domingo, 2 de setembro de 2018

Quem cuida dos cuidadores?



Como sempre gostei muito de escrever, meu sonho era ser uma jornalista. Imaginava-me em redações falando com as pessoas por meio da escrita, de forma á informa-las e ajuda-las em seu dia-a-dia. Quando entrei no meio da comunicação acadêmica, percebi o quão agressivo era o ambiente e que em nada tinha a ver com o que eu queria, que era ajudar pessoas.

Meio sem querer, caí na área da educação. E mesmo não sendo exatamente o que eu esperava, me inspirei em grandes educadores que passaram por mim e me transformaram para assim, criar um perfil de educador que além de ensinar uma matéria, ensina sobre a vida e suas inúmeras possibilidades. Mas algo ainda me faltava! Eu não queria apenas alcançar o consciente sabendo que o inconsciente tinha muito mais á ser explorado! Foi quando comecei a pesquisar sobre Carl Gustav Jung e Nise da Silveira, percebendo que em toda minha vida, eu sempre quis cuidar de pessoas!

Fiz pedagogia, um ano de psicologia, me formei em arteterapia, me interessei pelo Reiki e há cada dia que passa adentro no universo da transformação do ser humano, vendo-o além de um CID, de um determinante clínico, de uma barreira imposta pela sociedade onde o rotulam como incapaz ou subserviente.

Amo e sou realizada no que faço!

A única questão que eu não me dava conta é que mesmo me preparando em cursos, palestras e estudos paralelos, não seria nada fácil!

Temos um sistema, toda uma estrutura,  que não nos permite avançar para além das clínicas, assistências e muros da escola! Ao cuidador não é oferecido cuidado, mas cobrado demandas. Demandas essas que infelizmente, não temos como abarcar e nos deixam com a sensação de impotência. Com isso, é comum àquele que cuida se tornar o que mais precisa de cuidado, adoecendo e se tornando mais um na fila de espera do SUS ou pagando pelo seu tratamento em clínicas particulares, sempre com medo de ser descoberto! "Como verão o fato de eu precisar de cuidado? Não podem descobrir! Vão achar que não dou conta do meu trabalho!”. Isso não é coisa de uma instituição, é coisa de um sistema que pressiona que seus subordinados sejam de ferro! Que querem robôs e não pessoas de carne e osso! Isso é visto em escolas e seus professores deprimidos, em hospitais e seus profissionais desmotivados, em clínicas, museus, todo lugar! Exatamente em lugares onde tanto lutamos para oferecer um tratamento humanizado à quem cuidamos!

Comigo aconteceu de precisar esconder parte de minha história para adentrar em um concurso público no qual conquistei cargo de educadora .Quando decidi ser honesta com a minha situação, surgiram milhares de empecilhos, justificando que aquele que é apto á educar, não pode conter qualquer questão que necessite de cuidado em saúde mental. Como ter bons educadores quando lhes é negado o direito de cuidar da própria saúde? Depois, já fragilizada, deparar-me com com casos em que agressão, em suas inúmeras formas, está envolvida e sentindo medo, me perguntei: “Porque estou aqui, se não ajudo e nem tenho estrutura para fazer meu trabalho? Será que sirvo pra isso? Será que tenho condições de cuidar de alguém?”.

O fato de perceber que não sou de ferro, que algumas coisas vindas de pacientes/alunos me ferem quando não estou bem amparada, me assustou! Neste momento, estou em crise sobre meu papel dentro de uma instituição que não seja o de julgadora ou dona da verdade. Parece que quando estamos frágeis nosso campo de visão se fecha e começamos a ver tudo partindo de nosso próprio umbigo! A paciência se torna ínfima e o desejo de estar junto desaparece, virando apenas um cumprimento de rotina e tarefas. É esse tipo de professora/terapeuta/cuidadora que eu quero ser? Claro que não!Mas o que fazer?


Tenho buscado formas de me fortalecer e não me deixar sucumbir a um sistema sádico que faz com que os cuidadores lidem com o sofrimento não tendo direito de lidar com o seu próprio! Quero me permitir sofrer, me questionar, me descabelar e começar de novo! Não é por sermos fracos, mas porque somos seres humanos e necessitamos de fortalecimento emocional para ajudar aqueles que necessitam de nossa ajuda! Necessitamos reivindicar o direito de sermos seres humanos, de assumirmos nossa necessidade de apoio e mostrarmos que com respeito, amor e humanização dos setores de trabalho, conseguiremos dar nosso melhor naquilo que mais nos realizamos: cuidar de pessoas!

domingo, 26 de agosto de 2018

Andar com minha fé eu vou



Quando eu era criança, não usava sapatos. Sentir a areia, a terra, as pedras e até mesmo os cacos de vidro não me incomodava. Era normal sentir a natureza, já que eu também fazia parte dela. O gelado das águas me encantava como se eu voltasse á minha própria origem.

Passei a calçar sapatos quando percebi que estar descalça era mal visto, que minha imagem despertava liberdade e selvageria, tudo o que uma mulher não pode ter. E  logo apareceu um par que apesar de muito desconfortável, tinham uma boa aparência e me dava um status respeitável. O calcei durante longos anos e a medida que fui crescendo, ele apertava, dava calos, prendia meus passos, torturava meus pés e eu não conseguia  mais sentir a natureza da qual faço parte. Como na história original de Cinderela, chegaria um momento em que seria necessário decepar meu dedo ou calcanhar para continuar cabendo no sapatinho de cristal.  Doeu me desprender de algo que me serviu por tanto tempo, mas antes que eu me livrasse de pedaços meus, joguei meus sapatos fora!
Foi estranho sentir novamente os quatro elementos roçando e machucando novamente meus pés, mas percebi que apesar de sensíveis pela época em que passaram abafados, continuavam fortes, ágeis  e desejosos de sentir na pele o mundo.
Muitos dos que ainda usam os sapatos que me apertavam preferiram decepar a si mesmos para continuar os calçando e sendo bem aceitos pelos que tem medo de andar com os pés no chão. A grande maioria deles não caminha mais ao meu lado. Permiti-me até mesmo  calçar sapatos novos, muito mais confortáveis!, aos quais recorro  sempre que meus pés precisam de um alívio pela brutalidade do asfalto , mas não tenho mais a necessidade de proteger-me de todas as experiências que a jornada me proporciona. Decidi voltar á minha natureza ,olhando para trás e tendo o prazer de ver  a marca de minhas próprias pegadas