Eu deixei de ser romântica há muito tempo, se é que um dia eu fui. Otimista eu sou, mas a realidade é o terreno que piso e eu vivo no presente! Por isso mesmo, vou plantando exaustivamente para que essa realidade seja melhor daqui há alguns anos. Planto sementes em mim quando cuido da minha mente para ser uma pessoa melhor e planto sementes em quem ensino, para que sejam pessoas melhores. Todas essas sementes são colhidas em anos de crítica, sensibilidade, luta e estudo. É fácil falar nomes de teóricos e decorar trechos de livros. Fácil e necessário, pois são parte das sementes à serem plantadas. Mas sujar a mão de terra, poucos fazem. Colocar a cara à tapa, poucos colocam.
Plantar cansa, mas dá resultado! Se não hoje, talvez daqui 10 anos. Nem tudo vai germinar, mas muita coisa eu sei que vai, pois todo dia eu águo um pouco! Talvez eu mesma não colha, mas valerá a pena para quem colher o que tento deixar como legado!
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segunda-feira, 4 de novembro de 2019
domingo, 21 de julho de 2019
Espiritualpolítica
Eu não quero uma espiritualidade que me ensina que todo mundo nasceu com lugar marcado,com destino certo e com cabeça fechada. Não quero achar que minha fé é prova de superioridade perante quem não a tem manifestada da mesma forma que eu!
Eu tenho nojo desse povo que se enterra na yoga e não olha pro cenário pra não desalinhar os chacras! Eu desprezo quem fala que somos a pátria do evangelho e vota em quem mataria seu Cristo! Meu asco vai pra bruxa do bem que faz cházinho e vibra amor, mas comemora a morte de criança neta de político!
Eu não quero elevar meu estado vibracional para deixar de ver quem passa frio e fome. Não quero ser benzida por quem acha que indígena é vagabundo e que racismo é coisa que os próprios pretos criaram.
Deus me proteja da espiritualidade que não tem humanidade!Que meu Santo seja mais forte que esses falsos profetas!
Por isso que hoje eu sei que a melhor forma de alcançar a paz interior, é sendo menos escrota no exterior que me cerca!
sábado, 16 de março de 2019
Auto-defesa
Eu não sou uma pessoa naturalmente combativa, eu aprendi a ser.Aprendi que nesse mundo, ninguém fará por mim o que eu mesma tenho que fazer e culpar os outros pelas minhas responsabilidades é algo que não leva ser humano à lugar nenhum!
Sempre tive o básico, coisa que muitos não tiveram. Mas cedo eu entendi, que se quisesse ir além, eu mesma teria que acordar de manhã, enfrentar filas, trens lotados, postos de saúde. Tive muito apoio familiar, muito dinheiro emprestado, muita carona, o que faz com que eu ainda me considere privilegiada. Mas quem venceu as batalhas fui eu! Quem levantou para trabalhar e estudar para manter o próprio tratamento, pagar as próprias dívidas, adquirir mais conhecimento, é essa que vos escreve!
Tive que aprender que não importa se sou compreensiva e prefiro dialogar, tenho que sempre ter o respaldo das leis e formar uma rede de proteção, além de me informar muito bem para ter argumentos fortes os suficiente para me defender. Não interessa se ele/a é alguém que gosto ou difícil de lidar, se é meu chefe, uma empresa, tenho resolver meus conflitos.Se possível, de maneira pacífica. Se não, estar preparada para tal! Engolir sapos e injustiças não prejudica ninguém mais, ninguém menos que eu mesma e eu tenho que cuidar de mim.
Aprendi a ser militante, à reconhecer meu papel de classe e a lutar pelos meus direitos. A não ser dócil e falar até ser ouvida, ou tomar atitudes que condizem comigo mesma sem a opinião dos outros.Aprendi até mesmo que nessa vida, todos estamos sozinhos e com isso, mesmo que eu faça parte de uma ideologia que deve proteger à todos, não contar com a ajuda de ninguém.
Não me tornei raivosa, não me tornei histérica, não me tornei endurecida. Me tornei o que o homem sempre teve liberdade de ser: uma cidadã que tem ciência de sua relevância na sociedade e que com isso, pode se colocar no mundo!
Não me calo! Não me rebaixo! Vou até o fim para defender a única pessoa que pode lutar por mim: eu mesma!
terça-feira, 4 de dezembro de 2018
Zen de ZL
De fato, ano passado comecei a procurar lugares onde eu pudesse desenvolver minhas necessidades espirituais. Minha mediunidade é bastante aflorada e não adianta: se eu não me cuido, sucumbo.
A religação com a espiritualidade me trouxe mudanças vistas,mas nenhuma delas veio da paz, mas do caos!
O Caos de atravessar a comunidade para ir para o centro espírita, de levar duas horas para ir e duas para voltar de um curso cheio de preconceitos (pago, diga-se de passagem), mas que me dava um certo respaldo sobre minhas questões. O caos de meditar de madrugada com os sons das balas perdidas, cachorros latindo,guardinha passando e os moleques da rua brigando. O caos de pagar R$70 parcelado nas “trocas de energia”. De ter parado a terapia, que eu já fazia de 15 em 15 dias com preço popular, para poder investir na espiritualidade. O caos de atender por quase 3 anos pessoas em grande sofrimento social,sofrendo ameaças constantes E agora, novo caos de mais 3h00 de transporte público tds os dias para trabalhar com 30 alminhas a cada 45 minutos, que muitas vezes não tem o que comer em casa.
E eu tenho sorte!
Tenho papai que levanta para preparar meu café da manhã. Tenho mamãe que faz o meu almoço, lava e passa minhas roupas. E eu ainda faço cara de nojo quando a janta é frango e atraso a conta de telefone por que eles ainda tem a pachorra de entender que esse mês gastei muito comigo mesma!
Eu sei que tenho privilégios por poder parar e pensar criticamente sobre a minha espiritualidade, por ela não precisar ser minha única alternativa para esquecer uma vida de miséria. E esse privilégio veio não apenas depois que eu percebi dentro de mim mesma que eu precisava me libertar, mas quando eu comecei a circular espaços diferentes, que me mostravam que Deus não estava só dentro da igreja autoritária que condenava a mulher que cortasse o cabelo. Para eu perceber que Deus não me mandaria para o inferno por usar calça ou fazer sexo, eu precisei de oportunidades!
Quem consegue pensar criticamente sobre o espiritual trabalhando 12h? Quem consegue pensar numa alimentação sem carne e livre de agrotóxicos?
Toda vez que eu ouço sobre “O Sagrado feminino somos todas irmãs namastê”, eu penso nas mulheres em situação de rua que atendi que nem sequer podiam escolher entre comprar um absorvente ou uma pedra de crack com os 5 conto que conseguiram se prostituindo.
Eu não sou zen não!Eu tento me equilibrar para conseguir entender esse caos!
Eu quero paz só se ela for provinda da mudança!
domingo, 2 de setembro de 2018
Quem cuida dos cuidadores?
Como sempre gostei muito de escrever, meu sonho era ser uma jornalista. Imaginava-me em redações falando com as pessoas por meio da escrita, de forma á informa-las e ajuda-las em seu dia-a-dia. Quando entrei no meio da comunicação acadêmica, percebi o quão agressivo era o ambiente e que em nada tinha a ver com o que eu queria, que era ajudar pessoas.
Meio sem querer, caí na área da educação. E mesmo não sendo exatamente o que eu esperava, me inspirei em grandes educadores que passaram por mim e me transformaram para assim, criar um perfil de educador que além de ensinar uma matéria, ensina sobre a vida e suas inúmeras possibilidades. Mas algo ainda me faltava! Eu não queria apenas alcançar o consciente sabendo que o inconsciente tinha muito mais á ser explorado! Foi quando comecei a pesquisar sobre Carl Gustav Jung e Nise da Silveira, percebendo que em toda minha vida, eu sempre quis cuidar de pessoas!
Fiz pedagogia, um ano de psicologia, me formei em arteterapia, me interessei pelo Reiki e há cada dia que passa adentro no universo da transformação do ser humano, vendo-o além de um CID, de um determinante clínico, de uma barreira imposta pela sociedade onde o rotulam como incapaz ou subserviente.
Amo e sou realizada no que faço!
A única questão que eu não me dava conta é que mesmo me preparando em cursos, palestras e estudos paralelos, não seria nada fácil!
Temos um sistema, toda uma estrutura, que não nos permite avançar para além das clínicas, assistências e muros da escola! Ao cuidador não é oferecido cuidado, mas cobrado demandas. Demandas essas que infelizmente, não temos como abarcar e nos deixam com a sensação de impotência. Com isso, é comum àquele que cuida se tornar o que mais precisa de cuidado, adoecendo e se tornando mais um na fila de espera do SUS ou pagando pelo seu tratamento em clínicas particulares, sempre com medo de ser descoberto! "Como verão o fato de eu precisar de cuidado? Não podem descobrir! Vão achar que não dou conta do meu trabalho!”. Isso não é coisa de uma instituição, é coisa de um sistema que pressiona que seus subordinados sejam de ferro! Que querem robôs e não pessoas de carne e osso! Isso é visto em escolas e seus professores deprimidos, em hospitais e seus profissionais desmotivados, em clínicas, museus, todo lugar! Exatamente em lugares onde tanto lutamos para oferecer um tratamento humanizado à quem cuidamos!
Comigo aconteceu de precisar esconder parte de minha história para adentrar em um concurso público no qual conquistei cargo de educadora .Quando decidi ser honesta com a minha situação, surgiram milhares de empecilhos, justificando que aquele que é apto á educar, não pode conter qualquer questão que necessite de cuidado em saúde mental. Como ter bons educadores quando lhes é negado o direito de cuidar da própria saúde? Depois, já fragilizada, deparar-me com com casos em que agressão, em suas inúmeras formas, está envolvida e sentindo medo, me perguntei: “Porque estou aqui, se não ajudo e nem tenho estrutura para fazer meu trabalho? Será que sirvo pra isso? Será que tenho condições de cuidar de alguém?”.
O fato de perceber que não sou de ferro, que algumas coisas vindas de pacientes/alunos me ferem quando não estou bem amparada, me assustou! Neste momento, estou em crise sobre meu papel dentro de uma instituição que não seja o de julgadora ou dona da verdade. Parece que quando estamos frágeis nosso campo de visão se fecha e começamos a ver tudo partindo de nosso próprio umbigo! A paciência se torna ínfima e o desejo de estar junto desaparece, virando apenas um cumprimento de rotina e tarefas. É esse tipo de professora/terapeuta/cuidadora que eu quero ser? Claro que não!Mas o que fazer?
Tenho buscado formas de me fortalecer e não me deixar sucumbir a um sistema sádico que faz com que os cuidadores lidem com o sofrimento não tendo direito de lidar com o seu próprio! Quero me permitir sofrer, me questionar, me descabelar e começar de novo! Não é por sermos fracos, mas porque somos seres humanos e necessitamos de fortalecimento emocional para ajudar aqueles que necessitam de nossa ajuda! Necessitamos reivindicar o direito de sermos seres humanos, de assumirmos nossa necessidade de apoio e mostrarmos que com respeito, amor e humanização dos setores de trabalho, conseguiremos dar nosso melhor naquilo que mais nos realizamos: cuidar de pessoas!
quinta-feira, 21 de abril de 2016
Vão querer te por no seu lugar
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| A de garrafa, que é a mais gostosa! |
Tem um episódio na minha vida que nunca esqueço quando se
trata de lembrar que eu, apesar de ter uma graduação, estar na segunda, ter uma
pós e ter trabalhado em diversos lugares cheio de pessoas privilegiadas socialmente,
continuo não passando de uma favelada.
Certa vez, em um desses lugares que trabalhei cheio de gente
embasada teoricamente que respeitam seu lugar de fala e que choram com a
desigualdade social, houve um piquenique, como sempre havia. Mas esse era
diferente! Foi combinado que seria um piquenique “Queijos e vinhos”, ou seja,
só com coisa fina! No grupo do Facebook, ao ser questionada sobre o que eu iria
levar, pensei que talvez nem todos bebessem bebida alcóolica. Pensando nessas
pessoas, respondi que levaria uma Coca-Cola. Quando declarei isso, uma dessas
pessoas engajadas e esclarecidas escreveu no grupo que eu era “De categoria”,
que era “Queijos e vinhos e não salgadinho e refrigerante” e que “tudo bem eu
levar Coca, mas que eu fosse com a fome condizente ao que eu levaria”. Na hora
eu fiquei extremamente em dúvida se essa pessoa estava brincando ou falando
sério. Senti-me constrangida, não pertencente ao grupo e tive grande vontade de
não comparecer ao piquenique no outro dia.
Quem é da periferia sabe o quanto aqui, certos artigos são
luxo. Não interessa se você acha um horror o capitalismo selvagem que a
Coca-Cola produz e que ela destrói seu organismo. Não interessa se você acha
uma atrocidade à matança dos animais e quer que o mundo seja vegano. Não
interessa que existam vinhos do mesmo preço de uma Coca-Cola ou se dá pra comer
bem sem comer carne: o que interessa é o valor simbólico embutido nesses
alimentos! A exemplo disso, uma tia de alguém que conheço , em uma conversa
disse : “ Hoje eu sou rica! Não reclamo de nada! Eu nunca pensei que teria
carne, frango, linguiça todo dia na minha geladeira!”.
Pro pobre, certas
coisas tem uma grande simbologia de riqueza e poder, de sucesso. Porque
simbolizam fartura, simbolizam que você mais do que QUIS comer, PÔDE COMPRAR!
Muitas vezes, eu que sou hoje uma mulher acadêmica e que nos
meus trabalhos sempre convivi com pessoas que viajam pra Europa todo ano, que
ouço de olhos brilhantes eles descreverem como é o Museu do Louvre, me esqueço
de que para grande maioria, eu estar ali, vir de onde vim, ser quem eu sou,
causa um grande e indigesto incômodo!
Dão palestras e seminários sobre interseccionalidade, falam
do índio, falam do negro, falam da mulher negra e periférica, falam dos mlk
piranha dando rolêzinho no shopping, mas de uma forma assistencialista, de uma
forma de “vamos dar espaço pra eles, mas não o nosso”.
Quantas vezes eu tive que pegar 3 conduções, sair do extremo
leste, pra ir pro Parque do Ibirapuera discutir sobre “Inclusão social” ? Não é
irônico?
Ás vezes eu canso, eu penso em me por no meu lugar. Olho a
minha volta e me pergunto porque escolhi esse caminho, porque não fui fazer administraçãoo, trabalhar no banco?
Porque insisto em dar murro em ponta de faca em lugares que não me querem ali?
Mas é aí que cai a ficha: Exatamente por não me quererem, é
ali que eu tenho que estar!
Porque sou educadora.
Porque sou politizada.
Porque sou da periferia.
E porque quero abrir uma ferida bem grande no meio de vocês,
para dar passagem para mais pessoas como eu ocuparem o lugar que vocês pensam
serem exclusivos SEUS!
quarta-feira, 23 de março de 2016
É todo mundo reaça?
Meu pai é um homem simples, extremamente bondoso e
evangélico fervoroso.
Quando criança, estudou até a quarta série e logo começou a
trabalhar. Tanto ele quanto minha mãe foram jovens na ditadura militar, mas viviam em um bairro
pobre, sem televisão, passando fome e
sem conhecimento das atrocidades
que a ditadura cometia. Aliás, nem sabiam, como não sabem bem até hoje,
que viviam um período ditatorial. Eles trabalhavam para poderem se casar e
formar uma família, essa era a preocupação de ambos. Só depois de muito tempo
de casados concluíram o segundo grau com o supletivo e se orgulham muito disso
(eu também!).
Mais tarde, meu pai se tornou metalúrgico e no sindicato conheceu
o PT. Filiou-se ao sindicado e lá conheceu um representante que era pobre e
metalúrgico como ele, o Lula. Ele então, sentindo-se representado, filiou-se ao
partido e acreditou em todas as mudanças prometidas.
Como a grande maioria, sofreu muitas decepções com o PT.
Hoje em dia é um senhor aposentado que não recebe sua remuneração justa e é
revoltado com o Lula por isso. Sendo ele um homem simples e decepcionado com o
partido, é a favor de que o Lula e o PT paguem pelas promessas não cumpridas e
pela corrupção envolvida. Eu também sou.
O problema é que meu pai, como tantos outros brasileiros com
este mesmo perfil, ainda acredita no que noticiam na TV e se norteia pelos
grandes escândalos de corrupção escolhidos seletivamente pelo Jornal Nacional e
outros. Ele também acredita nas publicações do Facebook em que falam, por
exemplo, que o filho do Lula é dono da Friboi.
Pessoas com esse perfil são muitas! São pessoas simples,
honestas, gentis, trabalhadoras e que não fariam mal a ninguém, quanto mais a
um cachorro de lencinho vermelho ou a um bebê de mijãozinho da mesma cor. Aliás,
eles continuam usando vermelho sempre que essa cor está limpa.
Estamos errando e MUITO em dividir a política em duas polaridades
e colocar todos os inconformados no mesmo balaio de gatos. A senhora que teve a
aposentadoria roubada e se revolta com isso não é a patricinha que tira fotos
com o mendigo. O cara que está
desempregado há mais de um ano e acha que é culpa do Dilma não é o cara que
vota no Bolsonaro e diz que a culpa é dos nordestinos. Falta-nos compreender
que essa polarização política foi incitada pela grande mídia e não somos
Petistas contra Tucanos, comunistas contra reacionários. Há um grande espectro de insatisfações,
revoltas, defesas e argumentos que não são ouvidos e nem entendidos por
estarmos apenas em dois lados extremos. Há realidades simplesmente ignoradas,
pontos esquecidos, verdades absolutas.
domingo, 25 de outubro de 2015
Texto de uma feminista de periferia
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| Simonão |
Como feminista, sou dura em criticar questões que considero
mal elaboradas dentro do próprio feminismo
e por isso já fui considerada “não feminista”, o que na verdade, me
importa muito pouco. Acredito que é por estar dentro de uma ideologia e querer
ver o mundo transformado por ela que preciso olhá-la com um olhar realista e
pouco romântico.
O que mais vejo são mulheres , em sua maioria jovens e tendo
um contato recente com o feminismo, tomando a ideologia quase como uma doutrina
religiosa, sem questionamentos e a achando acima do bem e do mal. Se você
começa a mudar sua forma de se vestir, se comportar e falar não porque tomou
consciência de que aquilo não era certo
ou bom para você, mas porque é o que o grupo diz ser o correto, você não está
sendo revolucionário, você está apenas sendo moldado. Não adianta ler Simone de Beauvoir e outros escritos se você acha que está lendo
uma Bíblia e que tudo que está escrito ali, é inquestionável. Tenho ressalvas com todas as correntes teóricas
que conheço. Sei que cada linha teórica acrescenta e muito, e todas elas trazem
benefícios, mas nem por isso irei rezá-las como cartilhas.
Contudo, o que mais
tem me irritado é o novo “Feminismo classe média”. Esse feminismo “Vai ter não
sei o que sim e se reclamar vai ter dois”, “ Miga, apaga que tá feio, seje menas,
sou lua em câncer” , “Bazar da sororiedade das mina” (porque vir na favela
DOAR as roupas de grife ninguém quer, né?). Além do elitismo rolar solto, a subestimação
de inteligência com quem é pobre é impressionante. Digo isso como mulher
periférica, advinda de escola pública e que alcançou o status de classe média
graças a oportunidade de cursar uma universidade pelo PROUNI. Cansa ver pessoas achando que você é alguém
que precisa que tem peguem pela mãozinha e te mostrem a luz porque você é da
periferia. Cansa ver branca querendo
falar por negra, achando que elas não
sabem se defender. Cansa ver feminista FFLCH se achando Madre Teresa , querendo
explicar pras mulheres periféricas o que é abuso. Não que todo mundo não
precise ser esclarecido, não que todo mundo não precise ler escritos
feministas, não que todo mundo não precise ter estudo de qualidade, mas
subestimar a inteligência de quem vive na prática, quem vê a mãe apanhando todo
dia, quem sofre na pele o que é desigualdade social, quem passa racismo á torto e á direita e achar que
essas pessoas não tem condições de pensar sobre temas como violência contra a
mulher, racismo e luta de classes porque não teve acesso a um ensino elitizado
ou não teve alguém “mais privilegiado” pra explicar é elitista e arrogante á
beça!
Saiam das suas bolhas!
Esqueçam sua prepotência mascarada de assistencialismo!
Feminismo não é aprendido só na teoria, mas também na
prática! A garota que tem que passar pelo caminho do riozinho, cheio de homens
escrotos que assediam todo dia, para chegar na escola no meio da favela pode
saber muito mais sobre misoginia do que você, que sabe de cor e salteado todas
as correntes teóricas feministas da atualidade. E vou te contar um segredo:
Talvez ela também SAIBA! Existe internet, existe biblioteca, existe uma
coisinha chamada INTERESSE que não é privilégio só de quem nasceu em boas
condições financeiras.
Talvez esse texto me faça mais odiada? Que faça! Mas não
dava mais pra engolir o que estava engasgado faz tempo! Parem de achar que
sabem mais sobre nós da periferia do que nós mesmos!
P.S: Texto escrito após ler críticas ao tema da redação do ENEM e ao fato do mesmo conter Marx e Simone de Beauvoir, já que "quem teve ensino público não conseguiria entender".
domingo, 4 de outubro de 2015
Depois da partida- reflexões religiosas
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| Desenho que fiz pro desafio #Inktober que estou participando. Todo dia tem desenho novo no Instagram, basta seguir ali ao lado <------- |
Tento não abordar esse assunto de maneira literal, pois não
quero ser tida como influencia para ninguém, nem como boa e nem como má.
Acredito que há momentos em nossa vida em que algo se faz necessários e depois
deixam de fazer, por muitos motivos. Ter uma religião fez bastante sentido pra
mim durante quase 7 anos. Fazia sentido seguir aquela doutrina, crer no que eu
ouvia e me sentir parte daquele lugar. Hoje não faz mais.
Com a saída dessa doutrina que frequentei, inúmera coisas
mudaram. Por fora todos sabem: Roupas “do mundo”, tatuagem, mudanças no cabelo,
liberdade sexual. Mas as mudanças muito mais significativas foram por dentro e
é delas que quero falar nesse post:
Minha vida está extremamente mais leve agora que acredito
que as coisas vão acontecer conforme o meu merecimento, e ainda assim, é
possível que não aconteçam, a vida nem sempre é justa e está tudo bem! As
coisas não deram errado por que : pequei; estou sendo castigada ou estou sendo
provada. Da mesma forma, as coisas não deram certo porque: Estou sendo
recompensada, é uma prova que Deus me ama (logo, se ele não dá, ele não me
ama);
Não fico mais esperando eternamente que coisas que
provavelmente não irão acontecer, aconteçam, pois sou “uma serva de Deus
esforçada e mereço isso”. Não fico mais me martirizando pela vida não cumprir
minhas expectativas e colocando isso na conta de Deus. Não fico mais esperando
milagres , embora creia que eles existam, mas não acho mais que é obrigação de
Deus fazer com que aconteçam ;
Sou muito mais humilde agora. Sei que receberei algo
conforme minha necessidade e minhas ações, e não porque “Deus quis”. Agora sou
responsável pelas minhas ações e receberei o que delas for seu resultado
natural (ou não);
E principalmente: Sou eu mesma, sem medo de estar sendo
vigiada o tempo todo por uma força invisível
(seja ela a doutrina da igreja ou o próprio Deus, que sei que não liga
para nada disso) que estará pronta a me apontar e julgar caso eu corte o
cabelo, dance o faça qualquer coisa considerada por alguém como “mau
testemunho” ;
Muitos me perguntam e NÃO, não me tornei ateia e ainda me
considero cristã, mas não sinto mais o mínimo desejo de voltar a uma religião
que mais me condena que me acolhe, seja ela qual for.
sexta-feira, 20 de março de 2015
A educação e os seres invisíveis
Sou graduada e pós
graduada, sendo a graduação possibilitada pelo PROUNI. Atuo como educadora desde 2008 e desde então, tenho
frequentado diversos círculos sobre educação em todas as instituições que
passei. Nesses círculos, a grande maioria das pessoas tem o perfil de virem de
famílias já de educadores e artistas, escolas particulares e bairros
privilegiados de São Paulo, ou seja, uma realidade muito diferente da que vivi.
Sou filha de pais que terminaram o colegial depois de adultos no EJA
(Educação de Jovens e Adultos) e a primeira mulher a ter um curso superior na família.Me graduei em uma boa universidade particular em um Campus situado próximo ao meu bairro, então o perfil econômico e cultural das pessoas não era tão diferente do meu, mas os discursos acadêmicos já me incomodavam em questões que explorarei adiante.
Fiz vários cursos de extensão universitária por universidades públicas e outros de formação como educadora. Em muitos
deles, trabalhamos a questão do índio e
do negro em ambientes acadêmicos, o que muito me incomodava, já que olhando ao
redor, há pouquíssimos negros e nenhum índio que possa levantar sua fala. Me
perguntava : “Quem somos nó para estudarmos e debatermos se o índio deve ou não
se envolver no que achamos ser civilização? Quem sou eu, garota branca, pra dar
uma opinião segundo tantos livros de história que li se é exagero ou não um
negro se sentir revoltado com o termo “apropriação cultural?”.
Nunca conseguirei falar por esse índio e por esse negro que
não estava lá, mas posso falar pela moradora de favela/periferia/escola pública
que estava lá! A experiência de ver minha realidade sendo estudada e tratada de maneira
até romântica por um ambiente acadêmico me faz sentir um pouco a dimensão do
que é ser um ser invisível na sociedade, o que é acharem que entendem mais
sobre você, de acordo com estatísticas, pesquisas e visitas pitorescas ao seu
habitat natural, do que você mesmo, que vive isso. Nunca fui destratada ou
rebaixada pela minha condição de moradora da periferia (até porque tenho uma
aparência extremamente européia, o que me “camufla”, pois certamente a
experiência de uma garota negra e periférica em um ambiente acadêmico deve ser
muito diferente), mas ver-me sendo estudada, analisada pode ser sentida muitas vezes como grande agressão. Em um
desses cursos, após assistirmos o documentário “Pro dia nascer feliz”, que
trata de escolas de SP, ouvi o comentário “Não acredito que escolas públicas
sejam dessa forma. Afinal, fala-se muito de escolas públicas, mas ninguém nunca
foi lá ver como é!”.
Minha crítica não é a nenhuma instituição, mas aos ambientes acadêmicos como um todo, que tenta incluir ainda de uma
maneira excludente! Esse problema se torna muito maior quando o ambiente
é o da educação. É maravilhoso que haja hoje em dia uma preocupação com o
entendimento sobre “o outro” e a tentativa de incluir essas classes emergentes
e social /historicamente excluídas, normalíssimo então que as visões ainda sejam
estereotipadas.
Não me senti excluída como mulher, mas certamente, há 20
anos atrás, eu me sentiria por ser um cenário muito mais machista e pouco
esclarecido como é agora. Meu pensamento é, por meio de minha experiência,
problematizar ainda mais o fato de que ainda somos invisíveis, ainda somos excluídos,
mesmo agora nos “sendo permitido” ousar invadir um território que até muito
pouco tempo, nunca foi nosso. Por isso
mesmo, creio que seja obrigação nossa, que já estamos lá, abrirmos discursos e
caminhos para que cada vez mais nossa história seja contada a partir de nossas
experiências, de nossas vivências. O
academicismo ainda é branco e elitizado, mas o fato de começarem a se preocupar
com nossas realidades já mostra algum avanço. Cabe a nós agora tomarmos
nosso espaço e nos fazermos vistos, e
não apenas estudados como seres invisíveis.
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
Porque precisamos de um dia de consciência negra?
Quando eu era adolescente, assim como muitos adolescentes,
sofri bastante bullying na escola. Tinha
todo tipo de motivo bobo pra isso, mas um dos motivos pelo qual eu mais sofria,
era por ter cabelo crespo e armado. Eu ouvia coisas como: branca do cabelo
ruim, cabelo de Barbie estragada,
vassoura, etc. Como minha mãe é cabeleireira, eram inúmeros os “Mas
porque sua mãe não cuida do seu cabelo?”, “Porque você não alisa seu cabelo?”, “Você
não tem vergonha de ter esse cabelo?”, “Porque você não usa chapinha?”, “Você
tem preguiça de fazer uma escova?”. Tudo isso entrou bastante na minha cabeça,
desenvolvi por um período Tricotilomania ( doença ligada ao TOC onde a pessoa
arranca os fios de cabelo ou pelos do corpo, podendo os engolir ou não), mas na
tentativa que ao arrancar os fios, eles nascessem “melhores”, lisos. Depois,
passei a fazer progressiva, relaxamento e várias químicas que destruíram meu
cabelo. Resumidamente, cresci, me aceitei e hoje acho meu cabelo cheio,
encrespado, sarará , a coisa mais linda que tem em mim.
O fato de eu ter sofrido esse tipo de preconceito por ter o
cabelo mais ligado ao afro que ao europeu já mostra como nossa sociedade
discrimina o que vem do negro: Meus caros, eu sou branca! Mas bastou eu ter um
traço ligado a matriz africana para que eu sofresse toda essa pressão. Não é
porque meu cabelo era feio, mal cuidado, sujo, mas simplesmente porque ele era
crespo, e cabelo crespo é cabelo “ruim”.
Jamais direi que sofri racismo, se se o disser, foi unicamente pelo fato
de algo em mim denunciar minha ascendência africana.
Todos os dias em meu trabalho, me deparo com expressões de
crianças e adolescentes, por vezes até adultos, que menosprezam as religiões
que erroneamente chamam de “macumba”. Todos os dias tento dialogar sobre como
essas religiões foram massacradas e marginalizadas por serem de um povo que
veio de uma terra cheia de magia, grandiosidade e uma grande variedade de
deuses e que nenhum deles faz mal para ninguém. Todos os dias tento mostrar
como tudo que é ligado ao povo negro é visto como mal, sujo, impuro.
É extremamente recorrente eu tentar mostrar por exemplos
simples a eles como o negro não tem representatividade em nossa sociedade: Vendo
as novelas da televisão, quantas protagonistas negras você já viu? Quantos
negros bancários, professores, donos de mansões, você já viu? E quando o negro
aparece, onde ele está? Qual a cor da pele dos empregados, dos favelados, dos
ladrões que são representados pela mídia? . Quantas recepcionistas negras, com
cabelos naturais e soltos, você vê em portas de grandes empresas? E quantas
faxineiras brancas você encontra no seu dia-a-dia? Você cresceu ouvindo que seu
cabelo é ruim, que ele precisa ser “domado”, como se você fosse um animal? Você
cresceu ouvindo que seu nariz é largo, é feio, é “de preto”? . Já te negaram
emprego pela cor da sua pele? Já questionaram sua honestidade pela cor da sua
pele? Já te ensinaram a odiar a cor da sua pele? Já te disseram que você é um
branco de alma negra? Que tudo bem você ser branco, porque Deus olha o coração?
Que você é uma “branca muito linda”? A polícia te para na rua pelo fato de você
ser branco? Na farmácia existem muitos produtos para cachear e encrespar os
cabelos? Ensinam formas da maquiagem engrossar o nariz? Existem cremes para
escurecer a pele?
Quando dizem para mim que existe meritocracia e que hoje em
dia, brancos e negros tem as mesmas oportunidades, questiono-os: Quantos
professores negros você tem? Os que já estão na universidade, quantos alunos
negros há em sua sala de aula? Isso
demonstra que negros não tem competência para os estudos? Ou será que não temos
as mesmas oportunidades?
Acho que nem precisaríamos entrar nessas questões ainda tão
atuais, se simplesmente pensássemos sobre o óbvio: Escravizaram seu povo
durante séculos? Te obrigaram a sair de sua terra e te venderam como bois? Estupraram
as mulheres da sua tribo? Te negaram o direito ao estudo, ao salário, a uma
vida humana? Venderam seus filhos para serem escravizados?
Quando dizem que não precisamos de um dia pra consciência
negra, mas para a consciência humana, me pergunto se estas pessoas tiveram
alguma aula de história ao longo de suas vidas. Em toda a nossa história,
humanos escravizaram humanos, humilharam humanos, estupraram humanos,
torturaram humanos, mas os humanos feitores desses atos acham muito fácil
esquecer o que já passou e que repercute até os dias atuais e querem um dia “para
todos, pois todos somos iguais”. É fácil dizer que é igual porque tem uma amiga
negra, um parente negro, difícil é quando
você fecha a porta do seu carro ou troca de rua quando vê um negro se
aproximar, quando diz que a meritocracia é a lei do mais forte sabendo que
negros tem um percentual baixíssimo em grandes postos de trabalho e acadêmicos.
É fácil achar que somos todos iguais quando você já nasceu com todos os
privilégios que te são garantidos pela
sociedade pelo simples fato de você ter nascido branco!
O Dia da consciência negra é muito mais que um dia para
colocarmos turbantes, sambarmos e falarmos que as mulatas são maravilhosas. Ele
é feito para um povo que foi massacrado fisicamente, religiosamente e
culturalmente durante séculos e que pouco a pouco, tenta se recuperar de anos
de danos vividos. A meu ver, apenas um
dia para isso é pouco, muito pouco. Milhares de medidas deveriam ser tomadas
para inserirmos cada vez mais na sociedade uma cultura que é tão marginalizada
pela mesma.
E não são os outros que vêem racismo em tudo, é você que
está tão inserido dentro dele, que passou a acha-lo normal. Mas ainda há tempo
para refletir , e o dia 20 de novembro é uma ótima data para isso.
domingo, 9 de novembro de 2014
Violência psicológica
Há pouco tempo, escrevi um texto aqui sobre Violência Emocional
e o deletei. Fiz isso pois, o texto foi escrito em um momento de emoção que
estava reprimida, sobre um assunto que há muito tempo eu queria falar, mas não tinha coragem. Escrevi e me arrependi por inúmeros fatores, mas agora com a cabeça fria estou disposta
a reescrever sobre o assunto.
Tive um relacionamento de três anos que me destruiu por
dentro, tamanhas eram as violências sutis que eu passava todos os dias. Dentre
as formas de violência sofridas, estavam: provocar ciúmes de maneiras
explícitas e depois me convencer que eu era louca, via coisa onde não tinhar;
sumir por dias sem deixar contato, depois aparecer como e nada tivesse
acontecido;ignorar meus apelos para ser ouvida e vista, ficar em silêncio
sepulcral enquanto eu me debulhava em lágrimas ou rir da situação; provocar em
mim ataques de fúria e raiva, fazendo com que eu não me reconhecesse, falasse
coisas horríveis e depois chorasse achando que a culpa era minha; ignorar meus
problemas pessoais e insinuar que eu tinha uma vida perfeita perto da dele; me
ignorar perto de amigos, como se eu não estivesse ali; me comparar direta e
indiretamente a outras mulheres do passado ou presente, flertar com outras na
minha presença; etc, etc, etc.
Nem preciso dizer o quanto eu me sentia um lixo, não é
mesmo? É claro que por eu ter ficado com essa pessoa 3 anos, existiam
qualidades e bons momentos, pelos quais eu me prontifiquei a lutar. Mas demorei
a notar que apenas gostar de alguém, e essa pessoa jurar de pés juntos que
gosta de você, não é o suficiente para continuar em um relacionamento doentio,
onde o outro em vez de querer te erguer e te ver progredir junto com ele, mina
sua autoestima, rebaixa suas conquistas e disputa com você, quase em um
movimento de inveja e competição, para ver “quem é melhor”.
O perfil do agressor para as pessoas de fora é sempre de
alguém bonzinho, amável, gente fina. Quando você tenta contar para alguma
pessoa o que você está passando, ninguém acredita em você, todos o defendem por
ser “um anjo” e tentam te convencer que é você quem está vendo coisas, é você
que está sendo incompreensiva. Ainda mais quando vêem você sendo presenteada
com ursinhos, flores, cartas, pedidos de perdão e todos ficam abismados em como você “reclama
com a barriga cheia, queria eu ter um marido romântico assim”. Isso se agrava
quando a pessoa em questão teve uma vida difícil e tudo é justificado pela
família desestruturada, pelo emprego exaustivo, pelo passado triste. Tudo se
vira contra você, e você se sente culpada por ter tido uma família estruturada,
uma condição de vida que te permitiu estudar sem se preocupar com trabalho até
quando pode, por ter tido o privilégio de nunca ter passado fome. Toda a
agressão do agressor, passa a ser justificada, e você, tem que entender o lado
dele, já que o mesmo teve uma vida sofrida. É um pesadelo, é uma prisão. Você,
vítima, se torna a vilã.
Falando da pessoa com quem convivi, sei que a grande maioria
das atitudes agressivas foram inconscientes, sem a intenção real de me ferir
propositalmente, eram reproduções do que já havia vivido. Mas nunca se deve
usar isso como uma forma de se autoconvencer que a pessoa irá mudar com o
tempo, porque ela não vai! O que se pode fazer nesse caso é propor um
tratamento ao agressor e esperar que este tome consciência de seus próprios
fantasmas, mas jamais se submeter a um relacionamento doente acreditando que
este irá mudar.
Consegui sair dessa e não desejo mal algum a ninguém, muito
pelo contrário, quero mais é que se reerga e consiga levar sua vida em frente sem
magoar nem a outra mulher e nem a si mesmo. Ainda vejo em mim muitas marcas
desses traumas quando sem querer, acabo refletindo alguns medos e inseguranças
no meu novo relacionamento, mas posso dizer que estou muito melhor. A ajuda
psicológica que eu já tinha em terapia me ajudou muito a superar, e meu novo
relacionamento também.
Tudo é passageiro, basta querer seguir em frente.
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
Qual tipo de vida os "pró vida" defendem?
Tenho tido o privilégio de trabalhar como educadora na 31Bienal de Artes de São Paulo (já fui
educadora também na 29). Há uma obra emblemática dessa exposição chamada Espaço
para abortar, do grupo feminista boliviano Mujeres Creando. Não descreverei a obra , pois creio que minha visão pode variar da visão de muitos, e também para que se
agucem a curiosidade e que a obra seja visitada.
Em minha vida, sempre pensei nunca ter tido um contato real
com mulheres que provocaram aborto. Sempre vi esse fato como algo isolado, que pouquíssimas
mulheres recorriam e estas, apenas em momentos de grande desespero. Erro
meu. Em poucos dias estando em contato
com esta obra e abordando-a de maneira educativa com diversos públicos, dentre
eles crianças, adolescentes, homens e mulheres, ouvi centenas de depoimentos e opiniões
diferentes e descobri que o aborto é uma prática muito mais comum do que
imaginava, tendo os mais diversos tipos de motivos para acontecer, desde um
estupro, até o simples fato da gravidez não ter sido desejada. Percebi então
que muitas mulheres do meu círculo social já haviam praticado um aborto, mas
que esse assunto é um tabu, um assunto a não ser comentado, e como é o tema da
própria Bienal, é um tipo de “Como falar de coisas que não existem”.
Parei então para refletir sobre o assunto e me veio uma
enxurrada de problemas que essa omissão governamental sobre a questão do aborto
acarreta em nossa sociedade. Aqui a questão não é sua posição pessoal, se você
é contra ou a favor , se sua religião condena ou não tal prática. A questão
aqui além de saúde pública, é social. O aborto é criminalizado no Brasil ,
portanto, a mulher que o comete é vista como uma assassina. Não existem métodos
seguros para que o aborto seja realizado, a não ser em clínicas clandestinas,
que além de ilegais, são extremamente caras. Apenas mulheres com um alto poder
aquisitivo podem fazer um aborto com o mínimo e segurança. Contudo, a imensa
maioria da população não tem esse recurso, recorrendo aos métodos mais
agressivos e arriscados, colocando sempre a vida da mulher em jogo. E quem são
essas mulheres que recorrem a esses métodos? Em sua maioria pobres, negras,
periféricas, moradoras de comunidades. Mulheres que escondem uma gravidez do
parceiro, da família, da igreja, que não tem apoio nenhum. Mulheres que muitas
vezes já estão esperando o terceiro, o quarto filho, que moram em barracos, não
tem se quer condições de alimenta-los. A mulher é demonizada sempre por ter
feito essa coisa tão vergonhosa e odiosa, que é o ato sexual, e ter “se deixado
engravidar”. Nunca se fala que para uma gravidez ocorrer, é necessário a
participação do esperma masculino, que o óvulo não se fecunda sozinho, e que a
mulher que foi culpada por não tomar a pílula, foi penetrada por um homem que
não se preocupou em usar camisinha.
Nunca se fala também do aborto masculino, que ao saber que a companheira
está grávida, simplesmente nega a
paternidade da criança ou quando “assume”, é colocando seu nome em um registro e
pagando uma pensão por mês, sem participar da criação, da troca de fraldas, sem
ter seu corpo completamente modificado, sem sofrer as dores do parto, sem
carregar nas costas o peso de ser responsável por uma outra vida.
Existem com certeza métodos anticoncepcionais e existem
aquelas que mesmo tendo a opção segura de ter um aborto, optarão por não
faze-lo, seja por motivos pessoais ou religiosos. Mas isso não muda a questão
de que os abortos clandestinos estão acontecendo o tempo inteiro e mulheres
estão morrendo dia a pós dias por esses abortos. Que sociedade é essa que se
diz pró vida, mas prefere ver a morte de uma mulher por infecção, hemorragia e
tantos outros males, em vez do expelimento
de um feto, que nem se quer formação ainda tem? Muito me assusta também os chamados pró vidas que acreditam que lutar
pela vida, é apenas deixar nascer. Ninguém se responsabiliza pela formação,
educação, criação, impacto psicológico ou contexto social que esse ser , que em
gravidez foi indesejado, terá. É preferível vivo, mas jogado as traças,
passando fome, abuso, humilhação. É o que vemos com tantas e tantas crianças de
rua, crianças abandonadas em orfanatos, crianças criadas em meio ao tráfico
,etc. Ninguém se preocupa em como será a qualidade de vida desses seres, mas
querem lutar para que este nasça, seja ele in desejado, com alguma doença congênita
ou até mesmo, não portador de um cérebro. É jogada nessas mulheres a
responsabilidade pela vida de outro, e retirado o direito de serem responsáveis pelas próprias
escolhas, a própria vida.
Com a despenalização do aborto, mulher alguma será obrigada
a abortar, mesmo aquela que sofreu uma violência sexual ou traz um feto
defeituoso, se quiser levar a gravidez adiante, terá todo o apoio da sociedade.
A despenalização apenas dará a mulheres que não podem ou não querem uma
gravidez cheia de riscos, traumas e culpas, terem o direito de interromperem
essa gestação sem o risco de saírem mortas e sem serem julgadas como
criminosas. É um interesse social e público que o aborto seja legalizado.
Religião ou posicionamento social não pode e não deve interferir na vida de
milhares de pessoas. Nosso país é laico, e como tal, tem o dever de garantir a
saúde e a integridade física e mental de todos os cidadãos, independente de
suas escolhas pessoais ou religiosas.
P.S: Eu, a autora do texto, não provocaria um aborto e nem
estimularia alguém a cometer, tenho meu posicionamento PESSOAL quanto a isso,
mas sou totalmente a favor de que o aborto no Brasil deixe de ser um crime.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
Esse tal 2013
| Pintura feita hoje!- O astronauta azul- Aquarela, lápis aquarelável e spray sobre canson, |
Dois mil e treze me deu muita rasteira, tomei muita porrada.
O saldo de ganhos materiais foi muito negativo, eu cheguei à estaca zero. Tinha
um namoro de 3 anos e de um dia para o outro, não tinha mais. Tinha um emprego
que me deixava infeliz, e também o abandonei. Tive oportunidades que estavam na
minha mão e que escaparam por entre meus dedos. Tinha consultas mensais com um
médico que me receitava pílulas pra eu não sentir a dor de viver, e não pude
mais o pagar. Tive um escroto que passou por mim e me fez perder o pouco de avanço
que eu havia adquirido, e tive que começar tudo de novo. Perdão a expressão,
mas 2013 foi foda. Derrubou-me várias
vezes e tirou as muletas com as quais eu já estava acostumada. Eu tive que
começar tudo de novo.
A falta de um trabalho fixo me proporcionou vários trabalhos
incríveis, onde cresci imensamente e
onde conheci pessoas fantásticas! O número de gente que entrou em minha vida
esse ano em qualidade, não está escrito! Posso dizer até mesmo, que este ano
conheci pessoas que na verdade, eu “já sabia que existiam” há séculos!
Largar um namoro doentio que estava detonando cada vez mais
com minha saúde e minha vida foi a melhor escolha que fiz. Foram quase dois
anos tomando coragem para finalmente explodir e conseguir caminhar com minhas próprias
pernas, mesmo que pra me quebrar e ferrar novamente em uma nova experiência. A
este que passou por mim por tanto tempo, não lhe desejo mal. Espero que em breve, consiga me curar de
todas as feridas que esse convívio me proporcionou, e a ele, desejo essa mesma
sorte.
Iniciei uma nova empreitada, um novo curso de graduação, que
na verdade, eu sempre quis. E como é bom ver o tamanho da minha burrice nessa
área! Como é bom ver o quanto tenho a descobrir, o quanto tenho a aprender!
Esse ano vi minha arte ampliar, meus traços mudarem, meu
coração bater mais forte.
Não planejei nada, não coloquei como meta, mas sem notar,
fui me tornando uma forte ativista em tudo que apoio, uma voz que alguns
ouvidos se direcionam para escutar. E mesmo sem influenciar nada e nem ninguém,
me orgulho das pequenas conquistas do meu dia-a-dia.
Mesmo ferrada, muitas
vezes sozinha e muitas vezes triste, algo diferente dentro de mim me
impulsionou a viver, este ano. Fez-me respirar e pensar “tudo pode mudar, tudo pode
se mover”. Esse ano eu me tornei uma mulher, e isso não tem nada a ver com
sexo, tem a ver com empoderamento.
Dois mil treze, seu grandíssimo FDP, obrigada por tudo!
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
A voz do povo NÃO É a voz de Deus!
Quando houve o caso do vídeo do Silas Malafaia falando sobre
a homossexuaLIDADE, a maioria dos meus amigos cristãos não se manifestou,
talvez por medo de serem julgados e de
fato,iriam ser de toda forma: se tivessem uma opinião em favor do Silas, seriam
vistos como ignorantes e homofóbicos. Se tivessem uma opinião oposta, seriam
vistos como “falsos cristãos” por outros tantos. Bem, as únicas pessoas que vi
emitindo uma opinião foram uma amiga, de outra igreja, e eu. Ela a favor do
pastor, eu contra. Fui a favor do vídeos do geneticista e concordo com ele que
contra fatos não há argumentos! Malafaia não apresentou fatos, dados válidos,
ele fez uma comparação absurda cheia de achismos e estudos que devem ter mais
de 50 anos. E outra: A pessoa ser homossexual por genética ou por escolha faz alguma diferença? Isso comprova que por tal
ou tal fato, que ela mereça menos direitos civis, menos respeito que você?
Eu fico imensamente chateada quando vejo que igrejas
fundamentalistas, retrógradas e fanáticas são as que tomam espaço na mídia e
são justamente as que tomam acesso a cabeça do povo, em sua grande maioria não
esclarecida, com pouco estudo e ávido para terem alguém dizendo o que eles
devem fazer para serem salvos. Isso me entristece muito! Entristece-me saber
que há mulheres fazendo uma separação de princesa/cachorra, que há um culto
feito para chamarem mulheres que simplesmente não tem a mesma linha de
pensamento que a sua de cachorra! Foi isso que Jesus ensinou? Que deveríamos
nos sentir superiores e julgarmos uns aos outros? Esses dias eu vi um vídeo que
dizia o cúmulo de que hoje, em pleno século XXI, era triste que as mulheres
fossem criadas para serem independentes, para terem uma carreira, e que as
mulheres cristãs deveriam ser criadas para saberem pregar botões, para serem
submissas a seus maridos!É isso que as torna tão superiores? Será que Deus está
mesmo,lá do alto, contando quantos botões você pregou na camisa do maridão,
enquanto estava chamando a vizinha de cachorra?
O que muito me espanta é notar como muitas pessoas que se
declaram seguidoras de Cristo estão mais preocupadas em apontar e julgar os
outros, do que se preocupando com sua própria conduta cristã no dia-a-dia. Além
do que, se querem falar, ESTUDEM sociologia, história,política, teologia e não
repitam os discursos vergonhosos de ditadura gay e etc, por favor! E se você
está muito preocupado com “eles são pecadores, eles estão errados, eles vão pro
inferno”, Se eles são isso mesmo, quem dará conta não são eles?E porque a vida
do outro tanto te incomoda?
Você não precisa concordar, mas sua obrigação é
RESPEITAR! Não precisa ser Best-friend
dos gays, mas você não tem o direito de os perseguir! Não precisa achar lindo
mulheres ultra sexualizadas, mas você não tem o direito de chamá-las de o que
quer que seja!
Estou cansada de ser chamada de alienada, ignorante,
homofóbica e etc, por conta de algumas pessoas
com essas características que infelizmente, sujam a imagem de todos os
cristãos!
domingo, 3 de fevereiro de 2013
A anima e a mulher (cadê nossa identidade?)
![]() |
| Deusa grega Hestia, representa muito a introspecção e o auto-conhecimento feminino. |
Acho que 2012 foi o ano mais político desse bloguinho, com
vários posts sobre o tema, feministas em sua maioria.
Alguma pessoas dizem que o fato de você ser contra o
machismo já te torna feminista. Eu não
gosto muito dessa associação. Pra mim feminismo é uma escolha consciente. O
fato de você ter atitudes cristãs não te faz um cristão, você pode ter essas
atitudes, como ser misericordioso e tudo o mais, e se considerar ateu ou
qualquer outra coisa. Feminismo pra mim é uma postura política consciente, não
é um “você não sabe,mas é feminista”. Nada a ver.
Ah,eu já me declarei feminista várias vezes, mas não
sei...Não é nesse feminismo midiático que acredito e nem gosto de fazer disso
uma bandeira. Também não concordo com vários discursos que vejo como sendo
feministas, para mim, alguns deles não são saudáveis. Não gosto muito dessa
ideia de desconstruir totalmente o papel do feminino. Não estou aqui falando
sobre papeis de gêneros, até porque o feminino deve estar presente na vida dos
homens, assim como o masculino também deve estar presente na vida das mulheres.
São duas polaridades que devem andar juntas, casarem-se, uma não deve
sobressair a outra. O que infelizmente aconteceu é que o patriarcado veio se
sobrepondo ao matriarcado, de maneira a desprezar tudo o que parte do feminino
e colocar como “irracional”. Há mulheres que desprezam o que esse ciclo
feminino representa. Elas desprezam que tenhamos um apelo maternal muito forte,
desprezam que não é apenas com a razão que conseguimos vislumbrar as coisas,
mas também com as emoções e a intuição, desprezam que sejamos filhas da
natureza e elas mesmas ajudam a bater o martelo patriarcal, dizendo que tudo
isso é pobre, irracional, juntando-se a estes valores masculinos que colocam
apenas o pensamento, o raciocínio, o trabalho industrial e outros valores que
eu particularmente, não vejo empedramento nenhum, como formas de libertação. Eu gosto de ser
mulher, eu gosto desse feminino sagrado, dessa sabedoria que foi devastada e
colocada como suja pelo poder patriarcal. As mulheres estão perdendo esse
contato com elas mesmas, e isso é triste.Eu penso que só conseguiremos nos
sentir livres e empoderadas novamente quando entendermos que sempre tivemos um
papel forte e conseguirmos não destruir, mas resgatar isso. Eu vejo muitas mulheres falando e fazendo “eu
não preciso disso pra ser mulher”, “não preciso menstruar pra ser mulher”, “não
preciso ter filhos pra ser mulher”, “não preciso ser amorosa pra ser mulher”,”não
preciso de respeito com meu corpo pra ser mulher”, “não preciso de intuição pra
ser mulher”, “ não preciso de
afetividade pra ser mulher”. Realmente, você não precisa de nada disso para ser
mulher, no sentido biológico da palavra. Você ,infelizmente, só está se
tornando um projeto do patriarcado sem
notar, já que o que esse sistema fez foi chegar massacrando tudo o que fosse
ligado ao feminino ,colocando a maternidade como uma obrigação a ser cumprida,
o prazer corporal da mulher (porque a mulher é muitos mais ligada a terra, a
sensação, ao corpo que o homem) como pecado, a menstruação como nojenta, a
intuição como falta de inteligência, os trabalhos domésticos (que devem ser
feitos tanto por mulheres como homens, hein!) como baixos, a emotividade como
histeria, o choro como fraqueza, a
sensibilidade como misticismo, o enfeitar-se como vulgaridade, o acolhimento
como “passar a mão na cabeça”, etc.
Claro que você não é obrigada a gostar de tudo isso e ser
dessa maneira para “ser mulher”, somos seres diferentes. Eu mesma não gosto e
nem tenho jeito com trabalhos manuais, nem com cozinhar. Já meu namorado tem.
Também não sou muito de ficar “mimando” as pessoas, já meu namorado é mais
acolhedor que eu nessa parte. Todos nós temos o nosso Animus (energia psíquica masculina,
ligada a agressividade, assertividade, vitalidade) e nossa Anima (energia psíquica
feminina, ligada a intuição, a introspecção, ao simbólico, as emoções). Basta pesquisar sobre e vocês
verão que muitos antes de falaram-se de machismo, essas duas polaridades tinham
essas mesmas distinções de masculino e feminino . Acontece que antigamente, o
masculino e o feminino eram vistos como sendo ambos essenciais, todo ser humano
precisava dessas duas polaridades e ambas eram respeitadas. Hoje em dia não,
apenas o Animus é visto como algo bom, a Anima é vista como fraqueza, e
infelizmente, vista assim por muitas mulheres.
Bah, só sei que quero dar um tempo nesses rompantes
femininos. Quiçá, feministas.
P.S: Pessoal, pra quem quiser seguir, esse é meu Tumblr com meus desenhos e pinturas. Queria colocar um atalho aqui no blog, alguém sabe como fazer isso? http://aneeterea.tumblr.com/
P.S: Pessoal, pra quem quiser seguir, esse é meu Tumblr com meus desenhos e pinturas. Queria colocar um atalho aqui no blog, alguém sabe como fazer isso? http://aneeterea.tumblr.com/
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