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segunda-feira, 16 de março de 2020
Vazio
Eu nunca havia sentido "vazio". Sempre fui turbulenta, busquei coisas, tentei me entender e me recriar. Muitas e muitas vezes. Sempre fui excesso. Excesso de dor, de angústia, de amor,de vontade, de morte...de tudo! Mas de uns tempos pra cá, a vida mudou, mas não sei se eu mudei. Ou se eu mudei e a vida continua a mesma. Só sei que nesse descompasso, passei a sentir esse silêncio,imensidão...a espera de um fim que nunca chega.
Não há satisfação em chegar ao topo. Não há topo. Não há nada! Há você e somente você...Foi você em todo caminho e é você agora. E o inferno não eram os outros?
Não que minha voz não ecoasse ,mas ela se misturava e agora eu a ouço bem e não sei o que ela diz. Ela se perdeu entre tantos caminhos. Ela está exausta! Ela ás vezes,não quer continuar. Como entender essa voz tão antiga? Que língua falamos?
quinta-feira, 22 de agosto de 2019
É a vida
Esse ano eu me dei conta que a vida é assim.
Se eu ganhar mais, a vida é assim.
Se eu trocar o remédio, a vida é assim.
Se eu trocar de emprego, a vida é assim.
Se eu emagrecer,a vida é assim.
Se eu mudar de cidade, a vida é assim.
Se eu tiver um filho.
Se eu casar.
Se eu terminar.
Se eu me pós-graduar.
Se eu me espiritualizar no poder de Cristo, de Krishna ou de Oxalá. Ou de ninguém.
E nada do que eu faça vai mudar o fato de que a vida é essa,tal como ela é.
Porque a vida sou eu.
Sou eu lidando comigo.
Sou eu até o fim.
Se eu ganhar mais, a vida é assim.
Se eu trocar o remédio, a vida é assim.
Se eu trocar de emprego, a vida é assim.
Se eu emagrecer,a vida é assim.
Se eu mudar de cidade, a vida é assim.
Se eu tiver um filho.
Se eu casar.
Se eu terminar.
Se eu me pós-graduar.
Se eu me espiritualizar no poder de Cristo, de Krishna ou de Oxalá. Ou de ninguém.
E nada do que eu faça vai mudar o fato de que a vida é essa,tal como ela é.
Porque a vida sou eu.
Sou eu lidando comigo.
Sou eu até o fim.
terça-feira, 26 de março de 2019
Gangorra
A vontade de nada é muito forte. Ela me prende e me cega. Ela vem quando quer, não importa o quanto eu me esforce para que ela nunca mais volte. Ela vai vir quando eu mudar de emprego, vai vir quando eu ganhar um prêmio, vai vir quando eu ter um cachorro. Quando eu tomar os remédios, quando eu pagar terapeuta, quando eu cuidar do espírito. Ela me desmonta e me reduz a um corpo sem escolha, que apenas obedece ao seu comando.
Ela também pode vir como a vontade de tudo. Tudo me interessa, tudo é urgente, tudo é necessário. Mais um enfeite pro quarto, mais um livro pra estante, mais um curso pro currículo. Quero fazer faculdade, mestrado, ir ao cinema, casar, um filho, aula de dança, comer tudo, virar noites, virar o mundo de ponta cabeça. Gasto dinheiro, peso e consciência. Quebro e vem o desejo de nunca ter vivido.
E aí vem a vontade de nada outra vez.
Não é necessário motivo para ser triste e nem para ser feliz. Não sou eu quem comando.
E lá vem ela outra vez...
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019
Um texto amargurado
A morte já foi um desejo, hoje é apenas um medo e uma incógnita. O medo é pelos que não sou, a incógnita é por mim.
Quando mais jovem, já pedi por ela, escreví cartas de despedida e planejei sua chegada por meios mais autorais. Ela porém, caprichosa, só vem quando quer, mesmo que não queiramos ou que a queiramos muito. Com muita análise, aspirina e descarrego, fui aceitando que estar aqui é uma condição nem tão boa e nem tão ruim, quiçá escolhida em um lugar distante. E já que a vida precisa ser preenchida, o melhor que faço é preenchê-la fazendo pelos outros o que ninguém em sã consciência quer fazer. Seria esse uma espécie de karma?Sendo ou não, não quero morrer logo, ainda tenho muito karma pra queimar.
Enquanto os outros vão embora, sinto um misto de saudade carnal com inveja e alívio! Dói pra caralho, mas eu sei que estão bem.
Qualquer lugar é melhor que aqui!
domingo, 4 de novembro de 2018
Eu (não sou um), robô
Eu nunca soube
administrar nem tempo, nem dinheiro, muito menos emoções e sentimentos e isso
tem ficado cada vez mais evidente.
Dou tudo de
mim ao que acho importante. Quando criança, lia livros numa virada de noite,
mesmo sabendo que ficaria com sono na escola pela manhã. Quando assisto séries
, fico obcecada, vivendo todos os dias com aqueles personagens. Quando gosto de
um tipo de música, busco a fundo tudo sobre ela e me esqueço que existem outros.
Eu fui uma
garota rebelde até meus 20 anos, quando conheci meu primeiro namorado. Eu literalmente
me esqueci. Vivi para ele e por ele, tentando consertar tudo em sua vida,
tentando ser tudo o que a mãe, professora, irmã, tia, babá, Deus, não foi. A devolutiva, obvio, era quase
0.
Aos 24, meu
segundo relacionamento. Idem, mas neste a devolutiva era um pouco maior, o que
fez até mesmo eu ter um pouco de tempo
para reconhecer-me e prover mudanças em minha vida. Ainda assim, minha
dedicação a mim mesma nunca chegou aos pés a dedicação que tive por ele.
No meu trabalho, esqueço-me de mim
cmpletamente . Já atendi mulheres despedaçadas quando eu mesma estava. Já falei
sobre a vida quando eu mesma queria morrer. Já subi e desci escadas, planejei ações
quando eu achava que não teria condições de estar de pé. Quando chego em casa,
só o que quero é dormir. Um cansaço descomunal me pega. Só acordo para
novamente trabalhar, novamente me dedicar a ele, novamente ser para todos e não
ser para mim.
Apesar de
tudo , não sei como, consegui cuidar das minhas obrigações automaticamente. Formei-me,
me pós graduei, me formei de novo, fiz inglês, trabalhei, mandei currículo,
trabalhei de novo, fui no médico, tomei remédio, troquei remédio, passei em
concurso, fiz perícia vou fazer de novo...Mas eu não sinto nada. Para mim, não
sobra nada.
O prazer que
venho sentindo é a reconexão com a espiritualidade, que quanto mais aflora, mais
empoderada e plena me faz , e como é da minha personalidade, absorvo
absolutamente tudo sobre todas as crenças, ritos e magias que estão em meu caminho. E meu único prazer
tem sido um problema em minhas relações, pois ele está me fazendo crescer e o
outro, se sentir diminuído.
São meus
ritos que tem me devolvido a humanidade. Pouco a pouco, volto a prestar atenção
nas plantas que cultivo em casa, na lua que me ilumina, no prazer de ser quem
eu sou. Escrevo esse texto em lágrimas, mas o que quero dizer é que se
reconectar consigo faz você se desconectar do que te machuca e te entristece.
Faz você querer ser tratada melhor , com o mesmo carinho e dedicação que você
tem aprendido a administrar e dar uma parcela a si mesma. Você aprende a se
respeitar, a saber que é uma filha dos deuses e que por isso, não pode permitir
que te maltratem, sendo que Deus e a natureza te criaram com tanto amor.
Você merece
amor. Você é humana e não um robô!
domingo, 2 de setembro de 2018
Quem cuida dos cuidadores?
Como sempre gostei muito de escrever, meu sonho era ser uma jornalista. Imaginava-me em redações falando com as pessoas por meio da escrita, de forma á informa-las e ajuda-las em seu dia-a-dia. Quando entrei no meio da comunicação acadêmica, percebi o quão agressivo era o ambiente e que em nada tinha a ver com o que eu queria, que era ajudar pessoas.
Meio sem querer, caí na área da educação. E mesmo não sendo exatamente o que eu esperava, me inspirei em grandes educadores que passaram por mim e me transformaram para assim, criar um perfil de educador que além de ensinar uma matéria, ensina sobre a vida e suas inúmeras possibilidades. Mas algo ainda me faltava! Eu não queria apenas alcançar o consciente sabendo que o inconsciente tinha muito mais á ser explorado! Foi quando comecei a pesquisar sobre Carl Gustav Jung e Nise da Silveira, percebendo que em toda minha vida, eu sempre quis cuidar de pessoas!
Fiz pedagogia, um ano de psicologia, me formei em arteterapia, me interessei pelo Reiki e há cada dia que passa adentro no universo da transformação do ser humano, vendo-o além de um CID, de um determinante clínico, de uma barreira imposta pela sociedade onde o rotulam como incapaz ou subserviente.
Amo e sou realizada no que faço!
A única questão que eu não me dava conta é que mesmo me preparando em cursos, palestras e estudos paralelos, não seria nada fácil!
Temos um sistema, toda uma estrutura, que não nos permite avançar para além das clínicas, assistências e muros da escola! Ao cuidador não é oferecido cuidado, mas cobrado demandas. Demandas essas que infelizmente, não temos como abarcar e nos deixam com a sensação de impotência. Com isso, é comum àquele que cuida se tornar o que mais precisa de cuidado, adoecendo e se tornando mais um na fila de espera do SUS ou pagando pelo seu tratamento em clínicas particulares, sempre com medo de ser descoberto! "Como verão o fato de eu precisar de cuidado? Não podem descobrir! Vão achar que não dou conta do meu trabalho!”. Isso não é coisa de uma instituição, é coisa de um sistema que pressiona que seus subordinados sejam de ferro! Que querem robôs e não pessoas de carne e osso! Isso é visto em escolas e seus professores deprimidos, em hospitais e seus profissionais desmotivados, em clínicas, museus, todo lugar! Exatamente em lugares onde tanto lutamos para oferecer um tratamento humanizado à quem cuidamos!
Comigo aconteceu de precisar esconder parte de minha história para adentrar em um concurso público no qual conquistei cargo de educadora .Quando decidi ser honesta com a minha situação, surgiram milhares de empecilhos, justificando que aquele que é apto á educar, não pode conter qualquer questão que necessite de cuidado em saúde mental. Como ter bons educadores quando lhes é negado o direito de cuidar da própria saúde? Depois, já fragilizada, deparar-me com com casos em que agressão, em suas inúmeras formas, está envolvida e sentindo medo, me perguntei: “Porque estou aqui, se não ajudo e nem tenho estrutura para fazer meu trabalho? Será que sirvo pra isso? Será que tenho condições de cuidar de alguém?”.
O fato de perceber que não sou de ferro, que algumas coisas vindas de pacientes/alunos me ferem quando não estou bem amparada, me assustou! Neste momento, estou em crise sobre meu papel dentro de uma instituição que não seja o de julgadora ou dona da verdade. Parece que quando estamos frágeis nosso campo de visão se fecha e começamos a ver tudo partindo de nosso próprio umbigo! A paciência se torna ínfima e o desejo de estar junto desaparece, virando apenas um cumprimento de rotina e tarefas. É esse tipo de professora/terapeuta/cuidadora que eu quero ser? Claro que não!Mas o que fazer?
Tenho buscado formas de me fortalecer e não me deixar sucumbir a um sistema sádico que faz com que os cuidadores lidem com o sofrimento não tendo direito de lidar com o seu próprio! Quero me permitir sofrer, me questionar, me descabelar e começar de novo! Não é por sermos fracos, mas porque somos seres humanos e necessitamos de fortalecimento emocional para ajudar aqueles que necessitam de nossa ajuda! Necessitamos reivindicar o direito de sermos seres humanos, de assumirmos nossa necessidade de apoio e mostrarmos que com respeito, amor e humanização dos setores de trabalho, conseguiremos dar nosso melhor naquilo que mais nos realizamos: cuidar de pessoas!
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
O que me bloqueia?
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| Língua Apunhalada- Lygia Pape |
Os anos. A vida que requer horas e planejamentos, nada fora
da linha.
A certeza (minha certeza) de que não haverá quem leia ou
aprecie. A impressão de que tudo que escrevo soa como algo banal, sem alcance
ou relevância.
Os kilos ganhos, os assuntos escassos. Parece que deixei de sentir, então nada
brota, nem flor e nem capim seco. Nada cresce ou se
desenvolve. Está tudo de baixo da terra.
Bloqueia-me os
assuntos tabus. “Não fale de mim, não fale de nós. Não fale de nada que possa
dar a entender que sou eu”. “Não fale desse assunto, esconda ,pois irão te julgar
e você irá perder o que lutou para conseguir”.
Não vão entender.
Nem você sabe se fazer entender!
Não fale sobre amor ou dor.
Não fale sobre transtorno mental.
Preserve-se.
Se engula.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2015
2015: O ano Detox
Não aconteceram coisas grandiosas, foi na verdade um ano
calmo, sem muitos altos e baixos. Um ano
apático, eu diria.Mas foi um tempo necessário em que com a calmaria, consegui
colocar a casa em ordem. A casa sou eu, quero dizer.
Foi o primeiro ano em
muitos em que pude respirar e me dar ao luxo de ter TEMPO. Ano passado foi de inúmeras mudanças, foi
praticamente o ano em que me tornei outra pessoa e deixei para trás ,na prática, muito do que me consumia e fazia mal. Foi como se eu tivesse desinstalado programas pesados do meu software que estava
cheio de vírus. Esse ano de 2015, foi a época
de fazer uma limpeza profunda dos resíduos que esses programas deixaram: as pastas
vazias que só ocupavam espaço e memória, os spywares e malwares que eu não
sabia que ainda estavam ali me atrapalhando o tempo todo, já que para mim,
finalmente eu havia removido aquele vírus maligno que quase me fez entrar em
pane. Mas os resíduos estavam ali, todos eles. Sai de um relacionamento muito abusivo e isso já foi ótimo, mas as consequências como medo, insegurança, ciúme,
desconfiança, baixa auto-estima não saíram de mim. Sai de uma doutrina que me
prendia e enchia de pavor, mas a sensação de estar sendo sempre vigiada por uma
força invisível, os pesadelos com a possível entrada no inferno, estavam ali. Fora
um balde de rancor, raiva, frustração e falta de entendimento que carreguei por
toda minha vida.
Foram batalhas comigo mesma, mas com ajuda. Voltei pra
terapia, iniciei uma nova mediação e resolvi que merecia por um fim nisso, por
mim e pelos que me amavam, que eu também acabava fazendo sofrer. Foi e ainda é
um processo duro esse de olhar para mim mesma e reconhecer as falhas, erros e auto
sabotagens que cometo todos os dias. Mas posso dizer que pelo menos , 65% desse
lixo interno foi eliminado e o restante está em processamento. Deu tão certo que fui liberada da terapia e sou considerada fora do quadro de depressão e essa é minha maior vitória de 2015!
Consegui tirar
muita culpa de minhas costas e das costas de outros, mas também pude enxergar
que não tenho que ser sempre servil, posso e devo me impor. Não tenho que dar
razão sempre pra quem me julga e não me conhece e nem tenho que dar explicações
para quem nada tem a ver com a minha vida. Não tenho que servir e nem agradar à
ninguém, posso ser amada sendo apenas quem sou!
Este é um ano em que consigo olhar para mim mesma com
orgulho e admiração, em que finalmente sinto que sou minha melhor amiga, que
estou do meu lado. Acredito em mim e na minha história pessoal . Superei tantos obstáculos, tantos temores internos e sei muito bem
que posso suportar muito mais. Fiz uma revolução na minha mente. Foi difícil e
doloroso, mas fiz o que tinha que ser feito. E continuarei fazendo.
quinta-feira, 17 de setembro de 2015
O canto da sereia
Essa semana recebi a notícia de que estou de alta da
terapia. Que não estou mais em depressão e que estou bem para seguir minha
vida. Ainda estou com a medicação, já que há pouco havia iniciado uma nova e o
certo é permanecer com ela por pelo menos um ano.
Ao mesmo tempo em que me senti feliz em saber que não estou
mais em estado depressivo, sei que não estou curada. A depressão (no meu caso,
depressão e ansiedade) é uma doença oportunista, que se você vira as costas,
pode te pegar de novo. Sei que por toda minha vida terei que estar alerta aos
primeiros sinais de que ela se aproxima e criar estratégias para que ela não
permaneça. Ela é um canto da sereia, que
te seduz e te engole. Há uma parte nossa que quer estar lá, que acha mais fácil
se deixar levar pela sua voz melodiosa. Sei que em muitos momentos terei que
ser forte: em um fim de relacionamento, na partida de um ente querido, em um
momento de parto e até mesmo quando as coisas não andarem tão bem como eu gostaria.
Sei que ela virá cantar no meu ouvido e sei que terei de resistir.
Fora isso, sinto-me bem e feliz! Estou em paz comigo e com
os que me rodeiam, estou de bem com a vida e aceitando a melancolia não como um
traço de doença, mas personalidade, que se eu souber dosar me fará criar coisas
incríveis. Pensar não é ruim, saber que a
vida tem sua pulsão de morte e conviver com ela é saudável.
Me desejo força e felicidade para esses meus passos sozinha.
Desejo isso e muito mais do melhor que a
vida pode me oferecer!
terça-feira, 19 de maio de 2015
Voltar
É à noite. Pego a xícara que mais gosto e um cobertor, vou
em frente ao computador e coloco meu seriado preferido, ou m filme que eu já
assisti muitas vezes, mas sempre é bom rever. Espero todos dormirem para curtir
esse momento de estar comigo mesma, desfrutando de minha própria companhia,
fazendo exatamente o que queria fazer.
Entro no meu quarto. Vejo todos os livros que amo bagunçados.
Vejo minhas caixas de música, ambas tão especiais pra mim, meus bonequinhos do
Mário, os novos da Hora da aventura, minhas bonecas, minhas bijuterias e penso “tenho
que por ordem em tudo isso, é tudo meu,
e está uma bagunça!”
Estou em uma roda de amigos e começamos a falar sobre
infância e adolescência. Começo a relembrar de uma maneira muito gostosa coisas
que me marcaram. Passo a cantar a abertura da Sakura Card Captors, do Dragon
Ball Z e do Tench Muyo. Relembro todos os personagens do Harry Potter, o HQ O corvo e como esse também era meu filme
favorito na infância. Relembro a casa da minha avó , as sementes de girassóis,
meu primo apaixonado ouvindo Linger repetidas vezes (essa música que embala
tantas coisas boas em minha vida). Lembrei até de algo lindo que havia
esquecido, que era meu irmão e eu deitados na rede, eu apontando as estrelas e
ele “ Não aponte as estrelas, que nasce um berruga no seu dedinho!” , “Fabinho,
em qual estrela será que a Zula mora? Já pensou começar a cair um monte de
bolas azuis aqui no quintal?” e procurávamos juntos em qual estrela a Zula
morava.
Nada disso eu sentia há pelo menos 5 anos!
É um prazer que só quem passa ou já passou pela depressão vai
entender. É voltar a sentir-se viva, sentir-se presente, sentir-se novamente
dona do seu corpo e da sua história. Não que eu não visse mais filmes, não
lesse mais livros, não arrumasse minhas coisas ou não lembrasse do que já vivi. Mas é um recordar com sabor,
com som, com vida. É voltar a sentir-se
pulsando, fazendo parte do mundo. É ver o mundo em cores. É reconhecer-se,
gostar-se, amar-se. Perdoar-se. É voltar
a ser você mesma. E que saudade, que saudades eu tinha de mim!
Cada dia mais, sinto que estou me libertando de pesos,
julgamentos, lembranças e crenças que me faziam estar nesse estado de tristeza
permanente e começo a valorizar todas as coisas boas que aprendi durante esse
período tão difícil. Nos momentos de recaída, aproveito para me aprofundar no
que me faz mal e resolver essas questões em mim mesma, diferente de antes, onde
parecia não haver saídas.
Hoje comentei com meu namorado como tenho evoluído em tão
pouco tempo e ele me disse “Será que é só a terapia, ou você não está mais
madura?”. Acho que sim. E diferente do que escrevi anteriormente, não sou
frágil pelo contrário, estou cada dia mais forte.
quinta-feira, 7 de maio de 2015
Frágil
Alguns cacos meus consegui recuperar e ficaram quase como os
originais. Outros estão estilhaçados e fico tendo que os colar diversas vezes.
Muitos fui pegando ao longo do caminho,
buscando em outras pessoas, o que elas diziam ser bonito ou aceitável e fui
colando em mim. Pedaços que eu achava importantes meus, cheguei a tirar, já que
disseram lembrar outros vasos feios.
Mas o que me falta é a estrutura, o equilíbrio e também,
assumir meus próprios pedaços, ainda que muitos estejam tão diferentes de como
os conheci.
Estou feliz por ter conseguido reerguer a aparência, mas a
estrutura ainda está sendo construída. Qualquer vento me balança, qualquer
esbarrão me desmonta. Queria que existisse em mim algo onde pudessem ler “em construção” ou “peça frágil” para que parassem de me balançar, esbarrar,
vociferar, se apoiar e começassem a perceber que preciso de cuidado, de tempo,
de paciência. Hoje mesmo, algumas peças tornaram a cair e me senti impotente em
juntar os cacos. Mas vou fazer isso, farei isso até o fim. Só gostaria que me ajudassem
em vez de acusarem sempre a forma como sou desajeitada e que outros vasos em meu lugar, seriam mais
fortes.
Por favor, eu já consegui reconstruir aqui fora. Mas ainda
está difícil reconstruir aqui dentro.
sábado, 4 de abril de 2015
Ontem
Hoje é um dos dias em que me vejo dando as mesmas voltas
sobre as mesmas coisas e notando que apesar de ter vencido muitas batalhas, carrego comigo as feridas que essa guerra me deixou, e elas ainda
precisam ser curadas.
Mas ontem, pelos mesmos motivos, olhei pra mim mesma e não acreditei que venci tanta coisa! Que passei pela opressão de uma religião que
fazia eu acreditar que meus erros me levariam a perdição eterna, por uma doença que tirou toda minha vontade de viver
e por um relacionamento que me reduziu a pó.
Ontem chorei. Chorei em me ver aqui de pé, viva, pondo todo
meu coração no que faço todos os dias. Chorei por ver minhas 3 tatuagens, a
forma como escolho com vaidade minhas roupas, minha monografia entregue, os 5
livros que li esse ano. Chorei por mesmo tendo sido, de fato, mal amada e mal
cuidada,
estou aqui amando de novo, me preocupando em ser uma boa companheira de novo,
me empenhando em ter o bom relacionamento que ambos merecemos.
Eu não desisti do amor, da vida, da fé, apesar de ainda
sentir dor e ver as feridas sangrarem. Mas eu vou cuidar delas, eu vou me curar
dessas feridas de guerra.
Me dei conta que aos 25 anos, sou a melhor heroína que um
romance poderia ter.
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| A menina da Mandala- Desenho meu |
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
Aos que me dizem mais bonita
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| Com 14 anos, quando me achava horrível! |
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| Com uns 20 anos, época da faculdade. |
Comecei a escrever sobre isso porque notei que com a melhora da depressão, algo que antigamente me atingia muito, já não atinge mais: o bullying que passei nos tempos de escola e faculdade. Eu tinha um complexo de inferioridade muito grande (que algumas vezes ainda me pega, devo admitir) e este com certeza foi alimentado por esses momentos da minha vida. Eram lembranças que volta e meia vinham me fazer mal. Na escola, nunca fui agredida fisicamente por conta de bullying, mas era a mesma história de muitas garotas: alta de mais, magra de mais, espinhas de mais, óculos, cabelo considerado “ruim”(não liso) . Beijei bem tarde por conta de tantos complexos, tive muito ódio dessas pessoas que me rebaixavam e diminuíam, alimentava desejos de vingança, etc. Conforme fui crescendo, enquanto essas lembranças ainda me consumiam, eu não conseguia ver como eu era bonita e muito mais que aquilo tudo. Continuei me comparando, me sentindo feia, esquisita, menor e fiquei com aquela mania de perseguição, achando que onde eu fosse “Não gostam de mim! Não falam comigo! Excluem-me! Menosprezam-me!”, não notando que era eu que me sentia assim e isso fazia com que as pessoas não se aproximassem mesmo. No caso da faculdade, eu fui meio perseguida por, na época sendo evangélica, não me encaixar na imagem que as pessoas tinham de como deveria ser um evangélico: submisso, preconceituoso, que não pensa, não questiona, que se esconde do mundo. E eu sempre fui totalmente o contrário disso. Piorou muito quando resolvi que meu TCC seria sobre Arte Tumular. Isso criou milhares de fantasias maldosas e fofocas sobre mim. Terminar a faculdade foi uma libertação. Essas coisas todas, tanto da escola quanto da faculdade, me criou uma ferida muito grande e que eu pensava jamais fechar, até porque eu não queria que fechasse! Aquela coisa de “Nunca vou esquecer o que me fizeram, blá blá blá”.
Mas quer saber? Passou! Passou totalmente! Comecei a notar que essas coisas todas não aconteceram apenas comigo, mas com milhares de pessoas e que nada disso me definia. Todo mundo quando é adolescente se acha feio, é esquisitão, está em fase de crescimento, normal então ser todo torto, magro ou gordo de mais, alto ou baixo de mais, todos são assim! Quando paro pra lembrar das crianças e adolescentes que faziam isso comigo, noto que eles também eram assim! O fato de escolherem alguns alvos para serem os mais humilhados infelizmente acontece e isso gera muita dor em quem sofre. Mas e aí, vou viver com isso pra sempre? Todos que agiram dessa forma nem se lembram mais, a vida de todos mudou e com certeza a cabeça deles também. Capaz que eu os encontre na rua e eles fiquem felizes em me ver, como se nada tivesse acontecido. Não estou dizendo que quem sofreu bullying tem obrigação de esquecer ou perdoar, mas que isso aconteceu comigo conforme fui amadurecendo e vendo que as pessoas mudam, a vida muda, a cabeça de um jovem de 13 anos não é a mesma de uma pessoa de 25 e que eu não posso pautar minha vida por coisas que passei aos 12, 13, 14 anos. Hoje sou diferente, eles são diferentes. A mágoa que eu tinha por conta disso se foi, e isso foi muito bom pra mim. Quanto às pessoas da faculdade, tirando os amigos que fiz, ninguém me faz falta e pelo que eu saiba, ninguém evoluiu muito com o pensamentozinho retrogrado que tinham, isso não fez ninguém superior a mim, ninguém cresceu fazendo fofoca e alimentando disputas. Isso é coisa de gente pequena e mesquinha, só o que posso é lamentar por essas pessoas. E em compensação, na pós graduação (sim, me formei! Agora sou uma Arteterapeuta Junguiana <3) conheci as pessoas mais acolhedoras e maravilhosas da minha vida, a quem devo muito minha evolução!
Eu, agora!
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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
Eu poderia ter sido Elena
ESSE TEXTO FOI PUBLICADO NO BLOG DA PETRA COSTA, SOBRE O FILME ELENA!
Meu namorado diz que gosto de filmes tristes. Prefiro chama-los de Dramas, mas de fato, são tristes, assim como muitas vezes vejo o mundo.
Meu namorado diz que gosto de filmes tristes. Prefiro chama-los de Dramas, mas de fato, são tristes, assim como muitas vezes vejo o mundo.
Um filme (documentário) que demorei muito a assistir por não
saber sobre o que se tratava exatamente, foi Elena, de Petra Costa, onde ela
narra a história de sua irmã, Elena,
atriz, que aos 20 anos decide morrer e como esse acontecimento até hoje impactou
a forma de Petra enxergar a vida.
Há uma parte no filme que mexeu muito comigo, onde Petra
relata que entra no quarto de Elena com uma amiguinha, ambas com 7 anos (Elena
com 20) e a encontram totalmente coberta, apenas com os olhos de fora e estes,
vermelhos de tanto choro. Saindo do quarto, a amiguinha de Petra pergunta o que
tem Elena, e ela responde “Ela é assim”. Por mais da metade da minha vida, eu
achei que eu fosse assim.Tinha aceitado a tristeza , a melancolia, a vida em
preto e branco como uma parte da minha alma, do meu destino. Conforme fui
tomando consciência de que isso precisava mudar, essa certeza de ser uma pessoa
triste tornava-se aterradora, insuportável e eu não via saída, a não ser a
morte.
O filme me angustiou muito. Me fez rememorar sensações que
já passei ao longo da minha vida e muitas vezes, em menor frequência, ainda
passo. Creio que as doenças da mente são
mil vezes piores que a do corpo. Se você está com uma dor no corpo, mas com a
mente sadia, você suporta, dá a volta por cima, se refaz. Quando é a sua mente
quem está doente, tudo pode parecer perfeito, mas nada importa, tudo parece
perdido. Lembrei das várias vezes em que minha vida não tinha sentido algum, das vezes que senti uma dor excruciante que nunca soube de onde vinha e
como meu único socorro e consolo era a religião, ao qual eu me agarrava com
todas as minhas forças e que , agradeço muito a Deus por tê-la colocado em meu
caminhos nesses momentos difíceis, pois foi o medo de perder a vida eterna, os
céus, a salvação e o que diziam naquele
lugar , que me mantiveram viva durante muito tempo, durante anos em que nada
pra mim fazia sentido, em que , como eu sempre dizia : Viver,era um fardo, uma
obrigação.
Mas eu saí disso, nem eu mesma consigo acreditar, mas saí.
Saí com terapia, com medicação, com amparo da família, que passou a me entender
e me apoiar, reconhecendo meus medos, traumas, experimentando viver, me
arriscar e aprendendo que nada é para sempre, nada é eterno. A vida é feita de
fases e isso tudo que passei foi só uma fase.
Queria que Elena tivesse tempo de ter notado que tudo isso
era uma fase, que todas essas coisas iriam passar. Aos 20 anos eu também queria
morrer. Aos 25 , quero amar, casar, trabalhar, ter filhos, dar continuidade aos
meus projetos . Viver muito, e muito bem!
Agradeço a Petra por ter feito esse filme, por sua
sensibilidade e sua coragem em se expor, coisa que faço nesse blog diariamente,
mas não com tanta delicadeza e beleza que ela fez. Relatar nossa história nos
alivia da dor e ajuda a quem está passando por ela a sentir-se confortado,
acolhido, a notar que não está sozinho, que é o que muitas vezes tento fazer
aqui.
Um filme feminino, intenso, forte. Um filme, que gostaria
eu, ter sido feito por mim. Uma história, que agradeço, não vivi.
domingo, 9 de novembro de 2014
Violência psicológica
Há pouco tempo, escrevi um texto aqui sobre Violência Emocional
e o deletei. Fiz isso pois, o texto foi escrito em um momento de emoção que
estava reprimida, sobre um assunto que há muito tempo eu queria falar, mas não tinha coragem. Escrevi e me arrependi por inúmeros fatores, mas agora com a cabeça fria estou disposta
a reescrever sobre o assunto.
Tive um relacionamento de três anos que me destruiu por
dentro, tamanhas eram as violências sutis que eu passava todos os dias. Dentre
as formas de violência sofridas, estavam: provocar ciúmes de maneiras
explícitas e depois me convencer que eu era louca, via coisa onde não tinhar;
sumir por dias sem deixar contato, depois aparecer como e nada tivesse
acontecido;ignorar meus apelos para ser ouvida e vista, ficar em silêncio
sepulcral enquanto eu me debulhava em lágrimas ou rir da situação; provocar em
mim ataques de fúria e raiva, fazendo com que eu não me reconhecesse, falasse
coisas horríveis e depois chorasse achando que a culpa era minha; ignorar meus
problemas pessoais e insinuar que eu tinha uma vida perfeita perto da dele; me
ignorar perto de amigos, como se eu não estivesse ali; me comparar direta e
indiretamente a outras mulheres do passado ou presente, flertar com outras na
minha presença; etc, etc, etc.
Nem preciso dizer o quanto eu me sentia um lixo, não é
mesmo? É claro que por eu ter ficado com essa pessoa 3 anos, existiam
qualidades e bons momentos, pelos quais eu me prontifiquei a lutar. Mas demorei
a notar que apenas gostar de alguém, e essa pessoa jurar de pés juntos que
gosta de você, não é o suficiente para continuar em um relacionamento doentio,
onde o outro em vez de querer te erguer e te ver progredir junto com ele, mina
sua autoestima, rebaixa suas conquistas e disputa com você, quase em um
movimento de inveja e competição, para ver “quem é melhor”.
O perfil do agressor para as pessoas de fora é sempre de
alguém bonzinho, amável, gente fina. Quando você tenta contar para alguma
pessoa o que você está passando, ninguém acredita em você, todos o defendem por
ser “um anjo” e tentam te convencer que é você quem está vendo coisas, é você
que está sendo incompreensiva. Ainda mais quando vêem você sendo presenteada
com ursinhos, flores, cartas, pedidos de perdão e todos ficam abismados em como você “reclama
com a barriga cheia, queria eu ter um marido romântico assim”. Isso se agrava
quando a pessoa em questão teve uma vida difícil e tudo é justificado pela
família desestruturada, pelo emprego exaustivo, pelo passado triste. Tudo se
vira contra você, e você se sente culpada por ter tido uma família estruturada,
uma condição de vida que te permitiu estudar sem se preocupar com trabalho até
quando pode, por ter tido o privilégio de nunca ter passado fome. Toda a
agressão do agressor, passa a ser justificada, e você, tem que entender o lado
dele, já que o mesmo teve uma vida sofrida. É um pesadelo, é uma prisão. Você,
vítima, se torna a vilã.
Falando da pessoa com quem convivi, sei que a grande maioria
das atitudes agressivas foram inconscientes, sem a intenção real de me ferir
propositalmente, eram reproduções do que já havia vivido. Mas nunca se deve
usar isso como uma forma de se autoconvencer que a pessoa irá mudar com o
tempo, porque ela não vai! O que se pode fazer nesse caso é propor um
tratamento ao agressor e esperar que este tome consciência de seus próprios
fantasmas, mas jamais se submeter a um relacionamento doente acreditando que
este irá mudar.
Consegui sair dessa e não desejo mal algum a ninguém, muito
pelo contrário, quero mais é que se reerga e consiga levar sua vida em frente sem
magoar nem a outra mulher e nem a si mesmo. Ainda vejo em mim muitas marcas
desses traumas quando sem querer, acabo refletindo alguns medos e inseguranças
no meu novo relacionamento, mas posso dizer que estou muito melhor. A ajuda
psicológica que eu já tinha em terapia me ajudou muito a superar, e meu novo
relacionamento também.
Tudo é passageiro, basta querer seguir em frente.
sexta-feira, 27 de junho de 2014
Depressão- A saga
Quando iniciei esse blog (Mais precisamente, o Across the
Universe, que depois se tornou Pensaela, que depois se tornou Pedaços dela e
por fim, o Etérea Essência), eu estava começando o período mais pesado da
depressão, ainda não diagnosticada, por conta de uma experiência traumática que
foi só uma acionadora . A verdade é que já era uma criança triste e negativa,
fui uma adolescente com longos períodos de angústia e vitimista (sempre me
achando a pior, a mais feia, a que sofria mais, etc) e tenho predisposição genética
a problemas como depressão, síndrome do pânico e etc. Meu pai é depressivo e sofreu ataques de
pânico e boa parte da minha família paterna seguiu essa mesma sina. E eu
também.
Nos primeiros dois anos eu não busquei tratamento para
depressão, embora já tivesse feito 6 meses de terapia, que não ajudaram muito.
Não busquei tratamento, uma por estar em crise e não ter forças, outra por não
ter apoio familiar, que dizia “não ter
dinheiro para gastar com as minhas frescuras”. Frescuras estas que eram
basicamente: Não comer e chegar aos 49 kilos (tenho 1,70), não dormir (ou
dormir de mais), não querer ficar sozinha, ter tonturas e náuseas constantes,
sentir que meu corpo não me pertencia e que eu vivia em um sonho, chorar
compulsivamente durante horas, etc. etc. etc. Com o tempo fui melhorando um pouco. Fiz
faculdade, ingressei na igreja, arrumei um namorado. Contudo, tive uma recaída
terrível onde minha mente não parava de pensar (apenas coisas ruins e
absurdas). Fui em busca de tratamento e
meu primeiro diagnóstico foi TOC, depois ansiedade e por fim, Transtorno
depressivo e ansioso. Resumindo o tratamento (que tive de parar por problemas
financeiros), foram 2 anos de terapia e 3 anos de medicação (que abandonei,
como disse, por não ter condições de pagar consultas ao psiquiatra, que são
absurdas de caras).
Escrevi tudo isso, pois relendo trechos do blog, percebo que
ele faz parte desse período específico da
minha vida, então muitas coisas que aqui estão escritas são retratos fiéis de
uma pessoa deprimida, e não necessariamente, meus verdadeiros pensamentos. Vejo
isso hoje, pois tive um pico de melhora muito grande de uns tempos pra cá e muitas
coisas do meu comportamento e pensamento mudaram, coisas que até então, eu
achava que eram características minhas. Noto o quanto estou melhor por :
-Hoje tenho vontade de fazer as coisas. Desde esse início da
fase mais severa da depressão (já fui diagnosticada com grau severo), eu não
sentia prazer e nem vontade de fazer nada do que antes me agradava. Eu
abandonei tudo o que me satisfazia, como leitura, ver séries, me arrumar,
querer sair. Coisas muito simples como levantar e arrumar a cama lavara a
louça, fazer um trabalho de faculdade, eram sacrificantes de mais para mim.
Ainda não me sinto com energia como antigamente, mas para quem não sentia
energia nenhuma, e estando sem medicação, eu realmente melhorei muito!
-Uma coisa que eu dizia sempre para minha psicóloga : “Minha
vida precisa de manutenção, eu tenho que me vigiar o tempo todo”. Eu simplesmente
não sentia prazer nenhum em viver e não queria estar viva, não entendia o
porque de estar viva e me entristecia o fato de estar viva. Eu não acordava e
levava o dia, como todo mundo. Nem passava por uma raiva, um perrengue e depois
estava rindo, como todo mundo. A raridade era eu rir, era eu ver graça nas
coisas, era estar feliz, mesmo conquistando coisas, tendo pessoas que me
amavam, sendo reconhecida pelo meu trabalho, elogiada pela minha beleza. Para
mim, nada disso era importante, era tudo preto e branco. Hoje a minha vida tem
cor, tem graça. Eu brinco rio, me alegro, acordo disposta, vejo a beleza nas
pequenas coisas da vida que há muito tempo haviam desaparecido. Fazer um bolo é
uma vitória, fazer um desenho outra, dormir e querer acordar no outro dia, a
maior de todas.
-Eu não dou mais importância para o que as pessoas pensam de
mim, o que elas dizem a meu respeito, a não ser que sejam pessoas muito próximas
(e muitas vezes, nem essas) . É como se agora eu tivesse poder sobre mim mesma,
eu me conhecesse. Antes, era como se eu fosse aquilo que as pessoas diziam que
eu era. Não questionava, eu era aquilo e ponto! Sofria muito com discussões de
internet, com pessoas que nunca se quer me viram na vida e por notarem que eu
era um alvo fácil, me atingiam e eu me sentia atingida. Agora o que menos me importa é saber se agrado ou não aos
outros. Estou agradando a mim mesma, e isso basta.
-Não sou mais presa ao passado. Algo que me fazia sofrer de
mais, e que eu sempre falava na terapia era “Parece que estou presa sempre nos
mesmos problemas, que minha vida não se atualiza que são sempre as mesmas
dores, que é sempre a mesma coisa, que nada vai mudar nunca!”. Vejo claramente
agora que isso me fazia um mal imenso porque não sou, de natureza, uma pessoa nostálgica.
Não gosto de remoer coisas, guardar lembrancinhas até mofar, viver de memórias,
mesmo que sejam boas. As guardo com carinho, mas não fico as rememorando e
querendo que elas sejam o meu presente. Gosto de ver as coisas fluindo,
caminhando, se renovando, resignificando, e me sentir presa ao passado me
torturava mais do que qualquer outro fator!
-Tive coragem de tomar decisões que mudariam minha vida,
como sair de um emprego que me fazia infeliz, terminar um relacionamento que
minava minha autoestima, dar um tempo e questionar uma doutrina religiosa na
qual sempre abaixei a cabeça e aceitei como certa. Mudei minhas roupas, cortei
meu cabelo, comecei a ir para lugares que nunca tinha ido, fazer coisas que
nunca tinha feito e quero fazer muito mais ainda. E isso é bom, muito bom! Sinto-me
viva!
Claro que ainda sou depressiva e nem sei se um dia deixarei
de ser. Apesar de todas essas melhoras, tenho dias de recaída e esses dias são
pesados, principalmente na TPM. Há dias
que choro o quanto antes, me sinto um lixo como antes, penso que a vida não
vale a pena como antes, mas esses dias
agora são a exceção e não a regra. Além do que, consigo reconhecê-los como “dias
em que estou doente” e talvez precise descansar e tomar um chazinho, como uma
gripe, e não mais como minha personalidade ou minha realidade.
Eu não tenho vergonha de falar sobre esse assunto, nunca
tive, e acho que precisamos falar mais de nossas lutas, nossos problemas e
mostrar aos que estão passando por isso que eles não estão sozinhos e assim
como hoje melhorei muito, eles também irão melhorar, esse período não é eterno,
a vida pode sim mudar, nós podemos mudar! Não estranhem com as mudanças no blog, não
pensem que estou fazendo isso para atrair público e etc. Esse blog nunca teve a
intenção de ser popular e nem comercial, então a popularidade dele nunca foi o
mais importante para mim. Sempre foi um espaço onde eu pudesse ser quem eu sou.
E se estou uma pessoa melhor, pretendo compartilhar conteúdos melhores.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Pra mim
Esse mantra tem que perdurar:
Minha felicidade não depende de ninguém, nem de lugar, nem
de situação.
Minha felicidade não depende de amor correspondido, de
emprego bem pago, de época abundante. Não depende de grupo que aceita, de
família que vive, de crença religiosa.
Minha vontade de estar viva não deve pertencer a outro ser
humano, não deve existir só porque alguém disse uma vez, que estaria comigo. Um
dia essa pessoa cansa, desama, me deixa. Um dia esse emprego some, fale, me
demite. Um dia esse grupo muda, se desfaz, se volta contra. Um dia essa família
morre. Um dia essa crença acaba.
Só quem não pode desistir de mim sou eu. Só eu não posso me
dar às costas.
![]() |
| Velasquez |
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
A quebra
![]() |
| Susy, de Julieta dos espíritos. Fellini. |
Tenho me perguntado de onde vem surgindo todas essas novas
folhagens, esses novos galhos que por não doerem, não sinto nascer. Estão
surgindo como pelos em pele crua: sem alardes, indolores, apenas seguindo sua
natureza. É como se o que estava bloqueado começasse a renascer, o que antes
emperrado, começasse a romper. Romper barreiras, romper mundos, romper muros,
romper medos. O que antes se encolhia agora é endireitado, o que era difícil
agora se tornou fácil, o que era errado, agora é certo. Ou pelo menos sem
julgamento.
As crises impulsionam e o desejo faz germinar a vontade de
me diluir, não mais esconder ou paralisar, mas seguir o curso, mesmo em águas
tão tortuosas.
Os que me veem se perguntam o que terá acontecido, alguns
até me censuram, falam que algo se quebrou dentro de mim, algo que me definia,
que estou “perdida”. E eu sei exatamente o que foi quebrado e porque estou
agora tão solta e sem eixo: O que se quebrou dentro de mim foi minhas
correntes.
sábado, 12 de outubro de 2013
Apesar de
Eu não quero mais cometer o erro de colocar minha vida nas
mãos de terceiros ou situações. Não quero mais achar que será o emprego que me
fará feliz, a pessoas, a situação. Eu sempre tive as ferramentas a minha mão,
todas as coisas boas, estavam ali, mas eu nunca fui feliz, apesar delas. Todas
as vezes que coloquei minha expectativa no externo, conseguia, sorria e depois
de um tempo, cansava e via que não era aquilo que eu buscava. E projetava minha
felicidade em outra coisa, e em outra coisa, e em outra coisa, sempre buscando
o porquê de por dentro, nunca estar me sentindo plena, o porquê de nada bastar.
Não quero mais fazer isso. Quero ser feliz apesar de. Apesar
das pessoas, apesar do trabalho ou falta dele, apesar do curso ser puxado ou
não, apesar de tudo. Ser feliz apesar de tudo. Ser resiliente, me reconstruir,
me refazer. Parar de querer o que o outro não pode dar parar de querer dar
aquilo que nem pra mim tenho. Quero ser feliz, apesar de, sempre, e sempre, e
sempre. Apesar de tudo, do que foi, do que é e do que será.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
O lado bom da vida- Uma "resenha" nada pessoal
Eu não sou de fazer resenhas, nem sei se já fiz uma aqui pro
blog. Mas esse filme mexeu comigo de um jeito muito estranho.
O lado bom da vida conta a história de Patt (Bradley Cooper), um homem que
passa 8 meses em uma clínica psiquiátrica após agredir o amante (?) da esposa. Ele é diagnosticado com bipolaridade e passa
a ter ataques sempre que ouve a canção que tocou em seu casamento e que,
infelizmente, estava tocando no momento em que encontra sua mulher com outro
homem. Patt sai da clínica convencido a ter uma perspectiva mais positiva da
vida e convencido também a retomar seu casamento. O que ele não consegue
perceber por seu transtorno, é que não há mais casamento . Sua eposa não
o quer mais, mudou de cidade e entrou na justiça por uma ordem em que Patt não
pudesse se aproximar dela. Ainda assim, ele está convencido que é apenas questão de tempo para as coisas entrarem nos eixos.
Patt conhece Tiffany(Jennifer Lawrence), uma jovem viúva em estado depressivo,
que para compensar sua dor começa a se relacionar sexualmente com toda pessoa
que lhe dá atenção. Logo que o encontra, Tiffany oferece sexo a Patt em troca
de sua amizade, mas Patt mostra sua aliança e diz “desculpe, sou casado”. Bem,
por aí o filme se desenrola e vocês terão que assistir.
Mas bem, o que fez eu querer escrever sobre este filme?
Em primeiro lugar, o filme é muito fiel às emoções,
pensamentos e comportamentos de pessoas que sofrem transtornos de humor como
bipolaridade e depressão. Isso com certeza passará batido a pessoas que nunca
tiveram um amigo, parente, ou elas mesmas tenham passado por um transtorno psiquiátrico
desse tipo. São coisas muito sutis que passam em nossa mente e que, apenas quem
já passou por isso sentirá tocando fundo da alma. Há uma parte em que Patt
diz que aprendeu na clínica que se você
se esforçar muito, trabalhar muito em seus sentimentos, não desanimar, o
mínimo,mas o mínimo de mudança que conseguir, já irá ser um raio de esperança.
Isso foi algo que eu aprendi sozinha em meus piores momentos de crise, onde você
nota que por mais que remédios te ajudem, apenas você pode mudar o quadro em que
se encontra então você se esforça, se esforça muito, dá tudo de si para ter
esse raio de esperança de que as coisas possam mudar. Há também dois momentos
em que Patt , movido por uma ansiedade fora do limite, acorda seus pais de
madrugada apenas para discutir sobre um livro que sua esposa escreveu e para
perguntar onde foi parar seu vídeo de casamento. Muitas vezes é a noite que a
solidão maior bate, que a ansiedade ataca de maneira mais cruel e você sente
que se não falar com alguém naquele momento, você irá explodir, por mais que racionalmente
saiba que seus pensamentos são absurdos.
Mas tirando isso sobre Patt, a personagem com quem mais me
identifiquei foi Tiffany. Tiffany está naquela depressão onde você consegue se
manter acordada, consegue se vestir, consegue sair de casa, mas simplesmente
vegeta por dentro, simplesmente faz tudo no automático. Você está morto por
dentro. Ela ainda consegue ter uma vida funcional pela ajuda dos medicamentos,
mas sua vida não tem sentido algum e ela vive em função de sua dor, que no caso é a perda do marido. O fato de Tiffany
fazer sexo com várias pessoas é na verdade um momento de fuga, e até mesmo (isso
seria um spoiler) de auto-punição. Ela tem seus momentos de total apatia, que
do nada, partem para momentos de grandes explosões de raiva e choro. Quando estive deprimida foi exatamente assim.
Eu estava longe de tudo e de todos e era como se ninguém no mundo compreendesse
a minha dor. Para não ser um estorvo, eu me calei, eu me mantive de pé, eu tive
uma vida funcional.Mas bastava uma palavra
grosseira, uma insinuação de julgamento que a explosão era grande, que os
gritos eram ouvidos ao final da rua, que o choro era copioso e durava uma noite
inteira. É a depressão que não te derruba na cama, mas que te torna um semi humano,
um robô e que por não ser a que deixa explícito que você está doente, você é
julgado como mal humorado, infeliz, amargurado, escandaloso, barraqueiro, inconveniente. Ninguém, absolutamente ninguém
entende o que está se passando dentro de você.
Algo que consegue ajudar tanto Patt quanto Tiffany é que os
dois entram em um campeonato de dança juntos e começam então, dia após dia a
ensaiar, a se movimentar, criar passos, e isso é...ARTETERAPIA <3! O filme
trata de arteterapia, talvez nem o roteirista, o diretor, os atores saibam, mas
o filme é muito arteterapeutico! A dança os ajuda a reconhecerem-se como
indivíduos, ajuda a terem foco, a terem
disciplina, a liberarem endorfina, serotonina, os hormônios do bem estar, que
são justamento os hormônios em falta em pessoas com depressão.
Não irei falar mais sobre o filme, deixo que vocês o
assistam. Mas simplesmente não consigo entender como muitas pessoas o chamam de
“comédia romântica”, como muitos dizem que pelos personagens irem melhorando, o
filme “perde o foco inicial”. Só quem já passou por um problema desses sabe
como cada alegria, cada dia é um raio de esperança, como nos agarramos a
qualquer raio de esperança que surja a nossa frente.
Eu sai da sala do cinema triste, pensativa, cheia de emoções
adormecidas e lembranças. Mas cada um terá sua experiência com o filme, vai
depender do repertório e das exepriência de cada pessoa.
Esse é meu repertório, essa foi a minha experiência.
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