quinta-feira, 21 de julho de 2022

Por dentro

 


Há algo que sempre quero expressar, mas este algo mistura-se entre carne, alma, pensamento e sensações, fazendo com que não tenha uma única descrição que possa faze-lo sentido. 

Sinto, sempre senti e nunca soube explicar.

Sinto tudo o que acontece em mim.Seja no corpo, seja cérebro, seja na dor, tudo passando em cada veia , misturando-se e estourando em vasos, sem dar-me o direito de querer ou não senti-lo. Mas que direito tenho,se sempre foi assim?

Muitas vezes em fases onde julgo-me trancada para fora, essa irrigação faz com que só consigo me sentir por dentro. Não consigo ter um dia em que acordo, vejo a vida passar, como, deito e acordo melhor no outro. Não. Eu sinto a medicação oleosa fazendo seu efeito durante cada passo do processo, como se todos os meus órgãos e meus traumas fizessem parte de uma só coisa.Entrelaçam-se, trazendo-me o grande desconforto de estar ciente o tempo todo. 

Já nasci em autoanalise.Criança, ficava horas investigando quem eu era e porque existia. E nunca obtenho essa resposta, só sinto todas as veias dilatarem e me lembrarem que ainda vivo.


quinta-feira, 23 de junho de 2022

À deriva

Demorei para aceitar que não podemos obrigar ninguém a ter-nos em suas vidas. Nossa presença não é imprescindível, nosso lugar muitas vezes não é o que imaginávamos. O que fizemos , como fizemos, nem sempre será recebido com a intenção que tivemos ao fazer. Não somos insubstituíveis, não somos para sempre na vida de ninguém, somos apenas intermediários, mediadores em fases que essas pessoas precisaram aprender algo e assim elas são também para nós, mesmo que não percebamos .

Mudanças são dolorosas , ainda mais quando você sai de uma fase onde pensava ter conquistado tudo e aos poucos, esse tudo vai se desfazendo. Os amigos se despedem (ou não) , o trabalho muda de lugar, seu corpo passa a responder a uma nova idade , os encontros se tornam raros. E todos aqueles amigos, aquela alegria, aquela autoestima conquistada a duras penas, tijolo por tijolo, fazem parte do passado, mesmo você insistindo para estarem no presente.

Agora você precisa encarar sua nova fase, novo corpo, novo tempo e a falta de velhos amigos. E quase do 0, tenta redescobrir quem é nesse lugar , como lidar com ele, como encarar o que você se tornou.

Amadurecer é isso, é entender que nada dura para sempre e que a vida não segue em linha reta. Vamos e voltamos, melhoramos e pioramos, ganhamos e perdemos, como um barco à deriva. A única constante é que você será o capitão dessa viagem, porém, o mar sempre vence.


quarta-feira, 8 de junho de 2022

Pela garota de ontem

   


    Fiquei me perguntando há quanto tempo deixei minhas cores irem embora. Cores que eram mais intensas justamente quando enxergava a mim mesma em preto e branco, mas sabia do valor das minhas rasuras .

     Tudo tornou-se tão desimportante...Me perdi em tantas críticas , em tantos elogios e em tantas mágoas. Mágoa de não ter agido como pensei que deveria em uma época em que eu nem tinha um terço da autoconsciência que tenho agora e mesmo assim, com tão poucos instrumentos, segui em frente. Porque me culpo hoje pelo que não podia ser no passado? Ao menos, mesmo com poucas ferramentas, eu criava um exército dentro de mim que ganhava guerras o tempo todo e hoje, me ponho como vencida sem nem tentar lutar.

    As cores foram embora, desbotando conforme a identidade foi se perdendo com o tempo, com as expectativas que criei e que criaram sobre como eu deveria ser. Não pinto mais quadros... não escrevo mais textos, não leio mais livros, Estou apenas robótica, vivendo um dia após o outro como se todos fossem iguais.


quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Apego


Hoje estou igual meu guarda roupa: com roupas do avesso, amassadas, velhas...não me permitindo ver a roupa nova, o tamanho diferente, a moda atual. Me apeguei ao velho, ao conhecido. Ao idealizado. Todos estão se vestindo diferente, quase ninguém mais usa aquelas roupas que cobriam nossos corpos nas noites de cantoria, bebendo vinho barato na praça, nem as roupas dos cultos, nem mesmo as roupas dos nossos primeiros encontros. Mas eu as guardei, ainda as guardo e não notei que o tempo passou. Tento caber em uma roupa velha que me sufoca, mas que eu gostava tanto…

Até que o guarda roupa também não acompanhou as décadas. Está caindo aos pedaços, mofado, mas ainda cheio das minhas figurinhas coladas nas portas, por isso não me desfaço dele. Ele protege minhas roupas. Roupas velhas, antigas, ultrapassadas.

Acho que é hora de dar espaço para o novo entrar, para a evolução do pensamento. É hora de jogar esse guarda roupa fora e finalmente, adquirir um mais atual, mais leve, que não quer ser forte para guardar tudo. As roupas? Não servem nem  para doação, pois as gastei e desgastei demais. Vão para o lixo, vão pro passado. Viraram lembranças .

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Tem alguém aí?


Eu me calei como se o cansaço tivesse vencido. Viver é exaustivo, ainda mais quando se vive pelos outros. São os outros que ditam o que você deve ser e dizer. Há toda uma burocracia formal e reprovações informais de que você tem falado demais e, por mais que tente continuar dizendo, você um dia adoece e cede. Minha alma cansou de criar maneiras de ser entendida. Ela cansou de traçar rotas, linhas, telas, cantos. Ela emudeceu, pois afinal, quem a ouviu?

Hoje tenho laudos que me dizem o que sou, tenho "licença" para sê-lo, já que quem diz não é a pessoa, é o CID. 

Ser estranhas, ser diferente, ser "autêntica", imprevisível, inconveniente, chata, inteligente, fofa, foda. Ser todos os rótulos que já me deram. Mas eu não quero que o laudo valide minha voz, eu quero ser ouvida pelo que digo. E por muito tempo, não consegui mais dizer. Deixei de ser. Só existi. Só tenho existido.

Tem alguém aí?

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Asperger

É difícil dar um foco, pois sou muitas! Dentro da mesma casca existem muitas habitantes… Finalmente, há um "rótulo único" que explica essa minha discrepância de seres invisíveis: Asperger! E por algum motivo, asperger me lembra algo fantasmagórico, incorpóreo...Será que o "Etérea" de meu nome já era um saber sobre mim, antes de qualquer laudo médico? 

Quando descobri esse meu novo Cid, senti que havia chegado ao topo da montanha que escalei a vida inteira. Aqui do alto tudo é mais intenso! Aqui de cima, vocês parecem tão pequenos… 


Por minhas mãos passam telas, textos, desenhos. Por meus cuidados, passam alunos, clientes, pacientes. Por minha mediunidade, passam entidades, espíritos, intuições… sou de certa forma só uma passagem, um portal de entrada e de saída. 


Mesmo chegando ao topo,vejo que não tinha nada ali. Continuo olhando para o alto. O lugar nunca foi esse. 


segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Um pouco mais de paciência

     Qual a relevância de quem aguenta tudo? O que faz as pessoas pensarem que o fato de você ser alguém que entende que elas sofrem, te torne uma válvula de escape pros seus sofrimentos?

     Hoje eu chorei muito. Chorei porque faz muito tempo que guardo feridas, achando que tenho que ser paciente. A paciência é uma virtude que muitas vezes nos come por dentro e só quem usufrui dela é quem te faz esperar. A paciência de lidar com as dores do mundo, mas não ter quem olhe pras suas. A paciência hoje se esgotou e só o que eu consegui foi chorar por horas por estar cansada de ser vista como um receptáculo de migalhas alheias. Estou cansada de não ser escutada, de não ter alguém que goste de ouvir minhas histórias, que dê validação pro meu mundo interno. Estou cansada de ter que me engolir para ouvir o mundo dos outros. Dói. Dói.

     O companheiro sofre, a família sofre, os alunos sofrem, os pacientes sofrem, o mundo está em luto. E eu sou só mais uma em sofrimento. Mas tá tudo bem. Você está bem? Quer conversar? O que vai jogar em mim hoje para sentir-se melhor? Posso apenas chorar? É só o que eu quero.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Nude



Despida. Notei que estou cada vez mais nua. Mas não porque me basto ou me aceito,mas por que , pouco a pouco, fui desfazendo das minhas características por ter vergonha delas parecerem berrantes aos outros.
Sem perceber, fui deixando meus sonhos. Sem perceber, fui ficando muda. Sem perceber, tirei meus cristais do pescoço, meu lápis do olho  e minha cor da boca. Amanheci e adormeci apenas para reproduzir o que todos fazem. Me despi , me descaracterizei. Não ando mais torto, não olho mais nos olhos, não sou mais assertiva e nem me orgulho das minhas peculiaridades, pois fui guradando todas dentro de uma bolsa velha e gasta, a única coisa que carrego: uma bolsa cheia de tralhas. Tralhas que me faziam ser quem eu sou.E assim achei que encontraria paz. Certo, lá fora se calaram. Mas aqui dentro, eu enlouqueci!