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domingo, 28 de setembro de 2014

Qual tipo de vida os "pró vida" defendem?


Tenho tido o privilégio de trabalhar como educadora na 31Bienal  de Artes de São Paulo (já fui educadora também na 29). Há uma obra emblemática dessa exposição chamada Espaço para abortar, do grupo feminista boliviano Mujeres Creando. Não descreverei a obra , pois creio que minha visão pode variar da visão de muitos, e também para que se agucem a curiosidade e que a obra seja visitada.

Em minha vida, sempre pensei nunca ter tido um contato real com mulheres que provocaram aborto. Sempre vi esse fato como algo isolado, que pouquíssimas mulheres recorriam e estas, apenas em momentos de grande desespero. Erro meu.  Em poucos dias estando em contato com esta obra e abordando-a de maneira educativa com diversos públicos, dentre eles crianças, adolescentes, homens e mulheres, ouvi centenas de depoimentos e opiniões diferentes e descobri que o aborto é uma prática muito mais comum do que imaginava, tendo os mais diversos tipos de motivos para acontecer, desde um estupro, até o simples fato da gravidez não ter sido desejada. Percebi então que muitas mulheres do meu círculo social já haviam praticado um aborto, mas que esse assunto é um tabu, um assunto a não ser comentado, e como é o tema da própria Bienal, é um tipo de “Como falar de coisas que não existem”.

Parei então para refletir sobre o assunto e me veio uma enxurrada de problemas que essa omissão governamental sobre a questão do aborto acarreta em nossa sociedade. Aqui a questão não é sua posição pessoal, se você é contra ou a favor , se sua religião condena ou não tal prática. A questão aqui além de saúde pública, é social. O aborto é criminalizado no Brasil , portanto, a mulher que o comete é vista como uma assassina. Não existem métodos seguros para que o aborto seja realizado, a não ser em clínicas clandestinas, que além de ilegais, são extremamente caras. Apenas mulheres com um alto poder aquisitivo podem fazer um aborto com o mínimo e segurança. Contudo, a imensa maioria da população não tem esse recurso, recorrendo aos métodos mais agressivos e arriscados, colocando sempre a vida da mulher em jogo. E quem são essas mulheres que recorrem a esses métodos? Em sua maioria pobres, negras, periféricas, moradoras de comunidades. Mulheres que escondem uma gravidez do parceiro, da família, da igreja, que não tem apoio nenhum. Mulheres que muitas vezes já estão esperando o terceiro, o quarto filho, que moram em barracos, não tem se quer condições de alimenta-los. A mulher é demonizada sempre por ter feito essa coisa tão vergonhosa e odiosa, que é o ato sexual, e ter “se deixado engravidar”. Nunca se fala que para uma gravidez ocorrer, é necessário a participação do esperma masculino, que o óvulo não se fecunda sozinho, e que a mulher que foi culpada por não tomar a pílula, foi penetrada por um homem que não se preocupou em usar camisinha.  Nunca se fala também do aborto masculino, que ao saber que a companheira está grávida,  simplesmente nega a paternidade da criança ou quando “assume”, é colocando seu nome em um registro e pagando uma pensão por mês, sem participar da criação, da troca de fraldas, sem ter seu corpo completamente modificado, sem sofrer as dores do parto, sem carregar nas costas o peso de ser responsável por uma outra vida.

Existem com certeza métodos anticoncepcionais e existem aquelas que mesmo tendo a opção segura de ter um aborto, optarão por não faze-lo, seja por motivos pessoais ou religiosos. Mas isso não muda a questão de que os abortos clandestinos estão acontecendo o tempo inteiro e mulheres estão morrendo dia a pós dias por esses abortos. Que sociedade é essa que se diz pró vida, mas prefere ver a morte de uma mulher por infecção, hemorragia e tantos outros males, em vez  do expelimento de um feto, que nem se quer formação ainda tem? Muito me assusta também os  chamados pró vidas que acreditam que lutar pela vida, é apenas deixar nascer. Ninguém se responsabiliza pela formação, educação, criação, impacto psicológico ou contexto social que esse ser , que em gravidez foi indesejado, terá. É preferível vivo, mas jogado as traças, passando fome, abuso, humilhação. É o que vemos com tantas e tantas crianças de rua, crianças abandonadas em orfanatos, crianças criadas em meio ao tráfico ,etc. Ninguém se preocupa em como será a qualidade de vida desses seres, mas querem lutar para que este nasça, seja ele in desejado, com alguma doença congênita ou até mesmo, não portador de um cérebro. É jogada nessas mulheres a responsabilidade pela vida de outro, e retirado o  direito de serem responsáveis pelas próprias escolhas, a própria vida.

Com a despenalização do aborto, mulher alguma será obrigada a abortar, mesmo aquela que sofreu uma violência sexual ou traz um feto defeituoso, se quiser levar a gravidez adiante, terá todo o apoio da sociedade. A despenalização apenas dará a mulheres que não podem ou não querem uma gravidez cheia de riscos, traumas e culpas, terem o direito de interromperem essa gestação sem o risco de saírem mortas e sem serem julgadas como criminosas. É um interesse social e público que o aborto seja legalizado. Religião ou posicionamento social não pode e não deve interferir na vida de milhares de pessoas. Nosso país é laico, e como tal, tem o dever de garantir a saúde e a integridade física e mental de todos os cidadãos, independente de suas escolhas pessoais ou religiosas.

P.S: Eu, a autora do texto, não provocaria um aborto e nem estimularia alguém a cometer, tenho meu posicionamento PESSOAL quanto a isso, mas sou totalmente a favor de que o aborto no Brasil deixe de ser um crime.

9 comentários:

  1. . "Que sociedade é essa que se diz pró vida, mas prefere ver a morte de uma mulher por infecção, hemorragia e tantos outros males, em vez do expelimento de um feto, que nem se quer formação ainda tem? "

    Day, por essa perspectiva então seria preferível morto do que pobre e, pior, só vai morrer filho de pobre segundo as características que vc descreve.

    A pobreza, fome tudo isso é uma questão de estrutura social que depende de uma série de fatores para serem superados. Acontece que existe pessoas que acreditam que há outras vias de superação desta realidade que não é simplesmente distribuindo bolsas. Eu particularmente e enquanto uma pessoa formada em ciências sociais que tem conhecimento da nossa realidade social acredito que estas bolsas são necessárias enquanto paliativos e para correções de problemas momentaneamente, mas que não devem ser institucionalizados. E, olha, tenho apoio de gente séria defendendo o mesmo ponto de vista que eu e nem de longe é conservadora como pareço aqui para vc.

    Acontece que parece está enraizado em nossa sociedade que quem só tem as melhores alternativas de superação da pobreza são os esquerdistas, o que não é verdade. Nem de longe é verdade.Isso só é politica ideológica e das mais rasteiras.

    O problema das feministas, é colocar aborto como se fosse apenas uma questão de escolha da mulher. Porém tal argumento só sustenta entre elas mesmo, na ideologia libertária barata. Primeiro que essa concepção de vida adotada por elas tem uma caráter mais ateista e libertário e bastante contraditória, uma vez que na barriga da mãe, não é vida, mas se colocar esse mesmo " aglomerado de células" em Marte eles passarão a considerá-lo como tal, portanto, é uma visão política , cheia de dúvidas.

    Como cristã acho que é um posição difícil de sustentar, pois como disse tal argumento sobre a vida é ateísta e libertária, disfarçado de laico. O cristão pode até defender o aborto, mas acho que tem que apresentar argumentos condizentes com a sua fé.

    Abandonei o feminismo faz tempo, principalmente quando descobri que quem aprende coisas através de movimentos sociais, só aprende besteira.É conhecimento sem orientação adequada que gera as ideologias mais bobalhoide que se tem noticia. Na verdade eu não estava aprendendo nada com elas. Só aprendi ideologia. Muitos dos conhecimentos delas divulgados em estudos pesquisas servem apenas para legitimar as bandeiras e atender aos seus interesses que são passado a sociedade como se fosse verdades.

    Obrigado pelo espaço

    Lane

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    1. Oi Lane!
      Eu não vejo diferença se for um pedido "pró ateus", já que esse pedido beneficiaria a todos. Mulher alguma seria obrigada a abortar. As religiosas não precisarão abortar se não quiserem. Só será uma garantia que todas as mulheres possam decidir de maneira segura, e não clandestinamente. Fora isso, tem muitas mulheres cristãs que tbm fazem aborto. Tb, não concordo quando vc diz que só pobres iriam morrer. Na vdd, só mulheres pobres estão morrendo agora, sem a legalização, já que as com mais recursos abortam do mesmo jeito, mas em outros países ou clínicas mais seguras. Os abortos , em todas as classes, acontecem. A diferença é que quem pode pagar por um seguro, paga.

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    2. Dayane

      Não falei em " pro-ateus", falei que seu argumentos são ateistas. Não sei se vc é cristã ainda. Da ultima vez que conversei era e ao menos na minha visão não dá para ser cristã e defender aborto baseando em argumentos ateistas, uma vez que eles não acreditam em alma, logo um bebê só é humano a partir dos 4 meses. Ou seja até o dia 119 é um amontando de celulas no outro dia faz os120 e "plim" já é humano.

      Day eu não sou ninguém para dar conselhos, mas acho que deveria se aprofundar melhor nestas questões. Não procure sites feministas, elas só ensinam ideologia. Procure estudos, trabalhos que são pró e/ou contra aborto.No entanto, dificil encontrar pesquisas que são contra o aborto porque as feministas dominam a área de estudos de gênero, por isso a maior parte dos estudos é sempre defendendo aborto. Daí seja comum defender aborto porque os estudos falam isso e aquilo", sem prestar atenção que esses estudos são todos feitos por elas, logo defenderão apenas o que querem defender

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    3. Eu entendo seu ponto Lane, eu tbm não sou a favor de um aborto e não gostaria de fazer aborto algum. O que defendo é a descriminalização, entende? Concordando ou não com a prática, o fato é que há mortes de mulheres por conta disso, pq eu ,vc, concordando ou não, os abortos continuarão existindo. Sim, sou cristã, apenas sai da igreja que frequentava antes.

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  2. Dayane, gostei muito de suas colocações.
    Acabo de rever A Sete Palmos e você se lembra do aborto da Claire?
    Bem... Ela o fez porque o momento para ela era completamente inadequado. Aí, a Brenda tem um aborto espontâneo.
    Dito isso.
    Minha posição pessoal é contra o aborto por uma razão simples. Eu, Elaine, só comecei minha vida sexual quando sabia que poderia arcar com qualquer consequência decorrente. Tanto quanto viver é risco, fazer sexo também o é. E não só de gravidez... Obviamente. Corre-se o risco, por exemplo, de ser taxada de "libertina". Mulheres fazem sexo e podem engravidar e isso sempre foi um peso enorme. O homem, hoje em dia cada vez mais responsável e responsabilizado, ainda assim não carrega a "consequência" no próprio corpo.

    Dito isso, vou também citar a ingênua concepção de que a maternidade é maravilhosa, toda mulher se realiza sendo mãe. É mesmo?
    Mães vendem suas filhas, mães matam seus filhos (e não estou falando de depressão pós parto!!!), mães maltratam seus filhos, abandonam... Etc, etc... A visão romântica de que um filho traz realização a uma mulher é uma construção. Cobrar dela que ela assuma este papel mesmo sem querer, sem poder, sem ter condições, sem ter apoio, é leviano.

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  3. Alguns vão argumentar que ela pode, então, doar a criança. Interromper a gravidez não pode, mas não deixar um ser humano sofrer todas as sequelas ainda não sabidas de uma gestação sem afeto, de um nascimento sem significado mais profundo, de um "abandono" do "sangue do seu sangue", de um desamparo total... Isso pode?

    Acho que as pessoas se apegam a questões emocionais ligadas a suas próprias experiências: e se eu fosse abortado???? Não estaria aqui! Inimaginável!

    Em terapia, por exemplo, como lidar com uma mulher que quer fazer ou fez aborto? Fazer um sermão ideológico (impossível não ter ideologias, viu? Se não for a feminista, será outra qualquer!) e levar a pessoa a se sentir mal?

    Nenhuma mulher em sã consciência vai usar o aborto, um método invasivo, violento, como contraceptivo. É ingenuidade e até arrogância pensar que a mulher sai por aí sendo "promíscua" (nada a ver com ideologia, né?) e acha que o aborto é a solução mais fácil, em conta, cômoda.

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  4. Eu conheci uma mulher que engravidou mesmo com todos os métodos! Ela assumiu e curtiu, no fim.
    Eu conheci uma mulher que definitivamente não queria ser mãe e declarou sem qualquer pudor que, mesmo que engravidasse do marido, abortaria.
    Eu conheci uma mulher que hoje tem medo de ter filhos porque a mãe dela a abandonou na adolescência.
    Eu conheci mulheres que se arrependem de ter abortado.
    Eu conheci mulheres que foram acusadas de estar provocando um aborto por estarem com uma hemorragia e serem mal tratadas no hospital. E, num dos casos, ela jamais teria feito isso, porque era seu sonho ser mãe. Mas ela chegou a ser hostilizada no hospital. Se a mãe dela não fosse funcionária, era capaz que ela morresse de hemorragia, por causa do "preconceito" contra quem aborta - repito, não era aborto!!!!

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  5. A morte é um fato real tanto quanto a vida e, acho, o tabu do aborto tem a ver com o tabu da morte. Aborto e suicídio são pecados, coisa de covardes. Acho que a questão é muito mais ampla que isso. Muito mais profunda que isso.
    Como foi dito, algumas mulheres terão opção, outras não. Por isso e por questões sociais mais amplas, como planejamento familiar, saúde da mulher, responsabilidade do estado e da família pelo bem estar do cidadão, sou a favor da livre escolha da mulher que deve ser soberana de seu corpo e sua vida. Eu gostaria que houvesse uma visão de "saúde da mulher" nessa discussão toda. Que maravilha seria, se uma mulher pudesse consultar especialistas e médicos e decidir com segurança o que fazer, com respaldo da família, inclusive. Esta estrutura só existiria se o aborto deixasse de ser um tabu.
    Eu fiquei intrigada com uma notícia uma vez, sobre uma moça italiana que descobriu que seu feto era anencéfalo. Ela decidiu levar a gravidez até o fim para doar os órgãos do bebê. Sublime decisão, não é? E, agora, sendo de uma racionalidade quase cínica: será que essa mulher, no fundo, não encontrou uma forma de não produzir um só milagre da vida, mas vários? Porque há também no pensamento feminino uma megalomania ditada pela divindade terrena de dar a vida a alguém. Mulheres que se tornam verdadeiras megeras depois de serem mães, porque atribuem a si mesmas um valor acima de qualquer outro ser que não realizou em si o tal milagre de trazer ao mundo uma outra vida.
    A questão da feminilidade, do feminino, do feminista está muito além de papéis e tabus sociais. Chega de tapar o sol com a peneira.
    É a primeira vez que escrevo sobre tudo que penso sobre o assunto. :o)

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