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domingo, 21 de dezembro de 2025

O peso da nossa bagagem


Há pouco tempo, tenho assistido a série How I met your mother . Muitos episódios fazem-me lembrar de situações que vivi e pessoas que conheci. Outros fazem refletir sobre questões minhas que surpreendentemente, constato que mudaram! Em um desses episódios fala-se sobre o medo que as pessoas têm de “descobrir a bagagem” que alguém com a qual se relacionam carrega.

Passei um longo período da minha vida rejeitando bagagens incômodas. Não conseguia lidar com erros, não queria relembrar momentos ruins, queria apagar partes dolorosas da minha história e achava que essa era a forma de me sentir “leve”: começando do 0, não aceitando o passado, enterrando minhas dores. O grande problema é que isso não apenas me afetava, mas pessoas  que eu amava também. Ouvir sobre seus passados me machucava, eu não compreendia como hoje elas eram de uma maneira  comigo, se antes foram de outra maneira com outros! Não “perdoava”  o fato de terem cometido erros,  sido enganados, amado, vivido  e pior: de não terem se arrependido, mas aceitado e acolhido aquilo que viveram! Como conseguiam viver sem o eterno “ e se tivesse sido diferente” não lhes atormentasse?



Parece loucura, não é? Mas juro que esse medo de carregar o peso da vida e das experiências, doía! Não dava pra conviver com tantas coisas que não deram certo, que magoaram, que fizeram mal, que deram em outro caminho que não o escolhido. Quanto mais eu queria seguir em frente, mais presa a essas questões eu ficava e mais para baixo eu ia!

E o que aconteceu? Aconteceram MUITAS coisas! Passei a trabalhar com pessoas que vivem os seus fantasmas diariamente e meu papel é tentar ajuda-las em seu sofrimento. Passei á fazer novas tentativas, desagarrar do que não havia sido como eu queria, mas que eu não deixava ir embora!  Passei a, novamente, me enfrentar em sessões de terapia, a tentar aceitar que algumas coisas são como são e foram como foram. Parei de querer ser o que eu não era, passei a aceitar quem eu sou! E aí vi que amo as pessoas que amo por quem elas são! E se são o que são, é porque viveram o que viveram!

Sim, eu demorei quase 30 anos para perceber que o que deixa a bagagem leve é saber carrega-la com carinho, aceitando-a como parte de sua própria composição. E se ainda for muito pesado, sempre haverá alguém para te ajudar a carregar, assim como você também pode servir de apoio a esse alguém.


Todos nós temos nossa bagagem, nossa história, nossas experiências boas e ruins, elas fazem parte de nós e não há como mudar! Mas há como rever! Como reavaliar e resignificar e fazendo dessa forma, haverá muito mais espaço interno em nossa bagagem para que coisas melhores a preencham!

O outro lado do espectro


Eu não me dei conta dessas mudanças não tão sutis. Logo eu, que sempre senti tudo queimando na pele, abrindo por dentro, expelido, vomitado. Eu que sempre engoli tanta coisa não por querer, mas por que sempre foi assim.

Agora me vejo em uma casa redecorada com coisas que não notava antes, aliás, não  vi que eu mesma a decorava aos poucos e ainda a decoro. Não é como se eu houvesse mudado de casa, sempre estive aqui, mas a gora, a reconheço.

Faço parte de um espectro que sempre foi dotado do lado mais escuro e impreciso, alternando poucas vezes para a luz, mas agora é diferente. Sem notar estou no outro extremo, vibrante, ainda não clara e nem suave, mas berrante.


Faço parte de mim agora, me sinto integrada. Não sou mais várias oscilações de cores, reconheci meu espectro, reconheço-me como sou. Sou inteira.

Talvez


Nem todas as mudanças são boas de viver. Às vezes, as mudanças doem e é por isso que inconscientemente a evitamos tanto.

É realmente difícil se dar conta de que algo que já te fez feliz talvez não esteja mais dando certo. É doloroso notar que não foram faltas de tentativas, não foram erros. Acontece que certas coisas são como são e não há porque se magoar com isso ou culpar as partes. Chega uma hora que simplesmente temos que aceitar a natureza e seguir em frente. Ainda assim, é uma atitude difícil, é um passo que machuca, mesmo sabendo que é o melhor á ser feito.

Tenho medo das consequências de minhas escolhas, por isso mesmo elas são muito bem pensadas. Gostaria de poder ver meu futuro e saber se acertei ou não.  Então vou adiando minhas decisões, por que sei que quando tomadas, elas são definitivas. Tenho medo do definitivo, tenho medo de errar.


Já se esgotaram as possibilidades, o que poderia ser feito, já foi. Agora é esperar as consequências dos nossos atos.

Calejar


Ao mesmo tempo em que denota amadurecimento, é estranho perceber o quanto o “calejamento” se instala na gente. Aquilo que antes doía tanto já não causa a mesma sensação. Aquilo que era tão importante, se torna comum. O que era motivo de extrema felicidade se torna rotina. Aquele tempo dispensado pensando sobre assuntos que te tiravam as paz, agora é gasto com problemas muito mais concretos, como os boletos que vem todo mês. E a vida vai se tornando um compilado de obrigações salpicado de alguns momentos de insensatez - para não perder a sanidade.

E tudo vai ficando monótono, apático...

O positivo é que você não passa mais horas chorando pelos sentimentos que antes te corroíam e nem sente mais tão funda a ferida que sempre esteve ali. Ela já não incomoda tanto, pois foi superada por dores maiores.


Você percebe que nada é mais tão essencial como fora, que outras urgências surgiram e que a vida é muito diferente de poucos meses atrás. O amor é mais brando, o ódio também. Os ciúmes, a inveja, o rancor...nada disso pesa quanto antes. Mas o que dói é ver o amor se aquietar.

Autenticidade gera solidão. E porque não?


Minha vida toda eu lidei com controle, tanto meu quanto dos outros sobre mim. Tenho uma grande dificuldade em deixar as coisas apenas fluírem, a ansiedade faz com que eu procure tomar a frente das minhas escolhas, antes mesmo de serem atos concretos. Estou com a cabeça  5, 10, 15 anos à frente do meu próprio tempo, imaginando como irá ser se eu fizer isso ou  aquilo. Não me permito parar nunca, estou sempre em movimento, seja ele externo ou interno (o que é  frequente). Contudo, meu controle é exercido unicamente sobre a minha vida, ele não tenta agir na vida de terceiros. 

É estranho falar isso, já que sou uma cuidadora por vocação e formação, mas cuidar de gente é diferente de cuidar da VIDA de gente. Eu quero saber se posso ajudar de alguma forma, me mostrar presente e prestativa, aberta a ouvir quando necessário. Me preocupo com o bem estar das pessoa, tanto que fiz desse “dom” uma profissão. Porém, acredito que uma forma de cuidar é deixando que cada um tome suas próprias decisões e entendendo que o outro é o outro e não me deve satisfação nenhuma, assim como eu não devo a á ele, há não ser que seja algo que envolva as duas partes.

Esse meu jeito de ser causa um enorme desconforto nos que me cercam. A forma como eu pareço não me preocupar com o que as pessoas possam  pensar sobre minhas atitudes fere bastante egos alheios. Muitos me alertam, sei bem, como uma forma de proteção. Mas proteger do que? Da opinião de quem se quer tenho convívio? Dos pensamentos de pessoas cheias de recalques e projeções?

Além disso, algo que nunca consegui  foi “parecer”.

Principalmente no meio profissional, aprendi que não basta você ser competente, ser dedicado,ser bom no que faz, você tem que “Parecer” e na maioria das vezes isso pesa mais que o “ser”. Tem que parecer ser bom profissional, seja para seu chefe, para seus colegas, você precisa construir uma imagem. O tempo todo,tem que estar se afirmando e “mostrado serviço” para ser reconhecido.

Mas, mesmo minha personalidade sendo maior que essa pressão, a sensação de não me encaixar nas expectativas alheias também me traz algum sofrimento. É como se , sendo quem  sou, estivesse fadada à solidão, como se eu fosse de certa forma, decepcionante .

Esses dias conversei sobre isso com minha psicóloga, como já tentei me enquadrar em modos de vida de outros para não me sentir sozinha, sempre sem sucesso.  Ela me disse algo como: “Todos nós estamos sozinhos, você escolhe se vai ser feliz sendo você mesma ou tentando agradar aos outros.”

É meio dolorido, mas como dona das minhas escolhas, decidi que vou pagar o preço de estar mais só sendo quem sou, que junto sendo quem gostariam que eu fosse. Desisti de querer parecer, me contento em ser.Contento-me em saber o suficiente a respeito de mim mesma , á ponto  de me permitir transparecer ser coisas que não sou á quem nem se quer me interessa!


Ser você mesmo é difícil, traz uma certa solidão. Mas agora sei: Antes só do que mal acompanhada!

Broken Mirror


Sinto que estou me remontando, realocando as peças.
Ou os cacos.
Tanto meu corpo, quanto minha mente, quanto meus olhos.
E tá doendo.
Tá desconfortável ver a realidade de forma mais clara. Não está ruim.
Está DES-CON-FOR-TÁ-VEL.
Tá veramente incômodo ver a mim mesma com o grau mais acertado, assim como ver os que amo com novos olhos.
O mudo é nosso espelho, mas infelizmente, ás vezes ele precisa ser quebrado para que nós não nos deixemos despedaçar.
Mas a melhor parte disso é que você se torna cada vez mais inteira, sem precisar do reflexo do outro para medir sua própria existência.

Em meio ao caos, Feliz aniversário

Hoje, eu completo 28 anos.

Há poucos dias atrás, um amigo meu se suicidou.

Eu nunca tinha passado por algo parecido, nunca a morte foi um soco tão forte na minha cara. Nunca! Acredito que grande parte das pessoas já pensou, mesmo que “de brincadeira”, em morrer. E mesmo quem acha que pensa a sério, descobre que era apenas de “mentirinha”  quando vê alguém do seu lado partir dessa forma, porque não há nenhuma dor imaginável que faça você compreender como essa pessoa conseguiu forças para isso! É como se a morte pousasse no seu ombro e te observasse de perto. É como uma bala perdida que poderia ter te acertado e você então, se dá conta que seu corpo ainda tem vida. 

É muito diferente de quando perdemos alguém por causas naturais, ou até mesmo brutais,mas que o levou “na hora certa”: “Era a hora dele”, “ele cumpriu sua missão na terra”. É difícil cair a ficha “ele planejou  sair desse plano”. Fica um vazio horrivelmente desconfortável, uma sensação de violência, de raiva, de inconformidade e desamparo.

É sério que ele não vai mais dobrar a esquina perto da estação de trem, abrir seu sorriso e me dar um forte abraço?

Que dor foi essa tomou esse coração? Que espírito foi esse que levou o meu amigo?

Um dia, pensei que soubesse o que era querer partir desse mundo. Hoje eu sei que isso nunca chegou aos pés da perturbação que meu amigo sentiu.

Nesse aniversário, estou sentindo meu corpo presente. Sentindo como se uma nova chance me fosse dada, como se, de verdade, a vida fosse algo precioso que precisa ser zelado. Porque enquanto eu ainda estou aqui, mil e uma coisas podem acontecer. E quando eu me for, o que mais poderá ser feito? Quem garante que há outro lado? E quem garante que, se houver esse outro lado é bom? Que será melhor do que aqui, por pior que aqui possa ser?

Esse não é um texto moralista, eu não julgo ninguém que sentiu um desespero tão imenso a ponto de tomar tal decisão. Esse texto é para perceber que estou viva, que sou resistente e que quero continuar sendo assim.


Feliz 28 anos de resistência nesse mundo caótico, que engole  sempre os melhores, pra mim!

sábado, 21 de setembro de 2019

Crianças alvo



Eu não consigo falar de esperança. Não consigo ignorar o fato de as crianças de pele preta que vejo sorrindo e me abraçando tds os dias são os alvos. Esperança é bom, mas ter armas para lutar é melhor! Até mesmo quando sou lúdica, as intenções são concretas: quero que se armem! Se armem até os dentes!
Zumbi, Dandara, Mãe Menininha, Carolina Maria, Malala, Martin Luther King, Nise da Silveira. Bato na tecla que não é pra acontecer de novo. Bato na tecla que pode acontecer de novo. Bato na tecla que ESTÁ acontecendo!
A educação, quando é omissa, já escolheu seu lado!

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Gotas

O universo é fantástico! Ele faz com que eu me depare com quebras rítmicas quando penso que estou cheia de certezas. Certezas essas que já tive muitas outras vezes e que hoje são relatos de minha trajetória.
Quando começo a imergir novamente em um mundo que penso ter me encontrado, abraçando-o com braços e pernas, o conta gotas da racionalidade começa a pingar lentamente sobre os meus olhos e passo a ver o que talvez, meu ego não queria. “De novo? Você já não viu e viveu esse filme?”
Por quantas iniciações terei de passar para acreditar em algo que me transforme em alguém especial? De quantas bocas mestras terei de ouvir que encontrei o caminho?
Glória a Deus nas alturas, que não me privou de bom senso! Salve a Deusa que me dá discernimento! Sagrados são os elementais que me cercam e me quebram as expectativas!
Ou tudo isso não seria apenas aquele meu lado que desconheço?
O consciente me faz crer, mas o inconsciente sempre me salva!

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Um texto amargurado

A morte já foi um desejo, hoje é apenas um medo e uma incógnita. O medo é pelos que não sou, a incógnita é por mim.

Quando mais jovem, já pedi por ela, escreví cartas de despedida e planejei sua chegada por meios mais autorais. Ela porém, caprichosa, só vem quando quer, mesmo que não queiramos ou que a queiramos muito. Com muita análise, aspirina e descarrego, fui aceitando que estar aqui é uma condição nem tão boa e nem tão ruim, quiçá escolhida em um lugar distante. E já que a vida precisa ser preenchida, o melhor que faço é preenchê-la fazendo pelos outros o que ninguém em sã consciência quer fazer. Seria esse uma espécie de karma?Sendo ou não, não quero morrer logo, ainda tenho muito karma pra queimar.

Enquanto os outros vão embora, sinto um misto de saudade carnal com inveja e alívio! Dói pra caralho, mas eu sei que estão bem.

Qualquer lugar é melhor que aqui!

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Zen de ZL



Tenho recebido o adjetivo “zen”. As pessoas vem falando que eu passo “uma energia boa”  e que “queriam ter a minha paz”.
De fato, ano passado comecei a procurar lugares onde eu pudesse desenvolver minhas necessidades espirituais. Minha mediunidade é bastante aflorada e não adianta: se eu não me cuido, sucumbo.
A religação com a espiritualidade me trouxe mudanças vistas,mas nenhuma delas veio da paz, mas do caos!
O Caos de atravessar a comunidade para ir para o centro espírita, de levar duas horas para ir e duas para voltar de um curso cheio de preconceitos (pago, diga-se de passagem), mas que me dava um certo respaldo sobre minhas questões. O caos de meditar de madrugada com os sons das balas perdidas, cachorros latindo,guardinha passando e os moleques da rua brigando. O caos de pagar R$70 parcelado nas “trocas de energia”. De ter parado a terapia, que eu já fazia de 15 em 15 dias com preço popular, para poder investir na espiritualidade. O caos de atender por quase 3 anos pessoas em grande sofrimento social,sofrendo ameaças constantes E agora, novo caos de mais 3h00 de transporte público tds os dias para trabalhar com 30 alminhas a cada 45 minutos, que muitas vezes não tem o que comer em casa.
E eu tenho sorte!
Tenho papai que levanta para preparar meu café da manhã. Tenho mamãe que faz o meu almoço, lava e passa minhas roupas. E eu ainda faço cara de nojo quando a janta é frango e atraso a conta de telefone por que eles ainda tem a pachorra de entender que esse mês gastei muito comigo mesma!
Eu sei que tenho privilégios por poder parar e pensar criticamente sobre a minha espiritualidade, por ela não precisar ser minha única alternativa para esquecer uma vida de miséria. E esse privilégio veio não apenas depois que eu percebi dentro de mim mesma que eu precisava me libertar, mas quando eu comecei a circular espaços diferentes, que me mostravam que Deus não estava só dentro da igreja autoritária que condenava a mulher que cortasse o cabelo. Para eu perceber que Deus não me mandaria para o inferno por usar calça ou fazer sexo, eu precisei de oportunidades!
Quem consegue pensar criticamente sobre o espiritual trabalhando 12h? Quem consegue pensar numa alimentação sem carne e livre de agrotóxicos?
Toda vez que eu ouço sobre “O Sagrado feminino somos todas irmãs namastê”, eu penso nas mulheres em situação de rua que atendi que nem sequer podiam escolher entre comprar um absorvente ou uma pedra de crack com os 5 conto que conseguiram se prostituindo.
Eu não sou zen não!Eu tento me equilibrar para conseguir entender esse caos!
Eu quero paz só se ela for provinda da mudança!

domingo, 2 de setembro de 2018

Quem cuida dos cuidadores?



Como sempre gostei muito de escrever, meu sonho era ser uma jornalista. Imaginava-me em redações falando com as pessoas por meio da escrita, de forma á informa-las e ajuda-las em seu dia-a-dia. Quando entrei no meio da comunicação acadêmica, percebi o quão agressivo era o ambiente e que em nada tinha a ver com o que eu queria, que era ajudar pessoas.

Meio sem querer, caí na área da educação. E mesmo não sendo exatamente o que eu esperava, me inspirei em grandes educadores que passaram por mim e me transformaram para assim, criar um perfil de educador que além de ensinar uma matéria, ensina sobre a vida e suas inúmeras possibilidades. Mas algo ainda me faltava! Eu não queria apenas alcançar o consciente sabendo que o inconsciente tinha muito mais á ser explorado! Foi quando comecei a pesquisar sobre Carl Gustav Jung e Nise da Silveira, percebendo que em toda minha vida, eu sempre quis cuidar de pessoas!

Fiz pedagogia, um ano de psicologia, me formei em arteterapia, me interessei pelo Reiki e há cada dia que passa adentro no universo da transformação do ser humano, vendo-o além de um CID, de um determinante clínico, de uma barreira imposta pela sociedade onde o rotulam como incapaz ou subserviente.

Amo e sou realizada no que faço!

A única questão que eu não me dava conta é que mesmo me preparando em cursos, palestras e estudos paralelos, não seria nada fácil!

Temos um sistema, toda uma estrutura,  que não nos permite avançar para além das clínicas, assistências e muros da escola! Ao cuidador não é oferecido cuidado, mas cobrado demandas. Demandas essas que infelizmente, não temos como abarcar e nos deixam com a sensação de impotência. Com isso, é comum àquele que cuida se tornar o que mais precisa de cuidado, adoecendo e se tornando mais um na fila de espera do SUS ou pagando pelo seu tratamento em clínicas particulares, sempre com medo de ser descoberto! "Como verão o fato de eu precisar de cuidado? Não podem descobrir! Vão achar que não dou conta do meu trabalho!”. Isso não é coisa de uma instituição, é coisa de um sistema que pressiona que seus subordinados sejam de ferro! Que querem robôs e não pessoas de carne e osso! Isso é visto em escolas e seus professores deprimidos, em hospitais e seus profissionais desmotivados, em clínicas, museus, todo lugar! Exatamente em lugares onde tanto lutamos para oferecer um tratamento humanizado à quem cuidamos!

Comigo aconteceu de precisar esconder parte de minha história para adentrar em um concurso público no qual conquistei cargo de educadora .Quando decidi ser honesta com a minha situação, surgiram milhares de empecilhos, justificando que aquele que é apto á educar, não pode conter qualquer questão que necessite de cuidado em saúde mental. Como ter bons educadores quando lhes é negado o direito de cuidar da própria saúde? Depois, já fragilizada, deparar-me com com casos em que agressão, em suas inúmeras formas, está envolvida e sentindo medo, me perguntei: “Porque estou aqui, se não ajudo e nem tenho estrutura para fazer meu trabalho? Será que sirvo pra isso? Será que tenho condições de cuidar de alguém?”.

O fato de perceber que não sou de ferro, que algumas coisas vindas de pacientes/alunos me ferem quando não estou bem amparada, me assustou! Neste momento, estou em crise sobre meu papel dentro de uma instituição que não seja o de julgadora ou dona da verdade. Parece que quando estamos frágeis nosso campo de visão se fecha e começamos a ver tudo partindo de nosso próprio umbigo! A paciência se torna ínfima e o desejo de estar junto desaparece, virando apenas um cumprimento de rotina e tarefas. É esse tipo de professora/terapeuta/cuidadora que eu quero ser? Claro que não!Mas o que fazer?


Tenho buscado formas de me fortalecer e não me deixar sucumbir a um sistema sádico que faz com que os cuidadores lidem com o sofrimento não tendo direito de lidar com o seu próprio! Quero me permitir sofrer, me questionar, me descabelar e começar de novo! Não é por sermos fracos, mas porque somos seres humanos e necessitamos de fortalecimento emocional para ajudar aqueles que necessitam de nossa ajuda! Necessitamos reivindicar o direito de sermos seres humanos, de assumirmos nossa necessidade de apoio e mostrarmos que com respeito, amor e humanização dos setores de trabalho, conseguiremos dar nosso melhor naquilo que mais nos realizamos: cuidar de pessoas!

domingo, 26 de agosto de 2018

Andar com minha fé eu vou



Quando eu era criança, não usava sapatos. Sentir a areia, a terra, as pedras e até mesmo os cacos de vidro não me incomodava. Era normal sentir a natureza, já que eu também fazia parte dela. O gelado das águas me encantava como se eu voltasse á minha própria origem.

Passei a calçar sapatos quando percebi que estar descalça era mal visto, que minha imagem despertava liberdade e selvageria, tudo o que uma mulher não pode ter. E  logo apareceu um par que apesar de muito desconfortável, tinham uma boa aparência e me dava um status respeitável. O calcei durante longos anos e a medida que fui crescendo, ele apertava, dava calos, prendia meus passos, torturava meus pés e eu não conseguia  mais sentir a natureza da qual faço parte. Como na história original de Cinderela, chegaria um momento em que seria necessário decepar meu dedo ou calcanhar para continuar cabendo no sapatinho de cristal.  Doeu me desprender de algo que me serviu por tanto tempo, mas antes que eu me livrasse de pedaços meus, joguei meus sapatos fora!
Foi estranho sentir novamente os quatro elementos roçando e machucando novamente meus pés, mas percebi que apesar de sensíveis pela época em que passaram abafados, continuavam fortes, ágeis  e desejosos de sentir na pele o mundo.
Muitos dos que ainda usam os sapatos que me apertavam preferiram decepar a si mesmos para continuar os calçando e sendo bem aceitos pelos que tem medo de andar com os pés no chão. A grande maioria deles não caminha mais ao meu lado. Permiti-me até mesmo  calçar sapatos novos, muito mais confortáveis!, aos quais recorro  sempre que meus pés precisam de um alívio pela brutalidade do asfalto , mas não tenho mais a necessidade de proteger-me de todas as experiências que a jornada me proporciona. Decidi voltar á minha natureza ,olhando para trás e tendo o prazer de ver  a marca de minhas próprias pegadas

terça-feira, 3 de julho de 2018

O armário das vassouras não me cabe mais



Passei um tempo de recolhimento involuntário. Sim, involuntário!
“Meu Deus do céu! Porque não consigo mais me colocar no mundo???”
Minha arte sempre foi A forma como melhor existo e por algum tempo, acreditei que estava deixando de existir. Muita angústia me tomou nesses meses, mas não tristeza. Apenas um torpor que não me deixava criar mais nada!
Acontece que nesse tempo longe da minha criação, eu estava voltando aos meus criadores. Eu precisava mais deles do que achava que o mundo precisava de minhas ínfimas contribuições.
Deus? Cristo? Universo?
Há pelo menos três anos eu não me aproximava de minhas fortalezas espirituais, desde que decidi sair de dogmas e instituiçõe que muito ensinaram, mas também me podaram. Bem aos poucos, comecei reconectar-me e uma nova forma de olhar para esse Cristo pelo qual me batizei se iniciou dentro do meu conceito de espiritualidade. Passei ver-me também de uma forma diferente , como um ser infinito, cheio de caminhos anteriores e com muitas coisas à aprender. Uma boa dose de humildade não faz mal à ninguém!
Só que...
Muitos, antes de mim mesma, viam-me como bruxa e na leveza da vida, passei a me  identificar metaforicamente como tal; Ser bruxa é transformar dor em arte? Então eu sou! É ler a vida nas cartas do tarô, trabalhar com a força e a ajuda dos elementos ? Sempre fui então, poxa!  Mesmo quando recebia a linguagem dos anjos na igreja evangélica e tremia  ao sentir a presença de um Ser superior que me tomava os sentidos! Acontece que na hora certa, sinais de que algo a mais em minha jornada pessoal ainda estava para acontecer, começaram a surgir. E de uns tempos para cá, comecei a estudar sobre essa outra arte que me foi destinada em outras vidas: a magia! O poder pessoal que nos torna atuantes com o cosmos e nos deixa mais próxima de Deus, seja ele ou ela como você o reconhece!
De início tudo me pareceu uma brincadeira, mas com o tempo fui me reconhecendo e sentindo : Eu faço isso há anos, décadas, séculos! Estou apenas retomando os conhecimentos que me foram ensinados por mulheres antes de mim!
Não me sinto mal e nem destoante do que aprendi durante tantos anos dentro de um lar cristão. Se transformar água em vinho e curar pessoas com o poder da palavra, sempre cheia de amor e boas intenções não é um tipo máximo de magia, o que seria?  Com o espiritismo, aprendi que não existem milagres, tudo é natural !Nós é que não temos muitas vezes a evolução necessária para lidar com as energias universais. E é por isso mesmo que me identifiquei com esse tipo de magia, que não é religião e que não traz dogmas ou deidades para ser praticada: A Magia Natural!A Bruxaria Natural!
No fundo, mesmo cheios de entidades, nomes, invocações, cores, velas, véus, ritos, formas de ver a evolução espiritual...todos estamos no mesmo barco, indo para o mesmo destino e buscando a mesma sabedoria. Abençoado seja quem com ela transcender!
Que assim seja se for para o bem de todos!
Assim é!

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

O que me bloqueia?

Língua Apunhalada- Lygia Pape


Os anos. A vida que requer horas e planejamentos, nada fora da linha.
A certeza (minha certeza) de que não haverá quem leia ou aprecie. A impressão de que tudo que escrevo soa como algo banal, sem alcance ou relevância.
Os kilos ganhos, os assuntos escassos.  Parece que deixei de sentir, então nada brota,  nem flor  e nem capim seco. Nada cresce ou se desenvolve. Está tudo de baixo da terra.
Bloqueia-me  os assuntos tabus. “Não fale de mim, não fale de nós. Não fale de nada que possa dar a entender que sou eu”. “Não fale desse assunto, esconda ,pois irão te julgar e você irá perder o que lutou para conseguir”.
Não vão entender.
Nem você sabe se fazer entender!
Não fale sobre amor ou dor.
Não fale sobre transtorno mental.
Preserve-se.

 Se engula.

sábado, 16 de setembro de 2017

Morada boa

Pintura minha
Por todos os lados me fiz podada. Os galhos, antes repletos de folhas, estavam muito bem aparados.

Mas não sou árvore decorativa, ornamental, feita para enfeitar e não causar incômodo. Sou da copa volumosa, das folhas que caem e cobrem todo o chão, da que quebra as paredes, atravessa os tetos, invade as casas.

As circunstâncias me fizeram polida, mas minha natureza ruidosa já começa a fazer com que os galhos sejam maiores e despontem onde não deveriam.

Em compensação, agora aqueles que antes não tinham lugar, me fizeram casa. Casa sem porta, sem tranca, sem regras. Morada que não precisa de permissão pra acontecer. Ela é! Ela acontece!

E não adianta cortar, derrubar, enfraquecer. Vou brotar de novo. E mais uma vez!