Páginas

quinta-feira, 19 de março de 2015

A educação e os seres invisíveis


Não sou  só da Zona Leste, mas do extremo Leste de São Paulo. Do meu trabalho até minha casa, a locomoção demora em média 3 horas por dia e dou graças a Deus, pois já tive empregos em que gastava no total de 5 horas contando a ida e a volta do trajeto em tempos bons (sem chuva, trânsito ou problemas nas linhas férreas).  Meu bairro é onde se encontra a maior parte de trabalhadores no comércio do bairro do Brás. Os trens saem daqui carregados de pessoas de segunda á sábado. A  vista da minha laje é a favela, e dela faço meus atalhos para chegar mais rápido de uma avenida a outra. 

Sou graduada e pós graduada, sendo a graduação possibilitada pelo PROUNI. Atuo como educadora desde 2008 e desde então, tenho frequentado diversos círculos sobre educação em todas as instituições que passei. Nesses círculos, a grande maioria das pessoas tem o perfil de virem de famílias já de educadores e artistas, escolas particulares e bairros privilegiados de São Paulo, ou seja, uma realidade muito diferente da que vivi. Sou filha de pais que terminaram o colegial depois de adultos no EJA (Educação de Jovens e Adultos) e a primeira mulher a ter um curso superior na família.Me graduei em uma boa universidade particular em um Campus situado próximo ao meu bairro, então o perfil econômico e cultural das pessoas não era tão diferente do meu, mas os discursos acadêmicos já me incomodavam em questões que explorarei adiante.

Fiz vários cursos de extensão universitária por universidades públicas e outros de formação como educadora.  Em muitos deles, trabalhamos  a questão do índio e do negro em ambientes acadêmicos, o que muito me incomodava, já que olhando ao redor, há pouquíssimos negros e nenhum índio que possa levantar sua fala. Me perguntava : “Quem somos nó para estudarmos e debatermos se o índio deve ou não se envolver no que achamos ser civilização? Quem sou eu, garota branca, pra dar uma opinião segundo tantos livros de história que li se é exagero ou não um negro se sentir revoltado com o termo “apropriação cultural?”.

Nunca conseguirei falar por esse índio e por esse negro que não estava lá, mas posso falar pela moradora de favela/periferia/escola pública que estava lá! A experiência de ver minha realidade sendo estudada e tratada de maneira até romântica por um ambiente acadêmico me faz sentir um pouco a dimensão do que é ser um ser invisível na sociedade, o que é acharem que entendem mais sobre você, de acordo com estatísticas, pesquisas e visitas pitorescas ao seu habitat natural, do que você mesmo, que vive isso. Nunca fui destratada ou rebaixada pela minha condição de moradora da periferia (até porque tenho uma aparência extremamente européia, o que me “camufla”, pois certamente a experiência de uma garota negra e periférica em um ambiente acadêmico deve ser muito diferente), mas ver-me sendo estudada, analisada pode ser sentida muitas vezes como grande agressão. Em um desses cursos, após assistirmos o documentário “Pro dia nascer feliz”, que trata de escolas de SP, ouvi o comentário “Não acredito que escolas públicas sejam dessa forma. Afinal, fala-se muito de escolas públicas, mas ninguém nunca foi lá ver como é!”.

Minha crítica não é a nenhuma instituição, mas aos ambientes acadêmicos como um todo, que tenta incluir ainda de uma maneira excludente! Esse problema se torna muito maior quando o ambiente é o da educação. É maravilhoso que haja hoje em dia uma preocupação com o entendimento sobre “o outro” e a tentativa de incluir essas classes emergentes e social /historicamente excluídas, normalíssimo então que as visões ainda sejam estereotipadas.

Não me senti excluída como mulher, mas certamente, há 20 anos atrás, eu me sentiria por ser um cenário muito mais machista e pouco esclarecido como é agora. Meu pensamento é, por meio de minha experiência, problematizar ainda mais o fato de que ainda somos invisíveis, ainda somos excluídos, mesmo agora nos “sendo permitido” ousar invadir um território que até muito pouco tempo, nunca foi nosso.  Por isso mesmo, creio que seja obrigação nossa, que já estamos lá, abrirmos discursos e caminhos para que cada vez mais nossa história seja contada a partir de nossas experiências, de nossas vivências.  O academicismo ainda é branco e elitizado, mas o fato de começarem a se preocupar com nossas realidades já mostra algum avanço. Cabe a nós agora tomarmos nosso espaço e nos fazermos  vistos, e não apenas estudados como seres invisíveis.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sinta-se á vontade