que há pessoas ainda iniciando, como eu já iniciei , e que estas pessoas repetem o discurso opressor na tentativa de entenderem o porque de estarem erradas. (Obviamente que há uma enorme parcela dos que vão discordar apenas para tumultuar e também os que faltam com respeito, os chamados “Trolls”e estes não devem ser considerados ). Já ouvi que “o oprimido não deve se relacionar com o opressor”, defendendo que negros não devem se relacionar com brancos e mulheres não devem se relacionar com homens. Já ouvi que pra ser mulher, tem que ter útero, e que um transexual é um privilegiado por sua condição física masculina e que portanto, não deve ser considerado pelo feminismo. Já ouvi que ser mãe é se render a sua posição de oprimida. Já ouvi sobre a roupa que você deve usar, a música que deve ouvir, o que você pode falar e principalmente, a forma como você tem obrigação de pensar.



Respeito, claro, todas essas vertentes. Mas continuo acreditando na liberdade, na convivência entre as diferenças, no debate como forma de expandir visões e em um movimento aberto onde qualquer pessoa que queira, de maneira genuína, aprender com ele, possa. A meu ver, o mundo não vai mudar com discussões em grupos secretos, com escolhas de quem é mais ou menos feminista e de quem deve ter o sofrimento mais ou menos considerado. O fato de “eu empoderar duas mulheres’não me impede de dialogar com 30 homens. O fato de haver milhares de mulheres que sofrem , muito infelizmente, por passarem fome e violência não diminui e nem desmerece a dor pessoal de uma garota que não fala com o pai que lhe dá todas as condições para viver bem, mas não lhe dá amor.

Esse texto é ,como tudo aqui no blog, uma leitura pessoal de algo que vivencio, não é uma doutrinação e posso mudar de pensamento com o passar do tempo. Mas por hora, é assim que vejo as coisas. 

domingo, 11 de janeiro de 2015

Minha leitura tardia de O Senhor dos anéis

Em muitas cenas, O Senhor dos anéis me fez lembrar bastante de As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley, que com certeza se inspirou no universo de Tolkien.
Pasmem: Eu nunca havia assistido O Senhor dos anéis! Houve várias tentativas, mas em todas eu fiquei com sono. E não pelo fato de “ter assistido fora da época”, que seria na adolescência, pois foi nessa época que as tentativas ocorreram, mas porque nunca gostei mesmo de Fantasia (que muitos erroneamente confundem com “realismo fantástico”, que não tem absolutamente nada a ver e é um dos meus gêneros favoritos), coisas épicas e achava a história de Tolkien bem...boba. Contudo, conheço tantas pessoas no meu círculo de amizades que idolatram,  choram, brigam por causa dessa história, que mais uma vez, tentei revê-la sem meus inúmeros preconceitos. E me surpreendi.

Assisti os 3 filmes de uma vez ( A sociedade do anel, As duas torres e O retorno do Rei, de longe o meu favorito) e consegui ver alguns aspectos muito interessantes sendo levantados ao longo da triologia. Deixando claro que é uma visão pessoal minha, de acordo com meu repertório e com a forma pela qual fui tocada pelos filmes:
Uma coisa que é sempre retratada em várias outras histórias, mas que O senhor dos anéis retrata de uma forma alegórica e não explícita, nem didática , é como o bem e o mal estão sempre juntos e presentes dentro de  todos!  O anel não apenas continha o mal, como despertava o mal que havia nas pessoas. Ele deixava em evidência as ambições, o egoísmo, a sede de poder, a falta de escrúpulos que todos nós temos. Nenhum personagem que esteve em contato direto com ele sai ileso , todos acabam sucumbindo de alguma forma. Um personagem que gostei muito e que retrata isso muito bem é o Gollon, que é praticamente uma entidade a parte ,onde o bem e o mal coexistem dentro do mesmo ser de maneira explicita, já que ele sofre de uma espécie de esquizofrenia, dupla personalidade, sempre com seu lado bom e seu lado mau brigando entre si. Contudo, acredito que o anel não obriga ninguém a ser mal, ele desperta aquilo que já habita em você, portanto, a maldade será diferente em cada ser tocado por ele. No caso do Gollon, sua única ambição era ter o anel para si. Não era dominar povos, ser rei, rico, era apenas e então somente ser o único portador do anel e isso diz muito sobre sua estrutura de personagem. Diferente dele, outros que nem se quer tiveram um contato direto com o anel, mas conheciam seu poder, arquitetavam planos e exércitos para tê-lo para si, o que mostra qual lado já era aflorado. Muitos que estiveram em contato com o anel e sentiram seu poder lutaram contra sua força, e muitos nem precisaram estar presente dele para deixa-se dominar.

Achei interessante também (mais uma vez, um tema repetido em muitas histórias, mas bem abordado em O senhor dos anéis) a forma como cai por terra a ideia de que o herói é alguém  forte e poderoso, dotado de dons e poderes mágicos. De todos os povos , foram os Hobbits os escolhidos para a saga e o portador do anel foi justamente Frodo, o Hobbit mais frágil , tanto fisicamente quanto mentalmente. Além disso, Frodo não conseguiu nada sozinho, ele teve muita ajuda de seus amigos, em especial de Sam, que mesmo presenciando os momentos de fraqueza e confusão causados pelo anel em seu amigo, o compreende, protege e nunca o abandona.

Eu estava até o segundo filme bem decepcionada pela não representação forte feminina. Arwen e Galadriel tem um papel pouco representativo nos filmes (não sei se isso ocorre nos livros). Elas aparecem apenas como o papel de Anima. Bem compreensível levando em conta que Tolkien era um estudioso da mitologia e vê-se que O Senhor dos anéis é baseado na Jornada do herói, na qual a Anima é apenas coadjuvante em relação ao Animus (Anima é a polaridade feminina na psicologia Junguiana, ligada a contemplação, a intuição, aquela que mostra e guia o caminho. Animus é a polaridade masculina, a força, a batalha, a agilidade, aquele que toma as atitudes práticas. A jornada do herói é uma linha estrutural na qual escritores, cineastas e contadores de histórias costumam se guiar para elaborar seus enredos). Fiquei um pouco mais satisfeita ao ver Éowyn.saindo da condição que mulher apaixonada, que espera seu amado, para guerreira e como ela não toma Arwen como sua rival. Não sei se isso é representado no livro, mas gostei imensamente quando ela diz “Mas eu não sou um homem”, e salva o rei, lutando.

Enfim, todos os personagens demonstram fraquezas, medos, traumas, defeitos e não é de se admirar que tantos adultos se sintam identificados com a história e os personagens. O Senhor dos anéis toca em muitos arquétipos presentes no nosso dia-a-dia e a batalha interna do bem contra o mal é sempre presente em nossas vidas. É confortante pensar que qualquer pode cair, mas que todos temos força para lutar.

Continua não sendo meu gênero favorito e nem a história mais original que já vi, mas é fato que foi muito bem ambientada e que Tolkien era extremamente criterioso e comprometido. Acredito que a leitura dos livros não seja nada fácil. Por isso mesmo, O Hobbit está na minha lista de leitura para 2015.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Porque precisamos de um dia de consciência negra?


Quando eu era adolescente, assim como muitos adolescentes, sofri bastante bullying na  escola. Tinha todo tipo de motivo bobo pra isso, mas um dos motivos pelo qual eu mais sofria, era por ter cabelo crespo e armado. Eu ouvia coisas como: branca do cabelo ruim, cabelo de Barbie estragada,  vassoura, etc. Como minha mãe é cabeleireira, eram inúmeros os “Mas porque sua mãe não cuida do seu cabelo?”, “Porque você não alisa seu cabelo?”, “Você não tem vergonha de ter esse cabelo?”, “Porque você não usa chapinha?”, “Você tem preguiça de fazer uma escova?”. Tudo isso entrou bastante na minha cabeça, desenvolvi por um período Tricotilomania ( doença ligada ao TOC onde a pessoa arranca os fios de cabelo ou pelos do corpo, podendo os engolir ou não), mas na tentativa que ao arrancar os fios, eles nascessem “melhores”, lisos. Depois, passei a fazer progressiva, relaxamento e várias químicas que destruíram meu cabelo. Resumidamente, cresci, me aceitei e hoje acho meu cabelo cheio, encrespado, sarará , a coisa mais linda que tem em mim.

O fato de eu ter sofrido esse tipo de preconceito por ter o cabelo mais ligado ao afro que ao europeu já mostra como nossa sociedade discrimina o que vem do negro: Meus caros, eu sou branca! Mas bastou eu ter um traço ligado a matriz africana para que eu sofresse toda essa pressão. Não é porque meu cabelo era feio, mal cuidado, sujo, mas simplesmente porque ele era crespo, e cabelo crespo é cabelo “ruim”.  Jamais direi que sofri racismo, se se o disser, foi unicamente pelo fato de algo em mim denunciar minha ascendência africana.

Todos os dias em meu trabalho, me deparo com expressões de crianças e adolescentes, por vezes até adultos, que menosprezam as religiões que erroneamente chamam de “macumba”. Todos os dias tento dialogar sobre como essas religiões foram massacradas e marginalizadas por serem de um povo que veio de uma terra cheia de magia, grandiosidade e uma grande variedade de deuses e que nenhum deles faz mal para ninguém. Todos os dias tento mostrar como tudo que é ligado ao povo negro é visto como mal, sujo, impuro.

É extremamente recorrente eu tentar mostrar por exemplos simples a eles como o negro não tem representatividade em nossa sociedade: Vendo as novelas da televisão, quantas protagonistas negras você já viu? Quantos negros bancários, professores, donos de mansões, você já viu? E quando o negro aparece, onde ele está? Qual a cor da pele dos empregados, dos favelados, dos ladrões que são representados pela mídia? . Quantas recepcionistas negras, com cabelos naturais e soltos, você vê em portas de grandes empresas? E quantas faxineiras brancas você encontra no seu dia-a-dia? Você cresceu ouvindo que seu cabelo é ruim, que ele precisa ser “domado”, como se você fosse um animal? Você cresceu ouvindo que seu nariz é largo, é feio, é “de preto”? . Já te negaram emprego pela cor da sua pele? Já questionaram sua honestidade pela cor da sua pele? Já te ensinaram a odiar a cor da sua pele? Já te disseram que você é um branco de alma negra? Que tudo bem você ser branco, porque Deus olha o coração? Que você é uma “branca muito linda”? A polícia te para na rua pelo fato de você ser branco? Na farmácia existem muitos produtos para cachear e encrespar os cabelos? Ensinam formas da maquiagem engrossar o nariz? Existem cremes para escurecer a pele?

Quando dizem para mim que existe meritocracia e que hoje em dia, brancos e negros tem as mesmas oportunidades, questiono-os: Quantos professores negros você tem? Os que já estão na universidade, quantos alunos negros há em sua sala de aula?  Isso demonstra que negros não tem competência para os estudos? Ou será que não temos as mesmas oportunidades?

Acho que nem precisaríamos entrar nessas questões ainda tão atuais, se simplesmente pensássemos sobre o óbvio: Escravizaram seu povo durante séculos? Te obrigaram a sair de sua terra e te venderam como bois? Estupraram as mulheres da sua tribo? Te negaram o direito ao estudo, ao salário, a uma vida humana? Venderam seus filhos para serem escravizados?

Quando dizem que não precisamos de um dia pra consciência negra, mas para a consciência humana, me pergunto se estas pessoas tiveram alguma aula de história ao longo de suas vidas. Em toda a nossa história, humanos escravizaram humanos, humilharam humanos, estupraram humanos, torturaram humanos, mas os humanos feitores desses atos acham muito fácil esquecer o que já passou e que repercute até os dias atuais e querem um dia “para todos, pois todos somos iguais”. É fácil dizer que é igual porque tem uma amiga negra, um parente negro, difícil é quando  você fecha a porta do seu carro ou troca de rua quando vê um negro se aproximar, quando diz que a meritocracia é a lei do mais forte sabendo que negros tem um percentual baixíssimo em grandes postos de trabalho e acadêmicos. É fácil achar que somos todos iguais quando você já nasceu com todos os privilégios  que te são garantidos pela sociedade pelo simples fato de você ter nascido branco!

O Dia da consciência negra é muito mais que um dia para colocarmos turbantes, sambarmos e falarmos que as mulatas são maravilhosas. Ele é feito para um povo que foi massacrado fisicamente, religiosamente e culturalmente durante séculos e que pouco a pouco, tenta se recuperar de anos de danos vividos.  A meu ver, apenas um dia para isso é pouco, muito pouco. Milhares de medidas deveriam ser tomadas para inserirmos cada vez mais na sociedade uma cultura que é tão marginalizada pela mesma.


E não são os outros que vêem racismo em tudo, é você que está tão inserido dentro dele, que passou a acha-lo normal. Mas ainda há tempo para refletir , e o dia 20 de novembro é uma ótima data para isso.

domingo, 19 de outubro de 2014

Morte, legado e vida

Profeta Gentileza

Há alguns dias atrás, me peguei pensando sobre a vida e o que realmente ela representa. Será que de fato estamos vivos apenas o tempo em que permanecemos respirando na terra?E será que muitos que estão respirando, de fato vivem? Perguntei-me o que faz com que até hoje discutamos, defendamos e até mesmo odiamos conceitos criados há séculos atrás , pessoas que  já faleceram há décadas e como trazemos essas mesmas pessoas e seus conceitos em nosso convívio. Afinal, seria o fato de viver, apenas o de sobreviver?
Como não acredito em coincid6encia, mas em sincronicidade, na mesma semana em que fui tomada por tais questionamentos, tive o prazer de ter uma série de palestras com Jorge Larrosa, grande filósofo da educação, na qual ele abordou a história do Profeta Gentileza e como este homem que presenciou a morte de sua família em incêndio num circo do Rio de Janeiro, recria deste fim, um novo início para sua trajetória, trajetória que até os dias de hoje é discutida e divulgada. Até hoje falamos sobre seu jardim, falamos sobre seu livro público, feito nas paredes do Rio de Janeiro, sobre suas palavras de amor e gentileza espalhadas pela cidade e sobre um homem que dedicou a vida aos seus ideais.
O ano de 2014 está cheio de mortes mal explicadas, por pessoas que a nosso ver, ainda não deveriam ter partido. Mas será que elas de fato, partiram? E seu legado, como fica? O cinema é um eternizador de almas. Por ele, ainda há pessoas que estão agora conhecendo Chaplin, Bela Lugosi, Marilyn Monroe e muitos outros. Estas pessoas podem ter morrido fisicamente, mas essencialmente, continuam conosco, mais vivas do que nunca, influenciando gerações, sendo influência para arte, moda, estilo de se pensar e viver. Ainda ouvimos as canções de Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain, Raul Seixas, Bezerra da Silva, Clara Nunes. Ainda estudamos e ficamos confusos com as teorias de Focault, Freud, Marx. Ainda choramos com Shakespeare, Jane Austen, Carlos Drummond. Essas pessoas continuam fazendo revolução, continuam vivas em nosso dia-a-dia e em nosso pensamento. E isso que importa.

Me pergunto agora, se muitos de nós apenas sobrevivem em vez de viverem, se fazemos de nossa existência algo que valha a pena ser lembrado, ou então, algo que valha a pena ser vivido, mesmo sem os holofotes do reconhecimento. Tornarmo-nos  eternos? Acrescentaremos algo ao mundo, ou viemos apenas para continuarmos exercendo nosso limitado papel de seres humanos, presos a dogmas, críticas, regras e pequenezas terrenas? Pego-me a pensar que de fato, a vida é curta, e por tão curta ser é que vale a pena tirarmos dela o máximo de proveito, um proveito que poderá ser apreciado até mesmo por outras gerações.

Texto escrito para o site Ilha Cult

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Qual tipo de vida os "pró vida" defendem?


Tenho tido o privilégio de trabalhar como educadora na 31Bienal  de Artes de São Paulo (já fui educadora também na 29). Há uma obra emblemática dessa exposição chamada Espaço para abortar, do grupo feminista boliviano Mujeres Creando. Não descreverei a obra , pois creio que minha visão pode variar da visão de muitos, e também para que se agucem a curiosidade e que a obra seja visitada.

Em minha vida, sempre pensei nunca ter tido um contato real com mulheres que provocaram aborto. Sempre vi esse fato como algo isolado, que pouquíssimas mulheres recorriam e estas, apenas em momentos de grande desespero. Erro meu.  Em poucos dias estando em contato com esta obra e abordando-a de maneira educativa com diversos públicos, dentre eles crianças, adolescentes, homens e mulheres, ouvi centenas de depoimentos e opiniões diferentes e descobri que o aborto é uma prática muito mais comum do que imaginava, tendo os mais diversos tipos de motivos para acontecer, desde um estupro, até o simples fato da gravidez não ter sido desejada. Percebi então que muitas mulheres do meu círculo social já haviam praticado um aborto, mas que esse assunto é um tabu, um assunto a não ser comentado, e como é o tema da própria Bienal, é um tipo de “Como falar de coisas que não existem”.

Parei então para refletir sobre o assunto e me veio uma enxurrada de problemas que essa omissão governamental sobre a questão do aborto acarreta em nossa sociedade. Aqui a questão não é sua posição pessoal, se você é contra ou a favor , se sua religião condena ou não tal prática. A questão aqui além de saúde pública, é social. O aborto é criminalizado no Brasil , portanto, a mulher que o comete é vista como uma assassina. Não existem métodos seguros para que o aborto seja realizado, a não ser em clínicas clandestinas, que além de ilegais, são extremamente caras. Apenas mulheres com um alto poder aquisitivo podem fazer um aborto com o mínimo e segurança. Contudo, a imensa maioria da população não tem esse recurso, recorrendo aos métodos mais agressivos e arriscados, colocando sempre a vida da mulher em jogo. E quem são essas mulheres que recorrem a esses métodos? Em sua maioria pobres, negras, periféricas, moradoras de comunidades. Mulheres que escondem uma gravidez do parceiro, da família, da igreja, que não tem apoio nenhum. Mulheres que muitas vezes já estão esperando o terceiro, o quarto filho, que moram em barracos, não tem se quer condições de alimenta-los. A mulher é demonizada sempre por ter feito essa coisa tão vergonhosa e odiosa, que é o ato sexual, e ter “se deixado engravidar”. Nunca se fala que para uma gravidez ocorrer, é necessário a participação do esperma masculino, que o óvulo não se fecunda sozinho, e que a mulher que foi culpada por não tomar a pílula, foi penetrada por um homem que não se preocupou em usar camisinha.  Nunca se fala também do aborto masculino, que ao saber que a companheira está grávida,  simplesmente nega a paternidade da criança ou quando “assume”, é colocando seu nome em um registro e pagando uma pensão por mês, sem participar da criação, da troca de fraldas, sem ter seu corpo completamente modificado, sem sofrer as dores do parto, sem carregar nas costas o peso de ser responsável por uma outra vida.

Existem com certeza métodos anticoncepcionais e existem aquelas que mesmo tendo a opção segura de ter um aborto, optarão por não faze-lo, seja por motivos pessoais ou religiosos. Mas isso não muda a questão de que os abortos clandestinos estão acontecendo o tempo inteiro e mulheres estão morrendo dia a pós dias por esses abortos. Que sociedade é essa que se diz pró vida, mas prefere ver a morte de uma mulher por infecção, hemorragia e tantos outros males, em vez  do expelimento de um feto, que nem se quer formação ainda tem? Muito me assusta também os  chamados pró vidas que acreditam que lutar pela vida, é apenas deixar nascer. Ninguém se responsabiliza pela formação, educação, criação, impacto psicológico ou contexto social que esse ser , que em gravidez foi indesejado, terá. É preferível vivo, mas jogado as traças, passando fome, abuso, humilhação. É o que vemos com tantas e tantas crianças de rua, crianças abandonadas em orfanatos, crianças criadas em meio ao tráfico ,etc. Ninguém se preocupa em como será a qualidade de vida desses seres, mas querem lutar para que este nasça, seja ele in desejado, com alguma doença congênita ou até mesmo, não portador de um cérebro. É jogada nessas mulheres a responsabilidade pela vida de outro, e retirado o  direito de serem responsáveis pelas próprias escolhas, a própria vida.

Com a despenalização do aborto, mulher alguma será obrigada a abortar, mesmo aquela que sofreu uma violência sexual ou traz um feto defeituoso, se quiser levar a gravidez adiante, terá todo o apoio da sociedade. A despenalização apenas dará a mulheres que não podem ou não querem uma gravidez cheia de riscos, traumas e culpas, terem o direito de interromperem essa gestação sem o risco de saírem mortas e sem serem julgadas como criminosas. É um interesse social e público que o aborto seja legalizado. Religião ou posicionamento social não pode e não deve interferir na vida de milhares de pessoas. Nosso país é laico, e como tal, tem o dever de garantir a saúde e a integridade física e mental de todos os cidadãos, independente de suas escolhas pessoais ou religiosas.

P.S: Eu, a autora do texto, não provocaria um aborto e nem estimularia alguém a cometer, tenho meu posicionamento PESSOAL quanto a isso, mas sou totalmente a favor de que o aborto no Brasil deixe de ser um crime.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Minha visão pessoal sobre meu filme favorito- Brilho Eterno de uma mente sem lembranças

Acho que nunca comentei sobre isso aqui, mas quem me conhece sabe muito bem que Brilho Eterno de uma mente sem lembranças (Michel Gondry) é meu filme favorito, por inúmeras questões. Tanto por valor estético, como por conteúdo, quanto por memórias afetivas de uma época da minha vida. Foi o filme que me pegou e que  faz parte da minha história pessoal. O vi a primeira vez em 2007 e desde essa época, necessito assisti-lo de tempos em tempos. E choro, me emociono, me questiono todas as vezes que o vejo. A última vez foi no cinema, em uma amostra de filmes no MIS, e novamente, uma sensação inexplicável.
Sempre quis escrever algo sobre a importância desse filme pra mim, mas nunca consegui colocar em palavras. Mas hoje, estava comentando sobre “relacionamentos cagados “ e como acho que não vale a pena tentar ficar remendando um relacionamento que já desgastou, que já chegou ao fim. Ouvi como resposta “Mas você não gosta do Brilho eterno? Ele é o tempo todo sobre isso!”. Na hora eu não pude responder, mas não, eu não vejo que seja sobre isso.


Brilho eterno de uma mente sem lembranças não se trata de insistir em um relacionamento que já afundou, em “fingir” que as mágoas não existem, em que as dores foram perdoadas e seguir com a mesma pessoa, como se tudo estivesse bem. Brilho Eterno, para mim, fala de recomeço, de tentar fazer com que dê certo, em olharmos para nós mesmos e pensarmos “Porque faço essa pessoa que amo tanto sofrer de uma forma tão dolorosa? Porque a maltrato, porque não me importo com o que ela pensa ou sente, porque prefiro estar com a razão do  que estar em paz com aquele que escolhi dividir a vida?”. Quando Clementine (Kate Winslet) e Joel  (Jim Carrey) se reencontram, eles estão com as memórias apagadas um do outro. Eles tem o sentimento puro que os une, eles sabem que se amam, mas estão limpos das mágoas e dos erros do passado. E mesmo após terem contato com a fita em que escutam um insultando o outro, ambos decidem que não farão mais dessa forma,  que  irão superar isso e fazer diferente. Joel precisa reviver suas lembranças, retrogradamente, e chega ao tempo que ele e Clementine se amam sem ego, sem jogos, sem mágoas, para notar o quanto a amava e o quanto apesar de todos os defeitos, ele não queria que ela saísse de sua memória, de sua vida.


Brilho eterno me mostra como afundamos um amor verdadeiro, seja ele uma amizade, um romance, algo de puro e essencial em nossas vidas, por querermos ter sempre razão, por preferirmos ferir alguém, preferirmos trair, magoar, ignorar uma pessoa que está do nosso lado por puro ego e amargura. E se tivéssemos uma segunda chance? E se voltássemos a nos conhecer, mas com a mente livre de julgamentos, com o coração aberto para uma nova tentativa? Porque estragar uma história que hoje você está vivendo  com alguém? Por que não ceder, não relevar, não querer se ajeitar? Porque construir um muro de tristezas, mágoas e rancores, em vez de criar novas e melhores lembranças? Será que você terá uma nova chance, quando essa relação chegar ao fim? Será que será fácil para o outro esquecer e passar por cima de todas as marcas que ficaram? Não existe uma Lacuna.Inc na vida real, onde más lembranças simplesmente serão apagadas e você recomeçará sua história do 0. No mundo real, existe você, no aqui e agora, fazendo valer a pena. Talvez ainda dê tempo de cultivar aquela sementinha quase morta de amor no coração de ambos, talvez ainda tenha como criar lembranças mais amorosas e fortes que as ervas daninhas que se infiltraram. Tudo depende de você e de como você quer que seja a sua vida. E diferente do filme, as coisas que você diz e faz não podem ser apagadas por algum tipo de preço, elas ficam, elas se tornam feridas. Pense bem antes de falar ou fazer algo pra alguém que você diz amar, pois poderá não haver uma segunda chance.