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sábado, 7 de abril de 2012

Meu primeiro encontro com Clarice



Que me conhece de longa data sabe que eu nunca morri de amores por Clarice Lispector e sempre torci meu nariz ao endeusamento que faziam dela. Pior ainda quando diziam que minha escrita (quando eu escrevia mais literariamente, algo que infelizmente não tenho quase feito) se assemelhava a dela, nessa coisa de fluxo de consciência.
Algo que me enojava (e ainda enoja, mas agora entendo o porquê) eram as frases aleatórias que apareciam nas redes sociais, a maioria copiada e colada por pessoas que com TOTAL CERTEZA jamais abriram um livro da tal criatura, gente que está nitidamente na cara que seguiam o embalo do querer parecer “Cult” e intelectual no Orkut, Facebook,etc. Hoje mesmo vi um perfil com uma frase dessas que me fez rir!
Partindo desse pressuposto preconceituoso, tinha para mim que Clarice Lispector era uma escritora boa, porém pretensiosa e superestimada. Quando tinha uns 15 anos , peguei um livro dela para ler e como não estava no momento certo, achei  enfadonho nas primeiras linhas , já que minha literatura da época era mais voltada a Harry Potter e coisas fantásticas (que ainda me agradam!).
Passaram-se anos e frases como “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.” E “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.” me reviravam o estômago.
Mas houve um tempo em que necessitei, tive que tirar a prova. Lembrei-me daquele livro que aos 15 anos me pareceu chato e prepotente e corri em sua busca com uma sede de saber sobre o que realmente se tratava. Busquei em dois, três sebos e  nada de o encontrar. Até que o achei em um e joguei todas as minhas moedinhas no balcão, implorando por um desconto, precisei até mesmo de 25 centavos doados por um senhor que viu meu desespero em levar o livro . Foi aí que me iniciei. 

UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES



Eu não sei exatamente o que mudou: se fui eu,  se foi o tempo ou se foi, de certa forma, a própria Clarice. Já no começo do livro, pequenas feridas foram se reabrindo em mim e suaves tapas foram dados em meu rosto. Já nas primeiras páginas chorei, já no início senti que era de mim, e apenas para mim que este livro foi escrito.
Apesar de ser um livro fino, com letras grandes, não consegui lê-lo de uma vez. Não dava! Cada virada de página fazia com que um turbilhão de novos pensamentos me afligisse, fazia com que aquela Lóri fosse pouco a pouco, descamando-me, retirando uma antiga pele que sempre carreguei e esse processo é muito dolorido.
Não sei bem explicar o que senti com Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. Houve horas em que me cansava, tamanha sua densidade e o colocava de lado. Houve momentos em que me revoltei por ele trazer a tona tanto do que sou e notar a quão errada eu sou. Momentos em que o ler era como uma terapia, onde descarregava meus fantasmas ou ao menos, aprendia a conviver com eles.
Quem aqui acredita em experiência estética? Pois foi se não a maior, uma das maiores experiências estéticas que vivi.
O livro é chato, o livro é denso, o livro é revelador. Um livro que provoca dor, mas quer nos faz entrar em estado de graça.
Quanto a minha relação com Clarice, agora a vejo como aquela pessoa que você não vai com a cara por ouvir tanto falar,  mas nunca ter se dado ao trabalho de conhecer. Todas aquelas frases desencontradas e descontextualizadas que vemos o tempo todo por aí, como se ela fosse uma guru ou escritora de autoajuda, dentro do contexto verdadeiro nos fazem ver que o que ela mais sentia e falava era angústia, incerteza. Sua escrita era uma necessidade, uma forma de se libertar e hoje entendo plenamente quando ela se declarou uma escritora amadora e não profissional, pelo fato de escrever quando sentia vontade.
Estou ávida para ler mais coisas dela, mas não hoje, não agora. Talvez eu nem goste do resto. Só sei que esse livro abriu um novo labirinto em minha mente.

“ Havia dias que eram tão áridos e desérticos que ela daria anos de sua vida em troca de uns minutos de graça. "
Clarice Lispector- Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres

6 comentários:

  1. Primeiramente, gostaria de dizer que adorei suas resposta do meme. A cor do seu cabelo é fantástica, e como seus posts, este meme mostrou que você é uma garota muito intensa e de personalidade marcante. Minha primeira e única leitura da Clarisse foi a coletânea de contos "A Imitação da Rosa", e como "O Livro dos Prazeres..." para você, esta me trouxe grandes reflexões, visto que me identifiquei demais com Laura, protagonista do conto que nomeia o livro "A Imitação da Rosa". Creio que devido meus momentos de ansiedade... Boa pascoa, muita paz, saúde e harmonia, pra você e toda sua família! ;*

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  2. ps: adora aquela frase da rosa luxemburgo :)

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  3. esse é o livro favorito da minha mãe :)
    eu nunca liguei para a clarice também. até que um dia eu senti necessidade de ler alguma coisa dela. no começo eu achava tudo tão sem pé nem cabeça (eu li 'um sopro de vida' (engraçado que eu comecei pelo último livro que ela publicou)), mas depois eu comecei a perceber que ela escreve como quem pensa em voz alta, e depois eu senti você se ela estivesse escrevendo aquilo que eu falei em voz alta sobre o que eu pensava!

    acredito que os livros dela têm uma mágica que em cada momento da sua vida eles fazem mais ou menos sentido dependendo do que você esta precisando ouvir.

    não morro de amores por ela. mas me sinto agradecida toda vez que leio algum livro seu! :)

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  4. Estou lendo esse livro exatamente pela matéria que estou pagando: estética. Me identifiquei de cara com o título desse post. Comecei a me interessar por Clarice no terceiro ano do ensino médio. Confesso que não li muitas obras dela e acho que ela era completamente maluca, acredito que disso venha meu encantamento por ela. Ela tem uma verdade, uma impulsividade, uma fome de escrita. Eu me identifico muito com o lado de olhar para si, com o lado introspectivo dela. Concordo quando você fala que é denso, não é livro pra ser lido rapidamente. Espero que ao final, eu tenha tido uma experiência estética tão forte quando a sua. :)

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  5. Como é que eu não tinha lido esse post ainda?? :D

    Ahh, Clarice, Clarice... Eu contei lá naquele post do meu blog como conheci Clarice e como não foi amor à primeira vista, né?? Olha, acho que pra uma adolescente de 15, 16 anos gostar dos livros dela, a pessoa tem que ser mto evoluída, mto madura... Não era meu caso, não é o caso da maioria das jovenzinhas, convenhamos. Acho que precisamos levar uns tapas da vida pra compreender a alma dessa mulher. Re-conheci Clarice aos 22 anos, quando namorava pela primeira vez. Minha ex, que é formada em Letras - Literatura, é fã e me indicou muitos livros. Foi aí que comecei a ler de verdade essa louca varrida, que virou paixão. Amo seus livros. Não li todos ainda, mas já li muitos, muitos mesmo. E o que eu sempre digo é que ela me lê, e não o contrário. Mesma coisa que você comentou. :)

    E posso indicar? Te indico a biografia dela, escrita por Benjamin Moser, chamada "Clarice,". É linda! É densa. E entender a vida dela é entender mto mais os seus livros.

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