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sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008



Pegou um giz e rabiscou em torno de si um círculo impreciso e mal feito,tal como acreditava ser sua feição.
“Aqui ninguém entra!”,dizia,e como uma leoa enjaulada,andava em círculos,envolvida numa atmosfera de medo e excitação constante.Ali era seu espaço,ninguém poderia entrar e nem ditar regras.Tudo seria como ela sempre sonhou,mesmo que de uma forma imprecisa,ilusória e totalmente insatisfatória.Mas não importava,pelo menos,poderia errar o quanto quisesse,fazer tudo o que tivesse vontade.Seria ela mesma,mas estaria sempre só.E se ali ninguém poderia entrar,dali também,ela nunca poderia sair.Se estivesse errada,nunca saberia,pois teria sempre e unicamente sua própria companhia.Se estivesse doente,nunca se curaria.Mas também haveria de ter suas vantagens.Quando certa,só ela saberia.Quando fizesse algo realmente bom,apenas ela desfrutaria dessa sua nova dádiva.Abriu mão do mundo,com todos os seus encantos e desencantos,para ficar o tempo todo dando voltas,andando em círculos sobre a mesma coisa até o fim da sua vida.Ela saberia tudo o que a sua sabedoria lhes concebesse,mas jamais teria conhecimento da sabedoria dos outros.
Aos poucos,não em muito tempo,foi notando que era legal ser ela,mas não apenas ela.Precisava de alguém que lhe ensinasse a crescer. Precisava de muitos eus que fizessem com que seu próprio se tornasse cada vez mais forte.Dra voltas na mesma coisa cansa e uma vida sem novidades,sem erros ou acertos,e sem ninguém para nos orientar,se torna algo extremamente ocioso e maçante.
Se sentou então e se pos a chorar.Chorou,chorou,como se toda a magoa e incerteza do mundo estivessem em seu peito.Se sentiu só e desprotegida e percebeu que aquele círculo vicioso nunca a levaria a nada.Afinal,o que seria melhor:Viver com sua única e certa imperfeição ,ou doar um pouco de si aos outros na (in)certeza de que também irá aprender algo com os mesmos?Mas era tarde,ela não sabia como sair desse círculo,e isso deixou a situação ainda mais angustiante.Foi só quando ouviu uma voz que vinha fora de seu círculo que lhe chamava e dizia “Bia,Aninha está aqui.A mamãe fez sorvete.Vem brincar com ela!” que ela percebeu quanta coisa estava desperdiçado se trancando em seu egoísmo e medo infantil.Não viu que o círculo não dava espaço para fuga.Pulou-o num só salto desajeitado e correndo,abriu os braços para a vida.Se deu conta então,de que o mundo era muito mais e tinha muito mais a oferecer se ela simplesmente vivesse sem a pretensão de estar sempre no papel principal,sendo apenas ela,e deixando os outros serem os outros.Na verdade,ela não se deu conta de nada disso,ela só se daria conta dessas coisas daqui uns 20 anos.Por enquanto,em seus apenas 4 anos de idade,tudo se resumia a Aninhas,carinhos e potes de sorvete.

2 comentários:

  1. "Sou meu próprio líder/ando em círculos..."

    Perceber o seu círculo é tão difícil que pessoas fogem dele e vivem nos potes de sorvete.
    Pote de sorvete é gostoso, mas seria melhor se fosse parte real do círculo

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  2. Oi, Day

    que bom vê-la voltar a escrever intensamente. Sou suspeito pra dizer isso, mas gosto muito de ler o que escreve, muito mesmo.

    depois comento mais especificamente...

    ah, e não se preocupa com o e-mail, não. Escreva quando puder (também escreverei qualquer dia). Eu também não quero, de jeito nenhum, perder o contato)! gosto muito de conversar contigo.

    Até breve! fique com Deus! bjo

    ps.: dediquei dois selos a seu blog . depois vê lá ;)

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